Os anos, contados em semestres, se passaram e Kwame percebeu que estava próximo de concluir seus estudos naquele país que o acolheu e deu a ele não apenas conhecimento científico, mas o desejo de fazer mais pela sua pátria. Era um novo ciclo que se iniciava para ele: concluir os estudos, voltar para casa e como ficaria seu relacionamento com Jamile. Ela era sua parceira, amiga e grande apoiadora. Não seria fácil.
Do outro lado do Atlântico Ifi observava o tempo. Ela esperava ansiosa os contatos do seu filho. Contava as luas para rever seu filho. Quando a angústia e saudade apertava, ela rezava para seus ancestrais. Pedia para que seu filho voltasse logo para casa. Esse é o desejo de uma mãe para seu filho, que ele realizasse seus sonhos e voltasse para seus braços no devido tempo.
Chegou o grande dia. Era o dia da formatura de Kwame. Ele estava elegante com sua beca e um sorriso no rosto. Formou-se com distinção e recebeu uma honraria da universidade. Tudo compartilhado com Jamile. Ele sabia que sua mãe e irmãs estavam com ele. A decisão de voltar para casa não foi fácil, mas ele queria transformar a realidade do lugar onde cresceu. Fez seus preparativos para o retorno. Foi difícil ter aquela conversa com Jamile. Durante todo o tempo de sua estadia naquele lado do Atlântico, ela foi sua companheira.
Ifi acordou e olhou para o sol ardente e foi até sua pequena lavoura. Era uma pequena lavoura de arroz que ela cuidava com zelo e afeto. Ela sabia que estava próximo de ver seu filho. Algo que ela aguardava ansiosamente. Kwame entrou no avião, depois de anos, ele voltaria para casa, para sua tabanca, para sua mãe e irmãs. Sabia que em muitos momentos contou com as orações de sua mãe. Sentia o amor dela atravessar o oceano.
— Ele chegou! – disse sua irmã mais velha. Ifi correu para abraçar seu filho. Ele trajava um fato com as cores do seu grupo étnico. Ifi não podia conter as lágrimas. Kwame abraçou a mãe e chorou como o menino que fora um dia. Ele estava de volta e com muitos planos. Havia aprendido muito do outro lado do Atlântico, e somados aos saberes que recebeu dos anciãos da tabanca, poderia fazer muito.
A primeira coisa que fez foi consultar o conselho para apresentar suas ideias. O conselho ouviu atentamente os planos do jovem e concordou. Ele poderia mobilizar todos da tabanca para executar seus planos. Kwame contou para a mãe seus planos, Ifi apoiava seu filho e disse que iria falar com as mulheres que cultivavam arroz e outras espécies de plantio. Ela sabia que os sonhos do filho iriam se realizar.
Kwame se reuniu com as mulheres e propôs uma estratégia de associação. Uma instituição que unisse os saberes tradicionais com os conhecimentos que ele adquiriu para transformar a vida de todos seus familiares e amigos. Elas planejaram estratégias de plantio, colheita e venda dos produtos produzidos na tabanca. Os sonhos de Kwame estavam se realizando. Ifi observava que seu filho havia se tornado um homem e honrava as tradições do seu povo.
A vida na tabanca estava correndo bem. A organização das mulheres deu um novo ritmo na vida daquela comunidade. No entanto, Ifi sentia que seu filho não estava totalmente feliz, era como se algo faltasse e ela decidiu conversar com ele. Kwame disse para mãe que havia deixado alguém que ele amava na terra que o acolheu. Ifi abraçou o filho e falou para ele entrar em contato com a mulher que ele amava e o filho disse a mãe que faria isso.
Kwame entrou em contato com Jamile. Disse que queria que ela fosse o encontrar em sua tabanca. Jamile concordou. Ela tinha um segredo que não poderia contar por telefone. Chegou o dia de Jamile encontrar Kwame. Ele a esperava no aeroporto quando avistou seu rosto e depois viu que ela trazia segurando pela mão uma criança. Kwame ficou surpreso. Quem seria aquele menino.
Jamile abraçou Kwame com muita saudade e disse a ele que aquele garotinho era seu filho. Quando Kwame voltou para sua terra Jamile estava grávida e guardou esse segredo até o momento em que Kwame entrasse em contato com ela. Kwame não conteve as lágrimas e abraçou aquele garotinho que tinha o nome de Patrice. Kwame levou Jamile e seu filho para a tabanca e os apresentou a Ifi que se alegrou por ver o filho tão feliz. Aquele era o sonho de Ifi: ver seu filho realizando seus sonhos e transformando a vida das pessoas na tabanca.
*Elisabete Vitorino, autora deste conto, explica que a história de Kwame é “a história de alguém que atravessou o Atlântico e voltou para casa transformando a vida das pessoas da sua comunidade e sua própria vida. Kwame acreditou nos seus sonhos, teve a benção e amor de sua mãe – Ifi. A travessia é caminho de ida e caminho volta. Foi o que aconteceu com Kwame. E assim deixo para vocês o desejo de transformação coletivo das nossas.” Leia a primeira parte aqui e a segunda aqui.
**Elisabete Vitorino é paraibana, assistente social, mestra em Serviço Social e especialista em Saúde Mental pela UFPB. Atualmente é doutoranda em Estudos Étnicos e Africanos pela UFBA. Foi professora do curso de graduação de serviço social na Univerdidade Federal do Recôncavo da Bahia e professora formadora do curso de Aperfeiçoamento em Educação para as Relações Étnico-Raciais, promovido pela Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab) no Campus dos Malês. É autora do livro “Serviço Social e atuais tendências do exercício profissional na saúde mental em João Pessoa/PB”.
***A opinião contida neste texto não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.
