DISPUTA DE SENTIDO

Quem veste os sapatos da Venezuela?

Ao conhecer as comunas tive a real noção do que significa consciência de classe e poder popular

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Curso de Comunicação Política reuniu mais de 100 pessoas de 23 países em Caracas
Curso de Comunicação Política reuniu mais de 100 pessoas de 23 países em Caracas | Crédito: Divulgação/Lauicom

Há exatos 5 meses, num sábado, dia 3 de janeiro de 2026, era acordada cedo da manhã com um chamado urgente de uma querida amiga: “EUA atacou a Venezuela, sequestrou o presidente Nicolás Maduro e a deputada Cília Flores. Mais de 100 pessoas mortas, a maioria jovens”. O que eu não sabia naquele momento é que pouco tempo depois estaria pisando pela primeira vez neste país que suscita tantas “narrativas”.

No feriado, 21 de abril, uma nova ligação. Agora do coordenador do Movimento de Amizade Solidariedade Venezuela e Cuba, Yhonny Garcia Calles, me convidando para fazer parte da II Corte Internacional de Comunicação Política da Universidade Internacional de Comunicação (Lauicom), em Caracas.

Cheguei no país no dia 10 de maio, sem ter a mínima noção de tudo que viveria naqueles 15 dias. Encontrei uma cidade em pleno movimento, cheia de belezas e um povo acolhedor. Esperava por esse momento há bastante tempo, aliás desde a eleição do comandante Hugo Chávez Frías em 1999, meu coração já vibrava junto com o povo venezuelano. Acompanhei de longe o processo constituinte que elaborou a Constituição da República Bolivariana de Venezuela. Aliás, o preâmbulo é algo que deveria ser lido e relido muitas vezes. Também sofri junto com o golpe de 2002 e festejei a volta de Chávez nos braços do povo.

Mural com o preâmbulo da Constituição da República Bolivariana de Venezuela no salão da Lauicom
Mural com o preâmbulo da Constituição da República Bolivariana de Venezuela no salão da Lauicom | Crédito: Katia Marko

Tive a honra de ver e ouvir Hugo Chávez no assentamento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), em Tapes, durante o Fórum Social Mundial em 2005. Sua liderança e carisma eram inquestionáveis. Chorei quando o perdemos de um câncer até hoje muito suspeito. Acompanho o processo de formação das comunas, tarefa deixada a Nicolás Maduro pelo comandante Chávez. E meu coração e plena atenção estavam lá no 3 de janeiro de 2026.

Uma comunicação para a libertação

Chegar à Venezuela foi como rever amigos de muito tempo. E, realmente, foi como me senti durante estas duas semanas com as mais de 100 pessoas, de 23 países, que participaram desse rico encontro para estudar a “artilharia do pensamento”, como dizia o libertador Simón Bolívar. Estava lá toda a América Latina representada, além dos EUA, Espanha, Armênia, Moçambique e Rússia. Jornalistas, comunicadores, militantes políticos.

Após mais de 30 anos atuando na comunicação popular, cheguei em casa. Encontrei uma universidade criada para formar comunicadores capazes de enfrentar os desafios da comunicação contemporânea e da guerra semiótica. A universidade tem como objetivo central treinar especialistas, pesquisadores e comunicadores para utilizar a semiótica como uma ferramenta de combate na “disputa pelo sentido”. Ela busca superar as escolas tradicionais (funcionalistas e estruturalistas) para desenvolver uma semiótica marxista e crítica.

A instituição abriga a Cátedra Sean MacBride que recupera e atualiza o relatório MacBride da Unesco de 1980 (“Um só mundo, vozes múltiplas”). Esta cátedra foca na denúncia da concentração monopólica dos meios e na busca por um novo ordenamento mundial da informação e da comunicação.

A Lauicom também abriga um laboratório de semiótica que funciona como um centro de análise e intervenção. Seu papel é desconstruir “signos operadores”, ou seja, analisa termos como “narcoterrorismo”, identificando-os não como descrições de fatos, mas como operações estratégicas que criam um “fechamento cognitivo” na opinião pública para aceitar intervenções militares ou bloqueios econômicos como se fossem medidas de segurança. Além disso, denuncia a “Engenharia do Consentimento”. A instituição desmascara como o imperialismo fabrica “metáforas absolutas” (o bem contra o mal) para criminalizar Estados e esconder razões materiais, como o controle de recursos energéticos e o petróleo.

O projeto foi desenhado pelo doutor em filosofia e atual reitor Internacional, Fernando Buen Abad, em colaboração direta com Hugo Chávez para criar uma estrutura que oferecesse respostas técnicas e científicas à manipulação industrializada operada pelos grandes monopólios midiáticos. E o local não poderia ser mais simbólico: a antiga sede do jornal El Nacional, que a entregou para pagar uma indenização após um processo por difamação ao ministro Diosdado Cabello, que cedeu a propriedade para a criação do Lauicom pelo presidente Nicolás Maduro Moros, em 4 de dezembro de 2019. Hoje o projeto universitário é liderado pela deputada da Assembleia Nacional pelo PSUV, Tania Díaz, que assumiu a reitoria em março de 2022.  

‘Abrindo cortinas’

O doutor em Filosofia e atual reitor Internacional, Fernando Buen Abad, pensou o projeto da Lauicom junto com Hugo Chavez
O doutor em filosofia e atual reitor Internacional, Fernando Buen Abad, pensou o projeto da Lauicom junto com Hugo Chávez | Crédito: Divulgação/Lauicom

Em suas aulas de Semiótica Crítica, inspirado em conceitos de Umberto Eco, Buen Abad defendeu que a guerrilha semiótica é uma forma de intervenção política onde as forças populares utilizam criatividade e ciência para desorganizar a narrativa hegemônica.

Ele utilizou a história do “Mágico de Oz” como uma metáfora central para explicar a “ciência das aparências” e o funcionamento das máquinas de guerra ideológica. Buen Abad mostrou a cena final do filme onde, após uma longa jornada cheia de obstáculos, descobre-se que o “monstro enorme” que ameaçava e assustava a todos era, na verdade, uma farsa operada por um “velhinho” escondido atrás de uma cortina, manejando todo o aparato tecnológico.

Na semiótica crítica, o monstro representa as aparências fabricadas, o discurso hegemônico, as notícias falsas (fake news) e os estigmas criados para amedrontar a população. A cortina é o aparato midiático e os fluxos ideológicos que ocultam a realidade material e os interesses de classe. Por fim, o mágico (o velhinho), são os donos do capital, os laboratórios de guerra psicológica e os “especialistas” assalariados que fabricam esses monstros para manter o controle social.

O autor argumenta que existem equivalentes desse “mágico” em todos os lugares, fabricando monstros que angustiam e paralisam os povos para que estes aceitem a exploração. A tarefa da semiótica emancipadora é, portanto, desmontar esse “teatro” e mostrar que o poder desses monstros reside na manipulação técnica e simbólica, permitindo que a realidade volte a ser compreendida em sua espessura material e histórica.

Para Buen Abad, a semiótica não deve ser um exercício de mera classificação de signos, mas sim uma ferramenta para “correr a cortina”. Para ele, as inversões ideológicas funcionam como uma “teologia comunicacional” que posiciona o poder imperial como salvador universal, enquanto qualquer forma de resistência ou soberania é percebida pela opinião pública como uma “ameaça diabólica”.

Na visão do filósofo, vivemos uma Guerra de Quarta Geração onde as mentes humanas são os “campos de batalha”, e estamos passando pela maior migração cognitiva da história.

A revolução não será transmitida

Em maio de 2025, a Venezuela inaugurou em Caracas a Praça da Vitória da Grande Guerra Patriótica contra o nazifascismo, que presta homenagem aos 27 milhões de soviéticos mortos durante a Segunda Guerra Mundial
Em maio de 2025, a Venezuela inaugurou em Caracas a Praça da Vitória da Grande Guerra Patriótica contra o nazifascismo, que presta homenagem aos 27 milhões de soviéticos mortos durante a Segunda Guerra Mundial | Crédito: Katia Marko

Parafraseando o documentário, filmado e dirigido pelos irlandeses Kim Bartley e Donnacha O’Briain, que descortinou ao mundo os acontecimentos do golpe contra o governo do presidente Hugo Chávez, em abril de 2002, posso afirmar que o que vi e vivenciei em Caracas vai muito além do que está nos grandes jornais, Tvs e rádios ou nas redes proprietárias das big techs, ditas sociais. O essencial não nos foi invisível, e sentimos, coração a coração, o novo mundo que está se dando agora.

Trouxe na mala uma infinidade de conhecimentos. As mais de 120 horas de aulas de história, economia, disputa de sentido, o “admirável mundo novo” da Inteligência Artificial, guerra cognitiva, ditadura das fake news, fascismo tecnológico, análise crítica do discurso, liderança, agitação política… Mas, muito mais do que isso, vi um povo unido, construindo o poder popular. Um povo que tem consciência que a maior arma é o coletivo. E que precisa muito estudar sua história, conhecer seus verdadeiros heróis e ter os meios nas mãos da classe trabalhadora.

Um povo que resiste há mais de 20 anos de bloqueios e ataques. Um povo que foi bombardeado e teve seu presidente e a primeira combatente sequestrados, sem acusações reais, e estão sob o tacão de ferro do império. Um povo organizado em 5.418 comunas e milhares de Conselhos Comunais, na sua maioria comandadas por mulheres. Na Venezuela, o futuro ancestral, comunal e feminista já começou.

Um povo que alimenta em seu coração a mística de Simon Bolívar, Hugo Chávez e Nicolás Maduro. Um povo que só quer viver em paz. E é para isso que a presidenta encarregada Delcy Rodrigues, que ficou com a missão pensada junto com Maduro, está peregrinando pelo país. Como lembrou a prefeita de Caracas, Carmen Meléndez, em uma visita que fizemos à Casa Del Obrero. “A última proclama do nosso comandante Chávez foi: ‘Virão tempos difíceis’. Mas diante desses tempos difíceis, ‘a unidade, a unidade, a unidade dos patriotas’. E ainda questionou: “quem veste os sapatos de Delcy?”

Final de tarde na comuna do Forte Tiuna, quando fomos ouvir os relatos de quem sofreu o bombardeio de 3 de janeiro de 2026
Final de tarde na comuna do Forte Tiuna, quando fomos ouvir os relatos de quem sofreu o bombardeio de 3 de janeiro de 2026 | Crédito: Katia Marko

Por fim, recordo uma linda e emocionante fala de despedida do agora hermano de Cuba, o doutor em filosofia e professor universitário Carlos Alberto Suárez Arcos. Simón Bolívar possuía duas montarias principais: uma égua negra chamada Tormenta, utilizada para o trajeto cotidiano por ser forte, e um cavalo branco de batalha chamado Palomo.

Nas palavras de Carlos, o povo venezuelano aprendeu a “caminhar montado sobre uma tormenta”, assim como Bolívar fazia em suas viagens diárias. Resistindo, avançando e persistindo mesmo em meio a crises ou dificuldades severas. E “cavalga sobre uma pomba” (paz) para travar sua guerra e alcançar a vitória.

O que esse povo que resiste e está na linha de frente da construção da Pátria Grande espera de nós? Coragem! Nesse momento, nosso papel, enquanto hermanas e hermanos, é unirmos nossas vozes pela libertação de Nicolás e Cília e contra as sanções e o bloqueio criminoso dos EUA à Venezuela e Cuba. As cartas estão na mesa, só não vê quem não quer.

Venezuela não é uma ameaça, é esperança!

* Katia Marko, editora-chefe do Brasil de Fato RS, vice-presidenta do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do RS (SindJoRS) e coordenadora-geral do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC).

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Vivian Virissimo

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