Renúncia de Starmer

Crise política, social e econômica: qual o futuro do Partido Trabalhista no Reino Unido?

Diante de contradições do Brexit, Reino Unido diminui espaço de partidos tradicionais e cria gargalos para o trabalhismo

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Escolha do novo premiê deve acontecer até o final de agosto.
Após vitória contundente em 2024, Keir Starmer deixa o cargo de primeiro-ministro sob críticas internas | Crédito: Ilyas Tayfun Salci/Anadolu/Anadolu via AFP

A saída de Keir Starmer do cargo de primeiro-ministro no governo britânico recoloca em debate o futuro do Partido Trabalhista e a estratégia adotada pela legenda nos últimos anos. Enquanto se prepara para escolher um novo líder, a sigla busca responder à perda de apoio popular, à crise econômica e ao crescimento de forças políticas que desafiam o histórico bipartidarismo do Reino Unido.

A chegada de Starmer ao poder, em julho de 2024, foi um bálsamo para o Partido Trabalhista. Apenas cinco anos antes, ainda sob efeito da saída do Reino Unido da União Europeia (UE), a população britânica fez com que a sigla amargurasse a maior derrota desde 1935. 

Mas as políticas de austeridade do Partido Conservador, somadas às dificuldades impostas pelo Brexit, criaram o caldo com o qual a população britânica passou a repensar suas escolhas. Foi assim que Starmer se tornou apenas o quarto líder trabalhista a vencer uma eleição, na maior conquista da sigla desde a vitória de Tony Blair em 1997. 

Mas, dois anos depois, o agora ex-premiê sai do poder com popularidade mínima. A questão econômica explica parte do processo de queda de Starmer, mas não só. Mudanças sociais profundas levam a um novo balanço no jogo político do Reino Unido, fazendo com que os trabalhistas passem a repensar o lugar que têm na cena britânica. 

Em conversa com o Brasil de Fato, Hugo Albuquerque, analista internacional e editor da Autonomia Literária, aponta que o Reino Unido enfrenta uma crise decorrente do fato de estar ampliando a financeirização da economia, “muito dependente da banca estadunidense, e que não é aquele velho império”. Trata-se, para ele, de um “penduricalho do sistema financeiro dos EUA, com muitos problemas”. Distante da União Europeia, a produção industrial piorou e o fluxo de comércio com os demais países europeus se tornou ainda mais engessado.

James Schneider, escritor inglês, diretor da organização Progressive International e ex-conselheiro de Relações Públicas do então líder do Partido Trabalhista, Jeremy Corbyn, conversou com o Brasil de Fato e destacou que as condições de vida no Reino Unido vêm piorando a ponto de começar a remodelar a ordem social.

“O crescimento dos salários na Grã-Bretanha está estagnado, preso em termos reais aos níveis de 2005 para a maioria dos trabalhadores, enquanto os serviços públicos foram cortados com uma grande austeridade imposta ao Estado”, afirmou.

À semelhança do que acontece em outros países — mesmo aqueles que estão entre as principais economias do mundo —, as gerações mais novas no Reino Unido tendem a experimentar maiores dificuldades, em termos financeiros e econômicos, do que as anteriores. “Enquanto a riqueza dos super-ricos continua disparando e a política segue sendo capturada pelas corporações, a todo vapor”, diz Schneider.

Entra e sai de cena

Ainda assim, ao anunciar que iria renunciar ao cargo, na última segunda-feira (22), Starmer fez questão de destacar sua contribuição para fazer com que o Partido Trabalhista voltasse ao centro da cena política do Reino Unido.

Ele lembrou que “herdou um Partido Trabalhista que estava falido política, financeira e moralmente” há seis anos, e que teria vindo dele a força para transformar a sigla, “extirpando o veneno do antissemitismo, restaurando a confiança na economia, na defesa e na segurança nacional, e tornando-se um partido que mais uma vez se posicionou orgulhosamente ao lado, e não contra” a bandeira do Reino Unido.

Ao lembrar como moldou algumas bases do Partido Trabalhista, Starmer citou que foi em sua gestão que o então líder do Partido Trabalhista, Jeremy Corbyn, acabou suspenso da sigla, depois que a Comissão de Igualdade e Direitos Humanos (EHRC, na sigla em inglês) identificou problemas na conduta a respeito do antissemitismo. Corbyn frequentemente acusa Starmer de leniência sobre o genocídio em Gaza.

Para poder governar em um ambiente de notável instabilidade — foram seis primeiros-ministros desde o Brexit, em 2016 —, Starmer levou os Trabalhistas mais ao centro, tentando atrair (ou evitar a rejeição) de eleitores conservadores. A insatisfação interna não demorou. No discurso de renúncia, por exemplo, Starmer reconheceu que o partido vinha colocando em dúvida a capacidade dele de liderar a agremiação para as próximas eleições gerais. O ex-premiê teria ouvido o que chamou de “resposta” dos membros do partido e aceitado a decisão “de bom grado”.

Acerto de contas

O futuro do Partido Trabalhista pode estar nas mãos de Andy Burnham, ex-prefeito da Grande Manchester, que recentemente obteve uma vaga no Parlamento britânico. Em comparação a Starmer, Burnham transita pela ala mais à esquerda da sigla. 

Mas as próximas perspectivas terão que se alinhar com o passado recente do partido fundado ainda no início do século 20, quando conseguiu sindicatos esgotados com o estado de avanço do capitalismo à época. Afinal, a sigla ostenta, entre seus quadros históricos, os nomes de Clement Attlee, peça-chave na construção do Estado de Bem-Estar Social britânico, e de Tony Blair, o líder reformista que ajustou a rota da sigla nos anos 1990. 

O grande desafio do Partido Trabalhista não passa apenas por voltar a vencer os conservadores. Essa ideia faz parte da lógica bipartidária tradicional. A principal questão passa por entender como será possível disputar o poder em meio à fragmentação política.

Para Schneider, Andy Burnham, possível sucessor de Starmer, dificilmente pode “consertar grande coisa por muito tempo, se as questões de fundo não forem enfrentadas”. “Burnham precisaria provocar um abalo muito mais substancial na economia política da Grã-Bretanha e uma redistribuição muito mais significativa de riqueza e poder, retirando-os dos super-ricos e das parcelas mais privilegiadas do capital e transferindo para a maioria da população”, diz Schneider. “Mas isso não se faz apenas por discursos”, ressalta. 

“O Partido Trabalhista é vítima da sua própria rejeição ao desempenhar o papel histórico que ele mesmo se atribui. Em vez disso, o partido, sob a liderança de Starmer, foi capturado em favor de interesses corporativos para servir aos ditames do imperialismo dos Estados Unidos. Isso foi a ruína de Starmer, porque essas amarras o impediram de melhorar o padrão de vida da esmagadora maioria das pessoas”, analisa.

O futuro premiê britânico será escolhido pelo Partido Trabalhista. O comitê executivo da sigla ainda vai divulgar um cronograma para a substituição. A expectativa é que o processo seja concluído até o dia 1º de setembro, data que encerra o recesso de verão do Parlamento.

Bipartidarismo histórico?

Para além das crises internas e gerais, o trabalhismo tem perdido espaço para partidos menores. Os conservadores, cuja história recente ficou marcada pela passagem de Boris Johnson no poder, também. As brechas estão sendo preenchidas pelo Reform Party, uma agremiação de extrema direita criada em 2021 por Nigel Farage. Nas eleições locais do último mês de maio, a sigla obteve cerca de 1.500 cadeiras nos conselhos locais, que se assemelham às câmaras municipais brasileiras. Antes, o Reform Party tinha apenas duas.

O eixo central do discurso do Reform Party é a rejeição a imigrantes. Algo esperado pelo Brexit, que previa que o governo britânico tivesse uma margem maior para alterar políticas migratórias, por meio de um sistema baseado em pontos. Na prática, o que aconteceu foi o contrário. 

Desde 2016, o Reino Unido vem registrando um crescimento populacional semelhante ao da década de 1960, que marcou a bonança do pós-guerra. Em 2023, segundo dados do Office for National Statistics (ONS), o saldo de migração líquida ficou em 685 mil migrantes. 

O que mudou, porém, foi o perfil das pessoas que passaram a chegar no Reino Unido. Antes, eram imigrantes de países da União Europeia. Agora, indivíduos de outros países. Essa condição tem mudado a dinâmica de trabalho. Segundo a organização Changing Europe, o número de trabalhadores saídos de países de fora da UE aumentou em cerca de 992 mil, até 2024, em comparação ao período anterior ao Brexit.

Não seria o momento ideal para a consolidação do trabalhismo no Reino Unido? Nem tanto. Até 2019, os trabalhistas, ao lado dos conservadores, dominavam 76% dos votos dos eleitores britânicos. Esse número caiu para 58% nas eleições de 2024, vencidas por Starmer. Os dados são do Institute for Government, que também mostra que o Reform UK tem preenchido espaços à direita no imaginário político da Grã-Bretanha, enquanto os Verdes fazem um movimento parecido à esquerda.

Editado por: Rafaella Coury

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