NOVA PERSPECTIVA

‘O jornalismo precisa parar de ser o eco do machismo estrutural’, defendem autoras de manual sobre cobertura de feminicídios

Livro propõe mudanças práticas para transformar a forma como a imprensa noticia assassinatos de mulheres

No audio source provided.
Autoras do livro Niara de Oliveira e Vanessa Rodrigues
Autoras do livro Niara de Oliveira e Vanessa Rodrigues | Crédito: Guilherme Solera

A forma como o jornalismo brasileiro cobre os casos de feminicídio está no centro das reflexões apresentadas no livro “Voz ativa: o manual do jornalismo antifeminicídio”, das jornalistas Niara de Oliveira e Vanessa Rodrigues. A obra surge como um desdobramento da pesquisa realizada pelas autoras em “Histórias de morte matada contadas feito morte morrida”, que analisou criticamente a construção das narrativas sobre feminicídios na imprensa brasileira.

Segundo Vanessa Rodrigues, o novo livro nasceu da necessidade de oferecer caminhos concretos para transformar práticas consolidadas nas redações. “O Voz Ativa surgiu de uma inquietação muito prática: depois de mapear em ‘Histórias de morte matada contadas feito morte morrida’ como a imprensa desumaniza as vítimas, percebemos que precisávamos entregar propostas de solução. O manual é o ‘como fazer’ na prática, feito para o jornalista que está no calor do fechamento e quer mudar a narrativa agora, sem precisar recorrer a teorias complexas”, afirma.

Ela destaca três mudanças consideradas urgentes para alterar o cotidiano das redações. A primeira é abandonar a voz passiva nas notícias. “Precisamos parar de tratar o feminicídio como um fenômeno da natureza. ‘Mulher é encontrada morta’ é uma frase que apaga o autor. O primeiro passo para a justiça é a precisão do lead: ‘Homem assassina mulher’”, defende.

Outro ponto é interromper a busca por justificativas para o crime. Para Rodrigues, ainda é comum que reportagens investiguem aspectos da vida íntima da vítima, como relacionamentos, roupas ou desejos de separação, em vez de focar na violação de direitos humanos e no descumprimento da legislação.

A terceira mudança proposta é retirar o feminicídio da lógica exclusiva da editoria policial. “O assunto precisa sair da editoria de crime e ir para as páginas de política e direitos humanos”, afirma.

Niara de Oliveira explica que, enquanto a pesquisa anterior identificou e problematizou padrões narrativos, o novo livro busca oferecer respostas. “No ‘Histórias de morte matada contadas feito morte morrida’ identificamos o padrão da narrativa de feminicídios e problematizamos a questão. O manual é como um encerramento desse ciclo. Apresentamos as soluções de forma prática e objetiva de como fazer diferente.”

 ‘Quando o jornalismo retira o foco da vítima e o coloca no agressor, ele remove o manto de invisibilidade que protege a violência de gênero’, enfatiza Vanessa Rodrigues | Crédito: Divulgação

Linguagem nunca é neutra

As autoras partem do princípio de que a linguagem jornalística não é neutra. Para Rodrigues, cada escolha de palavras carrega implicações políticas. “A ideia de que o jornalismo é neutro é uma ilusão perigosa. Quando escolhemos uma palavra em vez de outra, estamos fazendo uma escolha política. Se o jornalista se diz ‘neutro’ diante de uma barbárie, ele está, na verdade, sendo conivente com o que está errado.”

Entre os problemas mais recorrentes na cobertura, ela aponta o uso da voz passiva, expressões como “crime passional” e “motivado por ciúmes”, o julgamento moral da vítima e a exploração sensacionalista dos detalhes da violência. “Essas práticas criam um imaginário onde a violência é ‘explicável’. Isso pode desencorajar denúncias e enviar uma mensagem de impunidade: no fim, a culpa parece ser sempre da mulher”, afirma.

Oliveira reforça que todas as escolhas narrativas têm consequências. “Tudo no jornalismo é escolha. Logo, não é possível haver neutralidade. Usar a voz passiva, ou buscar a motivação do crime no corpo da vítima morta e ainda não humanizá-la são escolhas, mesmo que não exatamente conscientes. Talvez o maior erro seja cobrir de forma acrítica, no modo automático.”

Centralizar o agressor

Uma das principais propostas do manual é deslocar o foco narrativo da vítima para o agressor. Segundo Rodrigues, essa mudança altera profundamente a compreensão social sobre a violência de gênero. “Quando o jornalismo retira o foco da vítima e o coloca no agressor, ele remove o manto de invisibilidade que protege a violência de gênero.”

Ela argumenta que essa perspectiva evidencia que o crime foi uma escolha do autor, deslocando o debate sobre o comportamento da vítima para a responsabilização do agressor e para as falhas do Estado em protegê-la. “A pergunta deixa de ser ‘por que ela não saiu de casa?’ e passa a ser ‘por que as medidas de proteção falharam contra este homem?’”

Oliveira resume a questão de forma direta. “O jornalismo usa a voz ativa sempre que quem comete o crime é uma mulher. É só fazer igual.”

Raça e classe não podem ser ignoradas

O livro também destaca a importância de considerar os marcadores raciais e sociais na cobertura dos feminicídios. Na avaliação de Rodrigues, ignorar raça e classe significa ocultar parte essencial da realidade brasileira. “No Brasil, não existe feminicídio ‘abstrato’; o crime tem alvo: mulheres negras e periféricas. Quando a imprensa apaga esses marcadores, ela esconde quem são as vítimas mais vulneráveis e onde o Estado é mais ausente.”

De acordo com ela, a ausência desse recorte contribui para a invisibilidade das mulheres negras e dificulta a formulação de políticas públicas eficazes. “Sem olhar para a cor e para o endereço, o jornalismo entrega uma meia-verdade que protege o sistema e abandona quem mais precisa de proteção.”

Mudanças possíveis nas redações

As autoras defendem que uma cobertura mais ética depende de mudanças metodológicas concretas. Entre as medidas sugeridas estão substituir expressões como “corpo encontrado” por frases que identifiquem o autor do crime; contextualizar os casos dentro de um cenário mais amplo de violência de gênero; ouvir especialistas e familiares que possam falar sobre a vida da vítima; incluir informações de serviço, como os canais de denúncia; e explicitar questões relacionadas à raça e ao território. “Ética exige método, não apenas boa vontade”, afirma Rodrigues.

Para ela, o desafio é fazer com que o jornalismo deixe de reproduzir estruturas machistas e passe a contribuir para seu enfrentamento. “O jornalismo precisa parar de ser o eco do machismo estrutural para se tornar a voz que finalmente o interrompe.”

Na avaliação de Rodrigues, o jornalismo tem papel decisivo na forma como a sociedade compreende a violência contra as mulheres. “No feminicídio, esse poder foi usado muitas vezes para silenciar vítimas e proteger agressores. A nossa proposta é qualificar o relato. Queremos um jornalismo que se comprometa com a vida, onde cada profissional sinta o peso ético da sua escrita e da sua voz.”

Oliveira acrescenta que a mudança não depende apenas de uma perspectiva feminista ou de direitos humanos, mas também do compromisso com os princípios básicos da profissão. “A forma narrativa escolhida pela imprensa para os feminicídios é errada. Ainda que a motivação não seja a da nossa perspectiva de humanização das mulheres, defesa dos direitos humanos e de que o jornalismo deve se tornar parte da equação no combate ao feminicídio, que seja pela vontade de fazer o certo.”

O livro pode ser adquirido neste link.

Editado por: Katia Marko

|

Newsletter