Celebrado nesta sexta-feira (19), o Dia do Cinema Brasileiro serve de ponto de partida para uma reflexão sobre os caminhos, os desafios e a força do audiovisual produzido no país. Para o cineasta Renato Barbieri, diretor de “Pureza”, o cinema nacional vive um momento de potência criativa e pode ampliar sua presença no mundo ao apostar nas histórias do “Brasil profundo”.
Lançado em 2022 e protagonizado por Dira Paes, “Pureza” narra a história real de Pureza Lopes Loyola, diarista e empregada doméstica maranhense que, em 1993, saiu em busca do filho caçula, Abel, após ele deixar o Maranhão rumo a garimpos e fazendas no Pará com a promessa de ganhar dinheiro para ajudar a família. O desaparecimento do jovem levou a mãe a enfrentar uma realidade marcada pelo trabalho análogo à escravidão.
Esta sexta também marca o retorno do filme à TV aberta para sua quarta exibição. Nas três anteriores, o longa foi assistido por mais de 66 milhões de brasileiros e brasileiras, segundo dados do Ibope informados pelo diretor.
Com a nova exibição, Barbieri avalia que “Pureza” deve ultrapassar a marca de 70 milhões de espectadores, consolidando-se como um dos filmes brasileiros mais vistos dos últimos anos. Para o cineasta, esse alcance dialoga com uma mudança na relação do público com o audiovisual nacional.
“Acho que o público mudou com a pandemia. O público está mudando sempre, nunca é estático”, afirma o diretor, em entrevista à Rádio Brasil de Fato. Para ele, as novas gerações, formadas em meio ao ambiente digital, se relacionam de outra forma com a televisão, o cinema e as plataformas de streaming.
Barbieri avalia que, nos últimos anos, o drama brasileiro passou a ganhar mais espaço entre os espectadores. Ele cita o interesse crescente por filmes com temas sociais, políticos e históricos como sinal de que parte do público tem buscado obras conectadas com questões reais.
“As pessoas buscam se informar bem hoje para aprumar suas escolhas em um mundo que está se transformando tanto”, diz. “Acho que esse interesse por algo real está crescendo.”
Brasil profundo
Com mais de quatro décadas de trajetória no audiovisual, Renato Barbieri dirigiu, produziu e roteirizou obras marcadas por relevância social, ambiental e artística. Diretor de criação da GAYA Filmes, ele começou a carreira nos anos 1980, no coletivo paulista Olhar Eletrônico, e realizou mais de 100 obras audiovisuais, que conquistaram mais de 70 prêmios nacionais e internacionais.
Sua filmografia passa por temas como quilombos, povos indígenas, cultura afro-brasileira, migrações, direitos humanos e trabalho análogo à escravidão. Em anos recentes, sua investigação aparece também no documentário “Servidão”, de 2024.
Para Barbieri, essas histórias revelam uma parte do país que ainda aparece pouco nas telas. “Elas revelam o Brasil real. Quando lancei “Pureza”, eu falei uma frase que muita gente gostou: ‘O Brasil real, o Brasil profundo é que vai nos salvar’”, afirma.
O diretor critica uma representação do país excessivamente ligada ao consumo, ao individualismo e a referências externas. Na visão dele, há uma força cultural e humana em territórios historicamente marginalizados que precisa ser mais escutada e retratada pelo cinema.
“Não é o Brasil ‘americanófilo’ do shopping center e do asfalto, baseado no individualismo, que vai nos salvar. É o Brasil da solidariedade, do encantamento, dos encantados”, diz.
Para Barbieri, o cinema tem a capacidade de aproximar o público de personagens e experiências que muitas vezes permanecem invisibilizadas. No caso de “Pureza”, ele destaca a comoção provocada por uma história real que parte da vida de uma mulher maranhense até então desconhecida por grande parte do país.
“É um drama brasileiro real, amazônico, sobre uma mulher maranhense de quem ninguém nunca tinha ouvido falar e que, de repente, comove as pessoas, faz chorar”, afirma.
O cineasta recorda que o trabalho análogo à escravidão representa uma forma extrema de exploração, que transforma seres humanos em vidas descartáveis. Por isso, ele defende que o cinema cumpra o papel de devolver humanidade e visibilidade a pessoas historicamente silenciadas.
“O outro é algo a ser consumido e descartado como lixo”, afirma. “Então, acho que trazer o olhar para essas pessoas é fundamental.”

Escuta atenta
Ao falar sobre seu método de trabalho, Barbieri defende que filmar histórias do chamado “Brasil profundo” exige respeito, tempo e escuta. Segundo ele, o documentarista ou cineasta que chega a uma comunidade com arrogância corre o risco de captar apenas a superfície da realidade.
“A realidade é como as camadas de uma cebola”, compara. “Se você chegar com arrogância, vai filmar só a casca. As pessoas vão te mostrar apenas a superfície e você voltará para casa com o superficial.”
O diretor afirma que, para acessar os estratos mais profundos de uma história, é preciso estabelecer uma relação de confiança com as pessoas filmadas. Essa responsabilidade, segundo ele, não termina no momento da gravação. Continua na montagem, no lançamento, nos créditos e no retorno dado às comunidades envolvidas.
“Quando você olha horizontalmente para as pessoas, não de cima, nem de baixo, mas olhando na sua dignidade para a dignidade do outro, as pessoas reconhecem que ali está chegando alguém que vem em paz”, diz.
A postura dialoga com aquilo que o próprio cineasta define como um “cinema social de impacto”, pautado pelas urgências do tempo presente e por uma relação imersiva com o real.
Essa forma de trabalhar marcou também a realização de “Atlântico Negro – Na Rota dos Orixás” (1997), documentário considerado uma referência nas relações entre Brasil e África. Barbieri conta que, durante as filmagens no Benin, foi acolhido em territórios e rituais aos quais dificilmente teria acesso sem uma relação de confiança.
“O Brasil tem um carisma absurdo. O futebol ajudou muito, mas o carisma vai além”, afirma. “Ser brasileiro ajuda muito a fazer documentário na África porque, em princípio, você é bem recebido. Claro que, se você chegar com uma postura arrogante ou racista, eles vão notar na hora.”
Para o cineasta, a relação entre quem filma e quem é filmado passa também pelo reconhecimento da câmera como instrumento de poder. Ele lembra que uma imagem pode construir memória, mas também pode expor, constranger e gerar riscos para as pessoas retratadas.
“Uma câmera parece uma arma, e ela é uma arma porque pode matar reputações ou até levar à morte física e a perseguições por causa de uma imagem”, afirma.
Cinema brasileiro
Para Renato Barbieri, o cinema nacional vive um momento especial. O diretor avalia que a produção brasileira tem ganhado qualidade, diversidade regional e reconhecimento internacional. Ele cita a presença de realizadores em diferentes estados como sinal de uma profissionalização mais ampla do setor.
“Hoje temos um cinema muito competitivo, com pessoas fazendo cinema seriamente no Acre, em Goiânia, em Palmas, em Salvador, no Ceará, em Belo Horizonte, Porto Alegre, Curitiba. Para onde você for, vai encontrar grupos se estruturando para fazer um cinema competitivo, bem estruturado e com ótimos roteiros”, afirma.
Integrante da Academia Brasileira de Cinema, responsável pelo Prêmio Grande Otelo, Barbieri diz que a qualidade da produção nacional tem tornado cada vez mais difícil a escolha dos filmes premiados.
“É impressionante a quantidade de filmes bons”, afirma. “O cinema brasileiro está se profissionalizando de um jeito incrível em todo o país.”
Apesar do bom momento criativo, o cineasta avalia que persiste o desafio de ampliar a presença do Brasil no mercado internacional. Para ele, o país tem histórias capazes de atravessar fronteiras, mas precisa fortalecer estratégias de circulação e coprodução.
“Acredito que o grande e bom desafio é o Brasil ser ouvido no mundo. O Brasil tem um recado a dar, e o cinema é um dispositivo fabuloso para isso”, afirma.
Barbieri defende que o audiovisual seja pensado também como indústria, com políticas públicas capazes de fortalecer a exportação de obras nacionais. Ele destaca que iniciativas recentes da Ancine, do Ministério da Cultura e do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços têm buscado ampliar a presença da produção brasileira no exterior.

Olhar mundial
Barbieri defende que o Brasil reúne condições culturais únicas para dialogar com públicos de outros países. Para ele, a diversidade histórica, territorial e ancestral do país pode se transformar em força narrativa no cinema.
“Os Estados Unidos fazem cinema para o mundo inteiro com os seus blockbusters [filmes de grande orçamento e forte apelo comercial], mas o Brasil tem mais capacidade de se comunicar genuinamente com o mundo do que os Estados Unidos”, afirma.
O diretor reconhece que a frase soa ousada, mas acredita no potencial do país para se comunicar mais profundamente com diferentes povos devido à capacidade brasileira de transformar experiências de dor, desigualdade e violência em criação artística.
“O povo brasileiro soube usar a criatividade. Os injustiçados souberam criar um diálogo criativo, e essa história é muito bonita e precisa ser melhor contada”, diz.
Na avaliação de Barbieri, a saída financeira para parte do cinema nacional está na busca por mercados internacionais e mundiais, sem abandonar a importância das obras voltadas ao público brasileiro. Ele diferencia filmes de circulação nacional, internacional e mundial, e afirma que o desafio industrial e artístico do país passa por atravessar fronteiras.
“Existe o mercado nacional; existe o mercado internacional, que atinge basicamente a Europa e as Américas; e existe o mercado mundial, que envolve a China, a Índia e a África”, afirma.
“Se eu contar apenas com o mercado brasileiro, não consigo pagar o custo do meu filme. Preciso de outros mercados para cobrir os custos ou dar lucro”, segue. “Acho que a saída é internacional ou mundial. Nós temos o que dizer.”
Para o diretor, o Oscar ainda representa uma das principais vitrines de projeção global. Ele cita “Cidade de Deus” e “Ainda Estou Aqui” como exemplos de filmes brasileiros que conseguiram alcançar uma dimensão mundial a partir desse reconhecimento.
Novas histórias
Ao olhar para o futuro do cinema brasileiro, Renato Barbieri encontra esperança na quantidade de vidas ainda não contadas. Para ele, o país possui um vasto repertório de personagens e experiências capazes de encantar o mundo.
“Me dá esperança o fato de termos histórias incríveis que ainda não foram contadas no cinema”, afirma. “A esperança que tenho vem desse arsenal de histórias, de mitos e de narrativas que ainda aguardam para ser filmadas.”
O cineasta segue na procura por dialogar com o Brasil e com outros países. Para ele, o caminho do cinema nacional passa por reconhecer a própria força, valorizar suas narrativas e disputar espaço no mundo.
“Acredito que o Brasil às vezes não veste a nossa própria camisa”, afirma. “Temos muito chão pela frente. Tenho muita esperança em histórias que podem encantar o mundo.”
