As imagens da seleção de Senegal sendo revistada por agentes de fronteira norte-americanos ainda na pista de um aeroporto, às vésperas da Copa do Mundo de 2026, não representam apenas um episódio constrangedor. Constituem uma poderosa metáfora do tempo histórico que vivemos.
Poucos dias antes, o atacante iraquiano Aymen Hussein foi submetido a horas de interrogatório em Chicago. Em seguida, o árbitro somali Omar Abdulkadir Artan, eleito o melhor árbitro africano de 2025 e escalado pela FIFA para atuar na Copa do Mundo, teve sua entrada negada nos Estados Unidos apesar de possuir documentação regular e credenciamento para o evento.
Tomados isoladamente, esses fatos poderiam ser apresentados como meros procedimentos administrativos ou excessos burocráticos. Observados em conjunto, entretanto, revelam algo mais profundo: a persistência de uma ordem internacional que continua classificando pessoas, nacionalidades e territórios segundo hierarquias políticas, raciais e geopolíticas.
Costuma-se afirmar que o esporte aproxima povos. Mas, em momentos como este, ele também expõe as estruturas invisíveis que organizam o sistema mundial contemporâneo. Os aeroportos transformam-se em laboratórios de poder, onde nacionalidade, origem, cor da pele e pertencimento geográfico continuam operando como marcadores de suspeição.
Em meus estudos sobre comunicação, colonialismo e racialidade, tenho argumentado que a modernidade ocidental jamais abandonou completamente suas hierarquias fundadoras. Elas apenas assumiram novas formas. Em Maioria Minorizada, procurei demonstrar como grupos numericamente majoritários podem ser convertidos em sujeitos politicamente subordinados por meio de dispositivos institucionais de poder. Em Branquitude e Televisão, analisei como as narrativas midiáticas produzem centralidades e periferias simbólicas. Já em Mídia, Colonialismo e Imperialismo Cultural discuti como a produção do imaginário global continua atravessada por relações assimétricas entre centro e periferia.
O que observamos agora é a tradução internacional desses mesmos mecanismos.
Quando uma delegação africana é revistada de forma espetacularizada na pista de um aeroporto, enquanto representantes das potências centrais circulam sob a presunção automática de legitimidade, não estamos diante de um simples procedimento de segurança. Estamos diante da atualização de uma gramática colonial.
Os defensores dessas medidas argumentarão que se trata apenas da aplicação rigorosa de protocolos migratórios. É precisamente assim que funcionam os dispositivos contemporâneos de exclusão. O discurso da segurança converte diferenças geográficas, raciais e culturais em potenciais ameaças. O resultado é a normalização de práticas que dificilmente seriam aceitas se aplicadas de forma equivalente às delegações oriundas do Norte Global.
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Não se trata apenas de Senegal, Somália ou Iraque. Trata-se da mensagem enviada ao mundo: alguns corpos são bem-vindos; outros precisam provar constantemente sua inocência.
Achille Mbembe, em Brutalismo, oferece uma chave interpretativa particularmente útil para compreender esse fenômeno. Segundo o filósofo camaronês, a fronteira contemporânea deixou de existir apenas como limite territorial entre Estados. Ela passou a ser incorporada a determinados sujeitos. Surgem, assim, os chamados “corpos-fronteira” ou “corpos transfronteiriços”: indivíduos que carregam consigo a própria condição de suspeitos, submetidos permanentemente à vigilância, ao controle e à necessidade de demonstrar que pertencem legitimamente aos espaços que ocupam.
Não são apenas pessoas que atravessam fronteiras. São pessoas sobre as quais a fronteira é projetada.
A revista da delegação senegalesa, a detenção de um atleta iraquiano e a proibição de entrada de um árbitro somali revelam exatamente esse mecanismo. A fronteira norte-americana não está apenas nos aeroportos. Ela foi inscrita em determinados corpos, especialmente naqueles oriundos da África, do mundo árabe e do chamado Sul Global.
Nesse sentido, o episódio ultrapassa em muito o universo esportivo. Ele expressa uma racionalidade política mais ampla, característica do período contemporâneo. Em meio ao declínio relativo da hegemonia norte-americana e à emergência de novas disputas globais por mercados, tecnologia, influência e recursos estratégicos, cresce o recurso a políticas de controle, securitização e fechamento.
O fortalecimento recente de discursos ultranacionalistas, xenófobos e anti-imigração nos Estados Unidos não constitui um fenômeno isolado. Trata-se de uma manifestação de crise hegemônica. Quando potências percebem a erosão de sua capacidade de liderança, frequentemente respondem por meio da ampliação dos mecanismos de vigilância, da construção de inimigos internos e externos e da reafirmação simbólica de fronteiras.
É nesse ambiente que o racismo encontra novas formas de legitimação.
Já não se apresenta necessariamente por meio das linguagens biológicas que marcaram os séculos 19 e 20. Ele se reorganiza através da burocracia, da gestão dos fluxos migratórios, dos sistemas de monitoramento e das políticas de segurança. A linguagem muda, mas a hierarquia permanece.
A Copa do Mundo deveria representar a celebração da diversidade humana. Entretanto, ao ser realizada sob essas condições, corre o risco de converter-se em uma vitrine global de práticas incompatíveis com os valores de igualdade, convivência e intercâmbio cultural que o próprio futebol afirma representar.
Por isso, considero legítimo questionar não apenas a postura das autoridades norte-americanas, mas também a complacência das instituições esportivas internacionais. A FIFA não pode reivindicar neutralidade diante de práticas que afetam diretamente atletas, árbitros e delegações. Em situações como essa, a neutralidade frequentemente funciona como acomodação.
Confesso que acompanho esta Copa com crescente desconforto. Cada novo episódio reforça a percepção de que a escolha dos Estados Unidos como principal sede do torneio foi, no mínimo, controversa. Mais do que isso: talvez tenha sido um erro político e ético. Não escondo meu desejo de que o Brasil retorne para casa o mais rapidamente possível. Pessoalmente, considero que sequer deveríamos ter normalizado a realização de um evento que se apresenta como celebração universal enquanto submete determinados povos a constrangimentos incompatíveis com o espírito esportivo.
A questão central, afinal, não é quem levantará o troféu. A questão é que tipo de mundo estamos legitimando quando aceitamos como normais cenas que reproduzem velhas hierarquias coloniais sob novas justificativas burocráticas. O futebol não existe fora da política. Nunca existiu. E quando uma seleção africana é tratada como suspeita antes mesmo de entrar em campo, a partida já começou muito antes do apito inicial.
*Richard Santos é escritor, pesquisador, docente e extensionista da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), onde atua como professor nos Programas de Pós-graduação em Ensino e Relações Étnico-Raciais e em Estado e Sociedade. Possui Pós-doutorado em Cultura e Sociedade pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), Doutorado em Ciências Sociais pela Universidade de Brasília (UnB) e Mestrado em Comunicação pela Universidade Católica de Brasília. Coordena o Grupo de Pesquisa Pensamento Negro Contemporâneo. Diretor Regional Nordeste da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom). Autor do livro “Maioria Minorizada: um dispositivo de racialidade”.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.
