Revitalização Rural

China: novo plano quinquenal da agricultura traz mecanismo permanente contra retorno à pobreza

Documento prevê uso de IA em grande escala no campo e aumento na produção de grãos em 50 milhões de toneladas até 2030

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"curso intensivo prático de transmissão ao vivo" para camponeses no escritório de revitalização rural em Penglai, cidade de Yantai, província de Shandong, no leste da China, 26 de junho de 2025
“curso intensivo prático de transmissão ao vivo” para camponeses no escritório de revitalização rural em Penglai, cidade de Yantai, província de Shandong, no leste da China, 26 de junho de 2025 | Crédito: Adek Berry / AFP

O novo plano quinquenal da China dedicado exclusivamente à agricultura e às áreas rurais estabeleceu um sistema permanente de monitoramento para prevenir o retorno à pobreza. A novidade consiste em identificar de maneira contínua famílias em risco, aplicar medidas de apoio diferenciadas por perfil e integrar ao sistema de assistência social.

O documento, publicado pelo Conselho de Estado na última segunda-feira (02), identifica a modernização rural como o ponto mais sensível do projeto nacional de desenvolvimento e organiza a resposta em nove eixos: segurança alimentar, consolidação dos resultados do combate à pobreza, ciência e tecnologia, ampliação da renda rural, transição verde, construção de vilas rurais habitáveis, melhoria das políticas de apoio e garantias institucionais.

Educação, saúde, moradia e acesso à água potável seguem como indicadores de acompanhamento do novo mecanismo. A estrutura combina apoio produtivo, voltado para emprego e geração de renda, e proteção social para as situações de maior vulnerabilidade.

Para Tu Shengwei, pesquisador da Academia de Pesquisa Macroeconômica da Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma, o plano enfrenta uma defasagem estrutural. “A modernização da agricultura e das áreas rurais permanece como o elo mais fraco entre as diversas tarefas da modernização nacional. Este plano envia um sinal claro de que precisamos acelerar os esforços para corrigir essa defasagem”, afirmou, segundo a emissora CCTV.

O mecanismo dá forma a uma agenda em consolidação desde o encerramento do período de transição pós-erradicação da pobreza, concluído com o 14º Plano Quinquenal.

No balanço divulgado em março, às vésperas das Duas Sessões, o governo informou que mais de 7 milhões de famílias em risco de retornar à pobreza haviam sido identificadas e assistidas ao longo de 2021-2025, e que mais de 30 milhões de trabalhadores cujas famílias haviam saído da situação de pobreza mantiveram empregos formais durante os cinco anos do plano, segundo o ministro da Agricultura Han Jun.

A renda per capita disponível dos moradores rurais em condados anteriormente pobres cresceu acima da média nacional pelo quinto ano consecutivo em 2025, segundo o Escritório Nacional de Estatísticas (NBS).

Os 160 condados classificados como prioritários para a revitalização rural continuarão recebendo apoio concentrado no novo ciclo. Em janeiro, ao apresentar as diretrizes para 2026, o Ministério da Agricultura havia anunciado um mecanismo de monitoramento “unificado, padronizado, preciso e que se ajusta de forma dinâmica” para detecção e intervenção precoces, segundo Chen Bangxun, diretor do Departamento de Planejamento de Desenvolvimento do ministério.

Inteligência artificial e agricultura de precisão

O plano dedica um capítulo à inteligência artificial no campo, mandato inédito nos planos quinquenais agrícolas anteriores. O documento prevê a construção de uma infraestrutura de dados de grande escala, multimodal e de alta qualidade para a agricultura e as vilas rurais, com padrões técnicos unificados e serviços de governo digital integrados.

Uma rede de observação que abrange satélites, aeronaves e sensores terrestres deverá fornecer a base para os sistemas de produção de precisão.

Em janeiro, o Ministério da Agricultura informou que a taxa de mecanização nas fases de cultivo, plantio e colheita chegou a 76,7%, em 2025. Já o número de drones agrícolas em operação no país superou 300 mil unidades no ano passado, cobrindo uma área superior a 30,7 milhões de hectares por ano.

“Continuaremos a promover a aplicação da inteligência artificial e outras tecnologias no setor agrícola, expandindo os cenários de uso de drones, Internet das Coisas e robôs, tornando a produção mais precisa e eficiente”, afirmou Zhou Yunlong, diretor do Departamento de Ciência e Tecnologia do ministério.

‘Dez Mil Empresas Revitalizam Dez Mil Vilas Rurais’

O plano reafirma o programa “Dez Mil Empresas Revitalizam Dez Mil Vilas” (万企兴万村) como um dos vetores de participação privada na revitalização rural. O programa mobiliza empresas a assumirem compromissos de investimento produtivo, capacitação de trabalhadores ou desenvolvimento de infraestrutura em áreas específicas, sob a coordenação da Federação Nacional da Indústria e Comércio e o Ministério da Agricultura e Assuntos Rurais.

No balanço de março, Han Jun apontou que, ao longo do 14º Plano Quinquenal, o programa integrou um conjunto mais amplo de mobilização que incluiu 310 unidades do governo central apadrinhando condados anteriormente pobres e 150 mil equipes de trabalho residentes em vilas. A cooperação entre as regiões leste e oeste do país e o apoio de organizações sociais por meio de projetos de parceria completam esse sistema, que o novo plano mantém e expande.

O plano também prevê a expansão da cooperação agrícola com países da Iniciativa Cinturão e Rota, a diversificação das fontes de importação de produtos agrícolas e a participação ativa da China na governança alimentar internacional.

Em março, o porta-voz da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês (CPPCC), Liu Jieyi, informou que a China havia firmado acordos de cooperação com mais de 150 países no âmbito da Iniciativa, instalado mais de 30 Ateliês Luban de formação técnica na Ásia, África e Europa, sendo 17 no continente africano, e disseminado a tecnologia de cultivo de juncao em mais de 100 países. O novo plano prevê a ampliação desse escopo, incluindo o desenvolvimento do comércio de serviços agrícolas com países parceiros.

Nesse sentido, os países africanos, cuja maioria (52 de 54), participam da Iniciativa do Cinturão e Rota, têm o potencial de ampliar seu comércio agrícola com a China a partir da política de tarifa zero estendida, em maio, a todos os 53 países com os quais Pequim mantém relações diplomáticas.

A medida, anunciada pela Comissão de Tarifas Aduaneiras do Conselho de Estado e válida até abril de 2028, amplia o programa anterior para os 33 países africanos mais empobrecidos e elimina barreiras para produtos como café e cacau, sem limite de volume.

Para itens considerados sensíveis ao mercado interno chinês, como cereais, açúcar e algodão, a isenção se aplica até cotas específicas, segundo o Ministério do Comércio.

Capacidade produtiva de grãos e independência tecnológica

Em termos de segurança alimentar, o plano estipula como meta, aumentar até a produção de grãos até 2030 em mais de 100 bilhões de jin, equivalente a cerca de 50 milhões de toneladas. A ação para atingir esse número foi delineada em abril de 2024 pela Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma, com a publicação do Plano de Ação para o Aumento de Capacidade Produtiva de Grãos. A produção de 2025 atingiu 1,43 trilhão de jin (743 milhões de toneladas), novo recorde e segundo ano consecutivo acima de 1,4 trilhão de jin, segundo o Escritório Nacional de Estatísticas.

No setor do maquinário agrícola, o plano orienta a formação de clusters de manufatura avançada, com exigência de que os sistemas de inteligência artificial agrícola sejam desenvolvidos com propriedade intelectual autônoma. 

Os subsídios para compra e uso de maquinário agrícola serão maiores para os equipamentos de melhor desempenho, e máquinas antigas passarão a ser retiradas de operação com apoio estatal para substituição.

Hu Xiangdong, diretor do Instituto de Economia e Desenvolvimento Agrícola da Academia Chinesa de Ciências Agronômicas, descreveu as prioridades do plano. “Duas linhas vermelhas precisam ser firmemente mantidas: a primeira é a segurança alimentar e a segunda é evitar o retorno em massa à pobreza. Além disso, há três pilares: transformar a agricultura em uma grande indústria moderna, garantir que as vilas rurais disponham de condições modernas de vida e permitir que os agricultores levem uma vida próspera”, disse à CCTV.

Editado por: Lucas Estanislau

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