Em debate

Trilha para uma nova trilha: abrir caminhos, defender direitos e não aceitar retrocessos

Luta por uma vida digna para o povo do Rio de Janeiro só acontece quando ninguém é deixado para trás

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Deputada estadual Dani Monteiro (Psol-RJ) é pré-candidata à reeleição
Deputada estadual Dani Monteiro (Psol-RJ) é pré-candidata à reeleição | Crédito: Divulgação/Alerj

Abro o texto de hoje com uma música do Don L que me acompanha há anos e sempre me faz pensar sobre o futuro: uma trilha para uma nova trilha. Sempre achei que essa frase falava mais sobre responsabilidade. Sobre entender que ninguém chega sozinho e que toda conquista só faz sentido quando ajuda a ampliar o caminho para outras pessoas.

Eu nasci no São Carlos, moro no Rio Comprido e sou filha de trabalhadores humildes, amorosos e fortes. Minha mãe, empregada doméstica. Meu pai, verdureiro. Meus avós? Nordestinos muito batalhadores. Foi dentro de casa que aprendi valores que carrego até hoje: acordar cedo, trabalhar duro e ter ideais coletivos. Entender que o esforço individual importa, mas que uma sociedade só melhora de verdade quando ninguém é deixado para trás.

Antes de ocupar uma cadeira na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), trabalhei em call center. Conheço bem a correria de quem acorda sem saber se o salário vai durar até o fim do mês e conheço a ansiedade de depender do transporte público, de enfrentar jornadas cansativas e de viver a realidade que milhões de trabalhadores vivem todos os dias.

Quando cheguei à Alerj, em 2019, trouxe comigo essa visão de mundo e uma bagagem pesada sobre a importância dos direitos dos trabalhadores. A política jamais foi para mim um mero exercício de poder, sempre foi uma ferramenta para transformar realidades. Principalmente para abrir portas que sempre estiveram trancafiadas para tantos. E foi uma luta árdua no começo, abrindo caminhos ali dentro de uma Casa tão desacostumada com corpos como o meu. Mas eu batalhei e, com muito trabalho, participei de momentos decisivos da vida pública do estado, como a atuação como juíza do Tribunal Misto que decidiu o impeachment de Wilson Witzel, os tantos trabalhos do Conselho de Ética da Alerj e a presidência da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania, que realizou mais de dois mil atendimentos nos últimos cinco anos.

Mais de duas mil famílias. E eu gosto de lembrar esse número porque ele ajuda a mostrar uma dimensão do trabalho, mas ele não conta a história inteira, até porque por trás desses atendimentos existem pessoas: a mãe que não sabia mais a quem recorrer após seu filho ser baleado, o policial violentado durante o expediente em uma operação sem inteligência, o morador de favela que teve seus direitos desrespeitados dentro da própria casa. O entregador que foi vítima de racismo.

Existe a vítima de violência que encontrou acolhimento quando todas as outras portas estavam fechadas. São pessoas de verdade precisando de política de vida e não política de morte.

Acredito que a política precisa deixar marcas concretas na vida das pessoas. Por isso, tenho orgulho de ter ajudado a construir leis como a do hip hop nas escolas e de ter conquistado o primeiro edital estadual voltado exclusivamente para o hip-hop, além de levar ao Palácio Tiradentes a primeira exposição dedicada ao movimento. São iniciativas que ajudaram a transformar em política pública uma cultura que há décadas forma jovens, produz conhecimento, movimenta a economia criativa e constrói pertencimento nas favelas e subúrbios do nosso estado. 

Bem como tenho muito orgulho de ter contribuído com uma das minhas primeiras leis: hoje temos as Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (Deams) funcionando obrigatoriamente por 24 horas. Também tenho orgulho de ter realizado os projetos de leis para as políticas de combate ao assédio contra mulheres nos estádios, para o enfrentamento ao stalking, para a Semana de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes nas escolas e para propostas que buscam proteger trabalhadores expostos a condições extremas de calor, uma realidade cada vez mais presente no Rio de Janeiro.

É essencial falar sobre, e fazer, leis para trabalhadores e estudantes, mas é ainda mais urgente produzirmos legislação para nós, mulheres. A força do nosso país é majoritariamente feminina e nossa população precisa de políticas sérias para proteção de quem ainda é vista como minoria no que tange às discussões de gênero.

Também apresentei projetos voltados para questões que afetam diretamente o cotidiano da população, como a discussão sobre a cobrança de Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) nas compras internacionais de pequeno valor (ela, a taxa da blusinha!), a defesa da tarifa zero em grandes eventos e a valorização das mestras e mestres da cultura popular, guardiões de saberes que ajudaram a formar a identidade do nosso estado e que merecem reconhecimento em vida.

Entre todas as leis que tive a oportunidade de defender, poucas me emocionam tanto quanto a luta pelo reconhecimento dos onze Heróis da Floresta. Trabalhadores escravizados fundamentais para o reflorestamento da Tijuca e que passaram mais de um século sem receber o devido reconhecimento da história oficial. Ver seus nomes incorporados ao Livro dos Heróis e Heroínas do Estado do Rio de Janeiro e registrados em uma nova placa na Floresta da Tijuca é uma vitória que fala sobre memória, reparação e pertencimento.

Talvez por isso eu sei que fazer política também é disputar narrativas. É decidir quem merece ser lembrado, quais histórias serão contadas e quais vidas serão consideradas importantes. E o mesmo vale para os desafios do presente. A crise climática já mudou a vida de milhares de famílias fluminenses e é por isso que vamos instalar a CPI da Crise Climática nos próximos dias. Não apenas para apontar responsabilidades, mas para construir respostas diante de um problema que já afeta cidades inteiras e atinge com mais força justamente quem tem menos recursos para se proteger.

Sou uma mulher preta, cotista da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), que chegou à política carregando os aprendizados da favela, dos movimentos sociais, do mundo do trabalho e do legado de Marielle Franco.

Quando lutamos por mais segurança para as mulheres, toda a sociedade melhora.

Quando defendemos a educação pública, toda a sociedade avança.

Quando garantimos direitos trabalhistas, toda a sociedade ganha.

Quando preservamos a cultura popular, toda a sociedade se reconhece.

A trilha que me trouxe até aqui começou muito antes do meu mandato e continuará existindo muito depois dele. Essa jornada, acredito eu, ajudou a abrir espaço para novas trilhas, novas vozes e novas possibilidades. Eu quero muito seguir ampliando horizontes nos próximos quatro anos. E é por isso que sou pré-candidata a deputada estadual mais uma vez, amparada pela confiança de quem conhece minha luta. Para, enfim, continuarmos abrindo os caminhos de uma vida digna para o povo do meu Rio de Janeiro.

*Dani Monteiro é deputada estadual (Psol/RJ) e presidenta da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Alerj.

**Este é um artigo de opinião e não representa necessariamente a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Clivia Mesquita

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