O Brasil vive uma contradição que já não pode mais ser ignorada: nós, mulheres, somos a maioria da população, a maioria do eleitorado, somos linha de frente contra o avanço da extrema direita e, ainda assim, seguimos longe dos espaços reais de poder e tratadas como pauta secundária, mesmo sendo as mais afetadas pela violência e pela desigualdade.
Hoje, segundo o IBGE, as mulheres representam mais de 52% do eleitorado brasileiro, somando mais de 81 milhões de eleitoras. Em 2022, essa parcela foi determinante para a vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). E as pesquisas para 2026 mostram que as mulheres seguem sendo a principal barreira eleitoral contra o bolsonarismo.
Essa é a conta que não fecha: se somos maioria numérica e eleitoral, por que ainda não somos prioridade política?
A resposta passa diretamente pela sub-representação feminina nos espaços de decisão. O Brasil continua tendo um dos parlamentos mais masculinos do mundo. E isso produz consequências concretas: nossas pautas seguem sem centralidade, nossas vidas seguem sem prioridade e nossas demandas continuam sendo tratadas apenas no campo simbólico.
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Não basta mais discurso. Não basta apenas acolher vítimas depois da violência. Precisamos falar de prevenção, segurança e poder. Os números são alarmantes. O primeiro trimestre de 2026 registrou recorde histórico de feminicídios no Brasil: 399 mulheres assassinadas entre janeiro e março. Parte dessas vítimas já possuía medida protetiva. Ou seja: muitas vezes, o Estado chega tarde demais.
Enquanto isso, a extrema direita compreendeu algo que parte do campo progressista ainda evita enfrentar: mulheres querem proteção concreta, respostas práticas e segurança para viver. E, diante do vazio deixado nesse debate, a direita ocupa espaço oferecendo soluções simplistas e armamentistas que encontram eco em uma população atravessada pelo medo cotidiano.
Há hoje uma tentativa evidente de captura das pautas das mulheres pela extrema direita. Até o Flávio Bolsonaro (PL-RJ) votou a favor do PL da Misoginia. Não porque ele defenda nossas vidas, mas porque entendeu nossa potência eleitoral. Ao mesmo tempo em que setores bolsonaristas atacam direitos femininos, também constroem acenos simbólicos ao eleitorado feminino e religioso.
É evidente que o governo Lula realizou avanços importantes: recriou o Ministério das Mulheres, fortaleceu políticas sociais e anunciou um pacto nacional contra o feminicídio.
Outra vitória importante foi a aprovação da PEC do fim da escala 6×1, pauta central do governo Lula, que vai beneficiar a todos os trabalhadores, mas especialmente às mulheres que historicamente cumprem múltiplas jornadas de trabalho. Cabe destacar que essa aprovação foi capitaneada no Congresso pela deputada federal Erika Hilton (Psol-SP): uma mulher trans garantiu essa conquista histórica para o povo brasileiro.
Mas a realidade exige mais. O desafio agora é transformar presença simbólica em prioridade concreta. Não basta reeleger Lula. É preciso eleger mulheres comprometidas com a vida das mulheres para o Congresso, assembleias legislativas e espaços de direção política. Precisamos de paridade real nos espaços de poder.
Enquanto muitos ainda tratam as pautas femininas como “identitárias”, os dados mostram outra realidade: são as mulheres que podem decidir os rumos do país. Mais uma vez, talvez sejamos nós que impediremos o avanço do fascismo. A pergunta é: o que falta para finalmente nos ouvirem?
*Verônica Lima (PT) é deputada estadual pelo Rio de Janeiro, eleita em 2022 com 55.738 votos, e atualmente exerce seu primeiro mandato na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), onde preside a Comissão Permanente de Cultura. Foi vereadora de Niterói por três mandatos consecutivos, tornando-se a primeira mulher negra eleita para o cargo na cidade.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.
