A construção de redes de cooperação e participação social tem ganhado cada vez mais espaço nas discussões sobre educação ambiental e enfrentamento da crise climática. Nesse contexto, a experiência desenvolvida pela Itaipu Binacional por meio dos Núcleos de Cooperação Socioambiental tem se destacado como uma iniciativa voltada à articulação entre instituições, comunidades e diferentes atores sociais na elaboração de projetos coletivos para os territórios.
Durante o II Encontro Internacional de Centros de Educação e Cooperação Socioambiental (CECSA’s), realizado entre os dias 27 e 30 de maio na Universidade Federal do Ceará (UFC), em Fortaleza, a gestora do Programa Governança Participativa do convênio dos Núcleos de Cooperação Socioambiental da Itaipu, Rosani Borba, compartilhou os aprendizados acumulados ao longo da implementação da iniciativa, os desafios para consolidar processos participativos e as perspectivas para fortalecer a rede de centros, núcleos e equipamentos de educação ambiental.
Em entrevista para o BdF Ceará, Rosani Borba também destacou o papel estratégico da educação ambiental crítica na promoção de soluções sustentáveis e na ampliação da participação popular nas decisões que impactam os territórios. Confira:
1. Como a experiência da Itaipu Binacional com núcleos de cooperação socioambiental pode contribuir para fortalecer políticas públicas de educação ambiental em outros territórios do Brasil?
A Itaipu Binacional pode contribuir e fortalecer as políticas públicas de educação ambiental em todo o território nacional a partir da experiência que ela está construindo no seu território de atuação. A construção desse processo de governança participativa a partir dos 21 núcleos de cooperação socioambiental, tem sido feito por meio da definição de uma metodologia bem específica.
Então toda essa metodologia vem sendo registrada, acompanhada, monitorada e avaliada e esse processo como um todo, pode colaborar para que outros estados do Brasil possam se inspirar, para replicar, melhorar e atualizar de acordo com as suas próprias realidades.
2. O programa de governança participativa da Itaipu trabalha com diferentes comunidades e atores sociais. Quais têm sido os principais desafios para construir processos realmente participativos?
Os principais desafios que o programa de governança participativa vem enfrentando para construir realmente processos participativos, é o convencimento, vamos dizer assim, dos representantes das instituições em efetivamente estarem engajados no processo, dado a grande quantidade de atribuições que cada instituição desenvolve no território.
São instituições diversas e que também têm interesses e atuações diversas. Então, o engajamento perpassa pela capacidade de diálogo entre os diferentes interesses, as diferentes atuações. Então, o principal desafio é esse. E a gente tem feito e tem conduzido esse processo para sanar esses desafios a partir de metodologias já existentes para para lidar na mediação e na construção desses processos por meio de metodologias também participativas.
3. Em um contexto de crise climática e conflitos socioambientais, qual o papel estratégico da educação ambiental na construção de soluções coletivas e sustentáveis?
Os núcleos de cooperação socioambiental, embora não tenham a expressão educação ambiental no seu nome, são espaços que trabalham a sua atuação, ela é permeada pelos conceitos, pelas definições e pelos processos da educação ambiental, especialmente a educação ambiental crítica. Então, todos os planejamentos, diagnósticos e trabalhos que os núcleos vêm fazendo nesse tempo de trajetória, são baseados na educação ambiental.
E por isso, a gente entende que a educação ambiental tem sim um papel muito estratégico para melhorar a qualidade de vida das pessoas, e disso não está fora a emergência climática e esses conflitos socioambientais que existem em todos os territórios. Então a gente entende que os núcleos são espaços educadores. Tudo que é feito nos núcleos de cooperação socioambiental são feitos de modo educador. Todas as pessoas e as instituições que participam desse espaço, desse movimento e dos trabalhos que os núcleos vem desenvolvendo, elas estão aprendendo e ensinando, e tem por trás de tudo isso os preceitos da educação ambiental.
4. De que maneira a experiência apresentada pela Itaipu dialoga com a proposta da Rede Nacional de Centros, Núcleos e Equipamentos de Educação Ambiental prevista pela Portaria nº 1.506/2025, do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima?
Nós da Itaipu entendemos que cada um desses 21 núcleos de cooperação socioambiental, que estão no Paraná e no Sul do Mato Grosso do Sul, equivalem aos centros de educação e cooperação socioambiental. E portanto devem ser pontos dessa rede, e participar desse ecossistema de trocas e articulação independentemente da Itaipu. A Itaipu poderá vir a ocupar um lugar de parceria com o Ministério do Meio Ambiente, como promotora de política e da rede, estando aí focada na sua região de abrangência.
5. Quais resultados concretos os projetos socioambientais ligados à Itaipu já conseguiram alcançar nos territórios onde atuam?
Os núcleos já têm diversos resultados, mas os mais concretos que os núcleos já apresentam é a escrita, o planejamento e desenvolvimento de um projeto coletivo para cada um dos núcleos. Isso significa dizer que toda a produção que os núcleos fizeram durante essa trajetória de dois anos, elas estão sendo colocadas em prática na elaboração de um projeto coletivo.
Alguns desses projetos, daí já é um segundo resultado concreto, estão se tornando convênios com financiadores, para que esses projetos sejam, de fato, colocados em prática, e as entregas e as ações sejam concretizadas no território. Então, em resumo, a gente pode dizer que nós temos dois resultados bem concretos. O primeiro, que é reunir toda a construção e a produção do núcleo em um projeto coletivo e não individual de instituição por instituição, e o segundo resultado concreto é que esse projeto está sendo submetido para financiamento, com objetivo de torná-lo um convênio.
6. O encontro internacional reúne iniciativas de diferentes regiões do país. O que a Itaipu espera aprender com essas trocas de experiências durante o evento?
Quando a Itaipu traz a experiência da governança participativa para compartilhar em um evento internacional como esse, nós esperamos efetivamente a troca das informações, das atividades e das experiências que tem acontecido.
Então o que é que nós queremos aprender? O que é que nós buscamos aprender? Nós buscamos aprender como que outros espaços que não são núcleos de cooperação, mas que são os centros como eles estão desenvolvendo nos seus territórios, como eles estão lidando com as divergências, com as dificuldades, com os desafios. E nesse sentido, a gente vai aprendendo também soluções que talvez a gente ainda não tenha conseguido implementar no nosso processo, no nosso território, aprendendo com quem está desenvolvendo em outros territórios.
7. Como aproximar a população, especialmente jovens e comunidades periféricas, das discussões sobre governança ambiental e participação social?
Aproximar a população, em especial a juventude, e nós também temos um foco com a população dos 60+, é muito importante para nós. Então, como que a gente tem feito isso? Nós temos diversas estratégias, desde convidá-los a participar das reuniões e dos encontros que são da agenda dos núcleos, que são os encontros presenciais.
Nós também temos atividades paralelas, como oficinas que tratam sobre como construir uma horta, oficinas de grafite, uma em cada um dos municípios com foco na juventude, com foco em adultos com mais de 60 anos. Além disso, temos ainda oficinas sobre comunicação e questões midiáticas, sobre o uso da inteligência artificial, e de como não cair em golpes cibernéticos, por exemplo. Então nós temos várias ações que são paralelas aos encontros.
Por outro lado, nós temos realizado seminários com temas atrativos, tanto para a juventude como para a população geral, espetáculos de teatro. Então, nós temos levado as mensagens socioambientais de maneira prática no território, e dessa forma a gente vai aproximando o público em geral e, em especial a juventude, promovendo a participação social a partir da integração dos núcleos.
8. Pensando no futuro, quais caminhos a Itaipu considera fundamentais para consolidar redes de cooperação socioambiental mais permanentes e articuladas no Brasil?
A Itaipu considera como um dos caminhos fundamentais para consolidação das redes de cooperação socioambiental mais permanentes no Brasil, o fortalecimento e a concretização da política pública que organiza e viabiliza o programa. Para nós, é fundamental fortalecer e consolidar a política pública voltada aos núcleos e centros de educação ambiental em todo o país.
Além disso, é importante que outras instituições com capacidade de articulação, como a Itaipu, também se comprometam com esse processo. Seria muito positivo se houvesse uma iniciativa semelhante à Itaipu em cada estado, capaz de apoiar e fomentar núcleos de cooperação socioambiental e centros de educação ambiental. Essas instituições poderiam potencializar os territórios, reunir diferentes atores e organizações que já desenvolvem ações relevantes, mas que muitas vezes necessitam de um espaço de articulação e de uma metodologia voltada ao diálogo coletivo para fortalecer seus processos e alcançar resultados mais efetivos. Então, acho que nesse sentido nós teríamos aí um uma política efetivada no território e com de fato participação dos atores sociais que impactam a vida dos territórios.
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