PELA CIDADE BAIXA

Alice abre a porta vermelha para ‘invisíveis’ e para discutir direitos humanos, cultura e solidariedade

Espaço na Olavo Bilac abriga o jornal Boca de Rua, moradores de rua, presidiárias, prostitutas, mulheres idosas

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A sede da Alice funciona na Olavo Bilac, 188, entre a Cidade Baixa e a Azenha. Ali se realizam todas as atividades da instituição
A sede da Alice funciona na Olavo Bilac, 188, entre a Cidade Baixa e a Azenha. Ali se realizam todas as atividades da instituição | Crédito: Rafael Rosa

A Agência Livre para Informação, Cidadania e Educação (Alice) trabalha por ideais, construindo confiança e esperança. Não tem hierarquias. Os integrantes dos projetos definem suas regras e sua forma de comunicar. A Organização da Sociedade Civil – responsável pelo jornal Boca de Rua, entre vários projetos – nasceu há 27 anos, defendendo o direito à comunicação e um mundo digno e humano para pessoas desamparadas, discriminadas, segregadas e à margem da sociedade.

Moradores de rua, presidiárias, prostitutas, mulheres idosas, entre outros “invisíveis” encontram sua própria voz. A sede da Alice funciona na Olavo Bilac, 188, entre a Cidade Baixa e a Azenha. Ali se realizam todas as atividades da instituição. Jornal Boca de Rua, exposições de artes, palestras, lançamento de livros, debates sobre temas relevantes da atualidade, reuniões, discussões de pautas e programações.

É a ‘porta vermelha’ que se abre sempre que for necessário para discutir direitos humanos, cultura e solidariedade. E onde todos se sentem iguais. Parece inacreditável, mas é assim mesmo. Tudo começou com as jornalistas Rosina Duarte, Eliane Brum, Clarinha Glock e Cristina Pozzobon.

Tudo começou com as jornalistas Rosina Duarte (foto), Eliane Brum, Clarinha Glock e Cristina Pozzobon
Tudo começou com as jornalistas Rosina Duarte (foto), Eliane Brum, Clarinha Glock e Cristina Pozzobon | Crédito: Rafael Rosa

Rosina foi repórter por 18 anos em jornais da cidade e há 31 anos luta pelos direitos humanos. Eliane Brum virou escritora premiada e prestigiada nacionalmente. Mora em Altamira, no Pará, onde faz trabalho social que repercute por todos os lados. Clarinha Glock atua em causas sociais de crianças, indígenas e outras tantas. E Cristina Pozzobon, artista plástica e jornalista, dedica-se à luta pela memória e à verdade e o resgate dos fatos históricos do período da ditadura civil-militar brasileira.

Cristina Pozzobon, artista plástica e jornalista, é a diagramadora do jornal Boca de Rua
Cristina Pozzobon, artista plástica e jornalista, é a diagramadora do jornal Boca de Rua | Crédito: Divulgação/Alice

Cristina e Rosina seguem trabalhando para fazer as coisas andarem na Alice. Não se consideram chefes, nem diretoras de nada. Ouvem todos que lá vão e são gentis e amáveis com todo o grupo. São participantes do coletivo. Operam em todas as tarefas, junto com o pessoal que integra a diretoria da Alice e parceiros que gravitam em torno da casa. Nada de privilégios.

“Não somos a Alice do País das Maravilhas”

O primeiro projeto da Alice, o Boca de Rua começou na Praça do Rosário, chamada por eles de Praça do Cachorrinho
O primeiro projeto da Alice, o Boca de Rua começou na Praça do Rosário, chamada por eles de Praça do Cachorrinho | Crédito: Rafael Rosa

“Nós não somos a ‘Alice do País das Maravilhas*’. Nós somos um coletivo que vive no país da desigualdade, das diferenças brutais, e que busca transformações”, diz Rosina. O primeiro projeto da Alice, o Boca de Rua começou na Praça do Rosário, chamada por eles de Praça do Cachorrinho, passando pelo Parque da Redenção, Grupo de Apoio à Prevenção da Aids (Gapa), Museu de Comunicação Hipólito da Costa, Escola Porto Alegre (EPA) e Associação dos Moradores da Cabo Rocha, entre outros locais.

“Fomos pressionados por todos os lados: população, pessoas ligadas ao tráfico no local e principalmente pela polícia, sempre truculenta”, conta. Aos poucos, criou-se e construiu-se um clima de confiança e de esperança entre os que se interessaram pelo projeto. Não tinham profissão, nem estudos, nem reconhecimento de seus direitos de cidadãos.

Alguns sonhavam em comer, degustar, alimentar-se com o famoso cachorro-quente do Rosário, uma coisa improvável para este pessoal naqueles primeiros momentos. Mas não impossível. Em um dos aniversários do Jornal Boca de Rua, porém, todos que se engajaram na ideia foram provar o tal cachorro-quente. “Muitos nem gostaram”, relembra Rosina.

O jornal é trimestral, tem tiragem de 8 mil, custa R$ 4,00 e é vendido pelos integrantes do grupo. São em torno de 20 vendedores e levam 50 exemplares cada um para vender nos mais diversos pontos da cidade e da região Metropolitana. Não precisam prestar contas. O dinheiro arrecadado fica com eles.

No dia em que o Brasil de Fato RS visitou a casa, estava saindo o número 93 com a capa “Envelhecer na Rua – a velhice chega antes para quem vive nas ruas, e quando doentes graves precisam de cuidados integrais, todas as portas se fecham”. É uma reportagem comovente e que mostra a dura realidade de quem sobrevive nas ruas. Como diz Catatau, 70 anos: “Minhas pernas estão fracas. Correr não corro mais. Nem que a polícia venha atrás de mim”.

“Vozes de uma gente invisível”

Jó Elias, que mostra a sua barba branca na capa da última edição, é um dos mais antigos do grupo
Jó Elias, que mostra a sua barba branca na capa da última edição, é um dos mais antigos do grupo | Crédito: Rafael Rosa

Com 26 anos vividos dia a dia com fé e muita bravura, o Boca de Rua é produzido por pessoas com trajetória/situação de rua e risco social de Porto Alegre sob a coordenação de Alice. Tem 16 páginas. A edição é de Rosina Duarte, a diagramação de Cristina Pozzobon e a revisão é feita em Recife por uma francesa que se tornou brasileira há muitos e muitos anos depois de vir ao país através de um intercâmbio estudantil – Cha Dafol. O projeto já envolveu mais de 400 pessoas nas 93 edições do jornal. ‘A Alice é o guarda-chuva desta iniciativa’, garante Rosina.

A primeira edição de dezembro de 2000 trazia a manchete “Vozes de uma gente invisível”. Desde o início, integra o INSP (International Network Street Papers), uma rede mundial de veículos de comunicação vendidos em ruas – existem mais de 100 publicações comercializadas por moradores de rua pelo mundo. Com orgulho, Rosina diz que o Boca de Rua é o único feito integralmente pela PopRua, sendo os demais, apenas vendidos por esta população.

O jornal é trimestral, tem tiragem de 8 mil, custa R$ 4,00 e é vendido pelos integrantes do grupo | Crédito: Rafael Rosa

“O Boca é um projeto de trabalho e renda, um redutor de danos do silêncio e da solidão, é uma comunidade alternativa. Mas cada um dos integrantes constrói a sua própria história”, reforça.

Jó Elias, que mostra a sua barba branca na capa da última edição, um dos mais antigos do grupo, vai à sede frequentemente. No dia da distribuição do jornal levou 60 exemplares: 50 normais e mais 10 por ser o ‘modelo’ fotografado na capa. Estava alegre, feliz, falava bastante e mostrava-se animado em participar de um projeto que está construindo uma ponte de comunicação com a sociedade que vive sob um teto. “Aqui trabalhamos com emoção”, enfatizou.

Luta antifascista e antirracista

No espaço multiuso, também acontecem oficinas, exposições, saraus, shows, debates e feiras
No espaço multiuso, também acontecem oficinas, exposições, saraus, shows, debates e feiras | Crédito: Divulgação/Alice

“A Alice defende o direito de todos/todas/todes ao conhecimento e reconhecimento de suas próprias histórias, além do acesso à cultura, à arte e à convivência harmônica em uma sociedade sustentável e mais justa. Ou seja, alinha-se à luta antifascista, antirracista, contra o sexismo, o machismo, etarismo, LGBTfobia, o capacitismo e outras manifestações de preconceito ou crimes contra os direitos humanos”, afirma Cristina, chamada por alguns integrantes dos projetos de ‘Dona Alice’.

As parcerias são um dos principais pilares da Casa Alice. Entre elas, destacam-se: Instituto Koinós**, Escola Porto Alegre (EPA), Museu Hipólito da Costa, Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Associação dos Juízes do Rio Grande do Sul (Ajuris RS), Paulo Afonso Marcas e Patentes, Grupo de Apoio à Proteção da Aids (Gapa), Associação Amigos da Cabo Rocha.

Os parceiros oferecem diversas formas de apoios como serviços, espaços e, principalmente, ideias compartilhadas. Um dos projetos da Instituição, a Casa Alice, segundo Cristina, é um banco de memória dos “invisíveis”. Neste espaço são realizados projetos autogestionados com o objetivo de preservar o patrimônio imaterial e a cultura popular, conforme o portfólio do grupo.

Para isso, são produzidos livros, jornais e documentários, entre outros meios, envolvendo comunidades sem representatividade na mídia tradicional nem registro na história oficial como populações com trajetória de rua, pessoas privadas de liberdade, profissionais do sexo, mulheres idosas, vítimas da ditadura civil militar brasileira e tantas outras coisas.

Cristina acrescenta que são muitos mundos escondidos e esquecidos que o mundo tem. Neste espaço multiuso, também acontecem oficinas, exposições, saraus, shows, debates e feiras com a participação de musicistas, poetas, artistas visuais, fotógrafas(os) e artesãs(ãos) que, com a comercialização do seu trabalho, contribuem para viabilizar os projetos sociais desenvolvidos pelo coletivo. O local também acolhe o brechó “Alice no Espelho” e eventos propostos pela comunidade.

Estímulo à leitura e à escrita criativa

As rodas de leitura e escrita coletiva produzem poesia, conto, prosa, crônica, entre outros
As rodas de leitura e escrita coletiva produzem poesia, conto, prosa, crônica, entre outros | Crédito: Rafael Rosa

A Alice desenvolve, outros projetos, como o LerAlice (Leitura, Escrita e Rebeldia). As rodas de leitura e escrita coletiva produzem poesia, conto, prosa, crônica, entre outros. As integrantes do grupo embaralharam lembranças a partir da leitura de autores famosos e desconhecidos.

Em breve pretendem lançar um livro com capa artesanal e textos coletivos e individuais escritos durante os encontros. A Trilogia Mulheres Perdidas e Achadas – outra iniciativa da Alice – reúne livretos escritos por grupos de idosas (Almanaque da Maturidade), prostitutas (Mariposa, uma puta história) e presidiárias (Pombo Correio, cartas da prisão). Tem, também, “Contos sem Fadas”, livro organizado pela Alice com base em histórias contadas por mulheres idosas da fronteira de Bagé, terra natal de Rosina.

Há, ainda, filmes e documentários sobre a Alice no Youtube, como “Vozes de uma gente invisível”, “De olhos abertos” e “Rualogia”, entre outros. Estudantes de jornalismo estão sempre por lá em busca de material para reportagens, documentários ou trabalhos acadêmicos.

Conforme Rosina, o próximo projeto da Alice será o Mover (Movimento da Velharada Rebelde), com lançamento no dia 18 de junho, às 18h, na Casa Alice, e no dia 21 de junho, às 11h, no Parque da Redenção.

“Somos velhas. Somos velhos. Estas palavras não nos assustam. Somos as velhas e os velhos do século 21, integrantes de uma geração que sonhou em mudar o mundo e que revolucionou os costumes. Fomos jovens rebeldes e não abrimos mão de nossa rebeldia. Queremos direitos, queremos transmitir nosso legado, queremos respeito e um lugar neste mapa de diversidade que é o nosso mundo.”, diz o Manifesto Mutante da Velharada Rebelde, que será lançado na ocasião.

Censo da população de rua

O próximo projeto da Alice será o Mover (Movimento da Velharada Rebelde), com lançamento no dia 18 de junho, às 18h, na Casa Alice | Crédito: Rafael Rosa

Atualmente está acontecendo o censo da população de rua de Porto Alegre que conta com integrantes do Jornal Boca de Rua trabalhando como facilitadores, devido à representatividade do veículo.

Há poucos dias, o Diário Gaúcho, do grupo RBS, publicou que o Rio Grande do Sul tem 10 mil pessoas a mais vivendo nas ruas do que em 2021 – 7.248 e, em maio de 2026, eram 17.574 – um aumento de 142,5%, segundo levantamento da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). É o sexto maior contingente do país.

Os dados são baseados nos registros do Cadastro Único (CadÚnico) do governo federal. O mapeamento aponta que, em Porto Alegre, o crescimento da população de rua foi ainda maior: 253,5%. Em 2021, a cidade tinha 2.048 pessoas sem moradia. Em maio de 2026, são 7.240, colocando Porto Alegre como a oitava Capital com mais pessoas em situação de rua.

Em resposta ao jornal, o Estado destacou os investimentos de R$ 244 milhões em fundos de Assistência Social desde 2021. A Prefeitura de Porto Alegre questionou a metodologia do levantamento e prometeu divulgar um estudo próprio, em parceria com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em julho.

* O autor do clássico “Alice no País das Maravilhas” é o escritor e matemático inglês Lewis Carroll, cujo nome de batismo era Charles Lutwidge Dodgson. O livro foi publicado originalmente em 1865.

 ** O Instituto Koinós, conexões que transformam, está sediado na Região Metropolitana de Porto Alegre e teve sua origem como um projeto autônomo em maio de 2019. A associação civil sem fins econômicos foi formalmente instituída e fundada em meados de 2022. O seu propósito é defender e garantir direitos fundamentais, atuando nos eixos socioambiental, sociocultural, socioassistencial, sociolaboral e educacional.

Editado por: Katia Marko

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