E o Pix?

Ausência das milícias na medida de Trump contra PCC e CV é vitória de Flávio Bolsonaro, afirma economista Paulo Kliass

Para Paulo Kliass, as milícias fazem um trabalho muito parecido com o PCC e o CV no Brasil, e ficaram de fora da medida

No audio source provided.
O senador Flávio Bolsonaro e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump
O senador Flávio Bolsonaro e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump | Crédito: Reprodução/X

A recente decisão dos Estados Unidos de classificar grupos criminosos como o Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas representa um evidente ataque à soberania, mas, vindo de um governante como Donald Trump, precisa ser analisada com cautela.

O possível risco a uma interferência no sistema financeiro brasileiro, em especial ao Pix, caso haja uma ofensiva aos meios de financiamento de atividades desses grupos criminosos, é uma possibilidade, neste momento, remota. Essa é a análise do economista Paulo Kliass, em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato.

Para ele, o risco de um impacto direto não é o que mais preocupa. E sim, o fato de que essa decisão de Trump, junto a ter recebido recentemente o senador Flávio Bolsonaro (PL), embora não em agenda oficial, poder sinalizar um retorno de uma política mais ofensiva, como na época do tarifaço.

“Com relação ao Pix, eu teria outra preocupação. Está para sair uma medida, chamada de seção 301, que dá o direito de eles intervirem naqueles pontos em que acham que estão sendo prejudicados. Trump já declarou que o Pix atrapalha as empresas estadunidenses que trabalham com cartões de crédito no Brasil. Quase todo mundo usa o Pix e os caras querem acabar com ele. E, por exemplo, isso pode ser objeto de uma intervenção mais pesada, dependendo da forma como essa resolução vier a ser tomada. A mesma coisa com outras medidas no âmbito do tal do tarifaço, que a gente já esqueceu porque ele teve um recuo. Mas é possível”, avalia.

O economista completou, dizendo que empresas brasileiras e associações de exportadores já estavam preocupadas que pudesse haver uma retomada de uma política mais ofensiva do governo Trump e, de fato, isso se confirmou no fim de segunda-feira (1º), quando o governo dos EUA anunciou a conclusão da investigação comercial aberta contra o Brasil em 2025 e propôs a aplicação de uma nova tarifa de 25% sobre produtos brasileiros.

Por outro lado, Kliass questiona a ausência das milícias na medida anunciada por Trump e que Flávio Bolsonaro tem tomado como vitória dele. “Não é mera coincidência que não se fala das milícias, por exemplo, às quais a família Bolsonaro é completamente vinculada, principalmente no Rio de Janeiro. E por que elas não foram enquadradas? Já que PCC e Comando Vermelho são considerados pelo governo estadunidense como organizações terroristas, as milícias fazem um trabalho muito parecido do ponto de vista ‘empresarial’, de contas ilegais, de tráfico, de atividades de chantagem, tipicamente de organizações mafiosas, como era, né, a máfia tradicional na Itália e depois a máfia operando nos Estados Unidos”, aponta.

Sobre uma eventual fuga de investimentos estrangeiros no Brasil após a decisão de tornar PCC e CV organizações terroristas, Paulo Kliass pondera que “afirmar categoricamente” seria muito arriscado. E explica que há dois tipos de investidores e de investimentos no Brasil.

“O primeiro deles, e esse não nos interessa, é a entrada do capital especulativo externo no nosso sistema bancário, para usufruir da segunda maior taxa real de juros do mundo. Isso não é recente. Esse pessoal vem atrás basicamente de uma rentabilidade determinada pela Selic nas alturas. O outro tipo de investimento, aí sim, é o capital que vem para eventualmente abrir uma empresa, para inovar em um setor. Isso pode gerar emprego. Tem um efeito que a gente chama de efeito multiplicador na economia. Mas também muita calma nessa hora, porque o Brasil não pode ficar se oferecendo, mesmo para esse investimento externo no setor produtivo, oferecendo todo tipo de vantagem sem exigir contrapartidas”, afirma.

“Essas medidas de Trump podem efetivamente ter algum grau de prejuízo com relação, por exemplo, a empresas estadunidenses que venham investir aqui. Mas essas não estão vindo, porque Trump está justamente numa política de atrair o capital de volta para o seu território. Então não vai estimular muito a saída de empresas estadunidenses”, conclui o economista.

Para ouvir e assistir

O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 12h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

Editado por: Rafaella Coury

|

Newsletter