O novo plano quinquenal da China dedicado exclusivamente à agricultura e às áreas rurais estabeleceu um sistema permanente de monitoramento para prevenir o retorno à pobreza. A novidade consiste em identificar de maneira contínua famílias em risco, aplicar medidas de apoio diferenciadas por perfil e integrar ao sistema de assistência social.
O documento, publicado pelo Conselho de Estado na última segunda-feira (02), identifica a modernização rural como o ponto mais sensível do projeto nacional de desenvolvimento e organiza a resposta em nove eixos: segurança alimentar, consolidação dos resultados do combate à pobreza, ciência e tecnologia, ampliação da renda rural, transição verde, construção de vilas rurais habitáveis, melhoria das políticas de apoio e garantias institucionais.
Educação, saúde, moradia e acesso à água potável seguem como indicadores de acompanhamento do novo mecanismo. A estrutura combina apoio produtivo, voltado para emprego e geração de renda, e proteção social para as situações de maior vulnerabilidade.
Para Tu Shengwei, pesquisador da Academia de Pesquisa Macroeconômica da Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma, o plano enfrenta uma defasagem estrutural. “A modernização da agricultura e das áreas rurais permanece como o elo mais fraco entre as diversas tarefas da modernização nacional. Este plano envia um sinal claro de que precisamos acelerar os esforços para corrigir essa defasagem”, afirmou, segundo a emissora CCTV.
O mecanismo dá forma a uma agenda em consolidação desde o encerramento do período de transição pós-erradicação da pobreza, concluído com o 14º Plano Quinquenal.
No balanço divulgado em março, às vésperas das Duas Sessões, o governo informou que mais de 7 milhões de famílias em risco de retornar à pobreza haviam sido identificadas e assistidas ao longo de 2021-2025, e que mais de 30 milhões de trabalhadores cujas famílias haviam saído da situação de pobreza mantiveram empregos formais durante os cinco anos do plano, segundo o ministro da Agricultura Han Jun.
A renda per capita disponível dos moradores rurais em condados anteriormente pobres cresceu acima da média nacional pelo quinto ano consecutivo em 2025, segundo o Escritório Nacional de Estatísticas (NBS).
Os 160 condados classificados como prioritários para a revitalização rural continuarão recebendo apoio concentrado no novo ciclo. Em janeiro, ao apresentar as diretrizes para 2026, o Ministério da Agricultura havia anunciado um mecanismo de monitoramento “unificado, padronizado, preciso e que se ajusta de forma dinâmica” para detecção e intervenção precoces, segundo Chen Bangxun, diretor do Departamento de Planejamento de Desenvolvimento do ministério.
Inteligência artificial e agricultura de precisão
O plano dedica um capítulo à inteligência artificial no campo, mandato inédito nos planos quinquenais agrícolas anteriores. O documento prevê a construção de uma infraestrutura de dados de grande escala, multimodal e de alta qualidade para a agricultura e as vilas rurais, com padrões técnicos unificados e serviços de governo digital integrados.
Uma rede de observação que abrange satélites, aeronaves e sensores terrestres deverá fornecer a base para os sistemas de produção de precisão.
Em janeiro, o Ministério da Agricultura informou que a taxa de mecanização nas fases de cultivo, plantio e colheita chegou a 76,7%, em 2025. Já o número de drones agrícolas em operação no país superou 300 mil unidades no ano passado, cobrindo uma área superior a 30,7 milhões de hectares por ano.
“Continuaremos a promover a aplicação da inteligência artificial e outras tecnologias no setor agrícola, expandindo os cenários de uso de drones, Internet das Coisas e robôs, tornando a produção mais precisa e eficiente”, afirmou Zhou Yunlong, diretor do Departamento de Ciência e Tecnologia do ministério.
‘Dez Mil Empresas Revitalizam Dez Mil Vilas Rurais’
O plano reafirma o programa “Dez Mil Empresas Revitalizam Dez Mil Vilas” (万企兴万村) como um dos vetores de participação privada na revitalização rural. O programa mobiliza empresas a assumirem compromissos de investimento produtivo, capacitação de trabalhadores ou desenvolvimento de infraestrutura em áreas específicas, sob a coordenação da Federação Nacional da Indústria e Comércio e o Ministério da Agricultura e Assuntos Rurais.
No balanço de março, Han Jun apontou que, ao longo do 14º Plano Quinquenal, o programa integrou um conjunto mais amplo de mobilização que incluiu 310 unidades do governo central apadrinhando condados anteriormente pobres e 150 mil equipes de trabalho residentes em vilas. A cooperação entre as regiões leste e oeste do país e o apoio de organizações sociais por meio de projetos de parceria completam esse sistema, que o novo plano mantém e expande.
O plano também prevê a expansão da cooperação agrícola com países da Iniciativa Cinturão e Rota, a diversificação das fontes de importação de produtos agrícolas e a participação ativa da China na governança alimentar internacional.
Em março, o porta-voz da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês (CPPCC), Liu Jieyi, informou que a China havia firmado acordos de cooperação com mais de 150 países no âmbito da Iniciativa, instalado mais de 30 Ateliês Luban de formação técnica na Ásia, África e Europa, sendo 17 no continente africano, e disseminado a tecnologia de cultivo de juncao em mais de 100 países. O novo plano prevê a ampliação desse escopo, incluindo o desenvolvimento do comércio de serviços agrícolas com países parceiros.
Nesse sentido, os países africanos, cuja maioria (52 de 54), participam da Iniciativa do Cinturão e Rota, têm o potencial de ampliar seu comércio agrícola com a China a partir da política de tarifa zero estendida, em maio, a todos os 53 países com os quais Pequim mantém relações diplomáticas.
A medida, anunciada pela Comissão de Tarifas Aduaneiras do Conselho de Estado e válida até abril de 2028, amplia o programa anterior para os 33 países africanos mais empobrecidos e elimina barreiras para produtos como café e cacau, sem limite de volume.
Para itens considerados sensíveis ao mercado interno chinês, como cereais, açúcar e algodão, a isenção se aplica até cotas específicas, segundo o Ministério do Comércio.
Capacidade produtiva de grãos e independência tecnológica
Em termos de segurança alimentar, o plano estipula como meta, aumentar até a produção de grãos até 2030 em mais de 100 bilhões de jin, equivalente a cerca de 50 milhões de toneladas. A ação para atingir esse número foi delineada em abril de 2024 pela Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma, com a publicação do Plano de Ação para o Aumento de Capacidade Produtiva de Grãos. A produção de 2025 atingiu 1,43 trilhão de jin (743 milhões de toneladas), novo recorde e segundo ano consecutivo acima de 1,4 trilhão de jin, segundo o Escritório Nacional de Estatísticas.
No setor do maquinário agrícola, o plano orienta a formação de clusters de manufatura avançada, com exigência de que os sistemas de inteligência artificial agrícola sejam desenvolvidos com propriedade intelectual autônoma.
Os subsídios para compra e uso de maquinário agrícola serão maiores para os equipamentos de melhor desempenho, e máquinas antigas passarão a ser retiradas de operação com apoio estatal para substituição.
Hu Xiangdong, diretor do Instituto de Economia e Desenvolvimento Agrícola da Academia Chinesa de Ciências Agronômicas, descreveu as prioridades do plano. “Duas linhas vermelhas precisam ser firmemente mantidas: a primeira é a segurança alimentar e a segunda é evitar o retorno em massa à pobreza. Além disso, há três pilares: transformar a agricultura em uma grande indústria moderna, garantir que as vilas rurais disponham de condições modernas de vida e permitir que os agricultores levem uma vida próspera”, disse à CCTV.
