Dark Horse

Nunes defende produtora do filme de Bolsonaro e associa operação policial a ‘perseguição política’

Operação mira Instituto Conhecer Brasil por notas frias e contratos duplicados com a prefeitura de São Paulo

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O prefeito de São Paulo Ricardo Nunes (MDB)
O prefeito de São Paulo Ricardo Nunes (MDB) | Crédito: Lucas Bassi/Câmara de São Paulo

O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, defendeu Karina Gama, empresária alvo de mandatos de busca e apreensão cumpridos pela Polícia Civil de São Paulo nesta segunda-feira (1º). Nunes associou a investigação ao contato da empresária com o ex-presidente Jair Bolsonaro.

As falas de Nunes vêm na esteira da operação que teve por objetivo apurar possíveis irregularidades em um contrato firmado entre a Prefeitura de São Paulo, comandada por Ricardo Nunes (MDB), e o Instituto Conhecer Brasil. A investigação foca em indícios de fraude e desvio de verbas destinadas à instalação de internet gratuita em comunidades da cidade.

“Estão indo atrás de um contrato com a prefeitura em 2024 por causa do filme? Aí eu acho grave”, disse o prefeito. “Se a motivação, conforme vocês estão me dizendo, é por conta do filme… ‘Então estou indo atrás de um contrato com a prefeitura de 2024 por causa do filme’, aí é grave. Aí é perseguição política”.

Nunes teceu ainda elogios à empresária investigada. “Acho uma pessoa decente, uma mulher trabalhadora, uma mulher que, como qualquer outra, está batalhando e que conhece o Bolsonaro, né? Então está passando por isso”.

O Instituto Conhecer Brasil deveria entregar 5 mil pontos de internet nas periferias de São Paulo até junho de 2025. No entanto, até o momento, apenas 3.200 estão disponíveis. O inquérito aponta que o valor total do contrato atingiu a marca de R$ 157 milhões após a assinatura de termos aditivos.

A presidente do Instituto Conhecer Brasil é Karina Ferreira da Gama, também proprietária da Go Up Entertainment, empresa responsável pela produção de uma cinebiografia sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, filme intitulado “Dark Horse”.

Flávio Bolsonaro também defende investigada

O senador e pré-candidato à presidência da República, Flávio Bolsonaro, também defendeu Karina Gama durante passagem pelo Mercado Central de Belo Horizonte nesta segunda-feira (1). O parlamentar afirmou que estão sendo vítimas de uma “perseguição” e do que classificou como uma “pescaria probatória”. 

“Eu só não quero crer que a gente está sendo vítima, mais uma vez, de uma pescaria probatória, de uma perseguição, porque, se vão fazer uma operação para investigar irregularidades em um determinado contrato, que é de um ano e meio, dois anos para trás, tudo bem, as pessoas vão ter que explicar, o que não tem absolutamente nada a ver com o filme”, afirmou Flávio.

Irregularidades apuradas em contrato com a prefeitura

Agentes do Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania cumpriram mandados de busca e apreensão em endereços ligados à organização social Instituto Conhecer Brasil e na Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia.

A linha de investigação principal indica que pelo menos R$ 26 milhões teriam sido pagos sem a contrapartida dos serviços contratados, sob a suspeita de que parte desse montante tenha sido redirecionado para o financiamento da obra cinematográfica. O valor inicial do serviço seria de R$ 108 milhões, com custo mensal de R$ 1,8 mil por ponto de acesso.

A Polícia Civil e o Ministério Público Estadual também investigam a prestação de contas da organização social sob a suspeita de utilização de documentos falsos. As apurações indicam que a entidade apresentou aproximadamente R$ 4 milhões em notas fiscais que foram canceladas no sistema municipal logo após a emissão, com o intuito de justificar despesas. 

Em um episódio específico, uma nota de R$ 2 milhões emitida por uma empresa parceira foi invalidada no mesmo dia, mas constou na prestação de contas meses depois. Relatórios técnicos da Secretaria de Inovação e Tecnologia apontam ainda que a entidade emitiu três notas contra si mesma, totalizando R$ 1,4 milhão, prática vedada pela legislação, além de registrar pagamentos duplicados que somam cerca de R$ 925 mil.

O vínculo contratual da entidade também apresenta desdobramentos nas esferas criminal e política. Um dos contratos de subcontratação, no valor de R$ 12 milhões, foi firmado com a empresa Favela Conectada, cujo proprietário foi detido sob a acusação de feminicídio. No âmbito político, o deputado federal Mário Frias destinou R$ 2 milhões em emendas parlamentares ao Instituto Conhecer Brasil.

Prefeitura defende programa WiFi Livre

Em nota, a Prefeitura de São Paulo declarou que colabora com as investigações e que o material solicitado pelos investigadores já estava disponível para consulta pública por meio da prestação de contas do município. A gestão ressaltou que o programa opera regularmente e que a manutenção dos pontos instalados pode ser acompanhada em tempo real por meio do portal https://wifilivrecomunidades.org/sp. 

Segundo a gestão, o custo mensal por ponto de conexão em 2026 é de R$ 1.280,80, valor que a administração descreve como inferior às propostas recebidas em processos de anos anteriores.

A administração municipal também destacou que o chamamento público seguiu os ritos legais e ocorreu em 2024, período anterior ao início da produção do filme mencionado. O Tribunal de Contas do Município (TCM) já havia registrado questionamentos sobre a capacidade técnica da entidade e a estruturação do edital antes da formalização da parceria. 

A prefeitura sustenta que o aditivo contratual se destinou exclusivamente à manutenção da rede existente e que o processo cumpriu as exigências de transparência e economicidade.

“A Prefeitura repudia veementemente ilações de desvios de recursos públicos, uma vez que o contrato do Instituto Conhecer Brasil seguiu rigorosamente os princípios da legalidade, transparência e economicidade. Vale lembrar que o chamamento público, aberto por 30 dias para qualquer entidade interessada, ocorreu em 2024, quando não havia sequer produção do filme mencionado, e o processo cumpriu todas as exigências legais. Para 2026, o custo estimado na parceria com o instituto corresponde a R$ 1.280,80 por ponto/mês, significativamente menor do que as propostas recebidas em 2022, de R$ 2.026,26 por ponto/mês e R$ 5.092,14 por ponto/mês”, diz o órgão.

O caso segue sob investigação do MPSP e das autoridades policiais para a identificação de responsabilidades e a confirmação do destino das verbas públicas.

A reportagem procurou o Instituto Conhecer Brasil, mas não obteve retorno até a publicação da matéria.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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