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Vídeo de Michelle altera a história do bolsonarismo

Discurso da ex-primeira-dama coloca os líderes masculinos do bolsonarismo nas cordas

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A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro
A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro | Crédito: Reprodução/Instagram/@michellebolsonaro

O que é o bolsonarismo? Antes de tudo, é uma ideologia. Ideologia significa “visão de mundo”, uma espécie de lente pela qual um grupo de pessoas enxerga e interpreta o mundo. Uma ideologia estrutura uma forma de organização e práticas sociais, mas também mobiliza emoções. Ao canalizar emoções e convergir formas de interpretar os acontecimentos, as ideologias organizam uma consciência coletiva sobre o mundo, mas também rearranjam o inconsciente coletivo.

O psicanalista Erich Fromm procurou entender o que faz uma pessoa se atirar em atos de destrutividade e violência e encontrou situações de fácil explicação, como os sádicos, que aguardam um ambiente propício para agir. Contudo, o pesquisador alemão encontrou casos não tão evidentes, como aqueles que vivem situações de tédio crônico. Para estes, uma aventura até mesmo ilícita os move como que para dar sentido à sua vida que parece hibernar. Há ainda os que necessitam seguir uma voz de comando para se sentirem estáveis e não responsáveis por suas decisões, mesmo que o comando não os agrade.

As ideologias, principalmente aquelas baseadas no discurso excessivamente agressivo e até violento, como é o caso do bolsonarismo, mobilizam personalidades como a descrita acima. Essas personalidades, unidas por uma estrutura de comando hierarquizada de onde emanam estímulos contínuos que servem como gatilho, acabam gerando uma comunidade política e fanática onde tudo que ocorre no mundo se encaixa neste mosaico de explicações.

É o que se denomina de “viés de confirmação”, ou seja, o bombardeio permanente de estímulos e orientações muitas vezes irracionais acabam gerando um olhar viciado e enviesado sobre tudo. Do caos nasce um mundo à parte em que todos os fenômenos se encaixam para os seguidores.

Percebamos, então, que é preciso uma voz de comando que estimule as reações irracionais na direção de uma lógica peculiar dos líderes do fanatismo ideológico.

Sociólogos costumam dizer que ações coletivas podem ser motivadas por um objetivo comum racional ou irracional, por emoção ou por tradições e costumes. O bolsonarismo movimenta a convergência de interesses a partir do irracional, mas também através dos símbolos e orientações religiosas e pela forte comoção. Para tanto, é preciso centralização política e voz de comando.

Esses são os traços visíveis do bolsonarismo.

Pois bem, até a prisão de Jair Bolsonaro, o comando político era absolutamente centralizado na figura deste personagem. Uma organização de tipo monárquica, com um líder absoluto ungido por algo ou alguém nunca nitidamente apresentado.

O centro do discurso de Jair Bolsonaro era o militarismo e a ordem ultraconservadora, tendo o regime militar instaurado em 1964 no Brasil como modelo de referência. Daí emanavam outros ideários que se colavam ao mito original. Talvez, o mais forte e mobilizador, embora abaixo do militarismo, era o discurso religioso focado no Velho Testamento. Lembremos, o Antigo Testamento tem como centro da narração a criação do mundo e a aliança de Deus com o povo de Israel. Já o Novo Testamento relata a vida, morte e ressurreição de Jesus, marcando por um anúncio para toda a humanidade que procurava estimular um movimento social. No primeiro caso, o foco é na autoridade e no comando externo. No segundo caso, há espaço para a ação coletiva e o papel de lideranças religiosas libertadoras que redimem a humanidade.

O bolsonarismo não prega a libertação, mas a lealdade extrema e o temor à autoridade.

Com a prisão de Jair Bolsonaro e de outras lideranças militares envolvidas com seu governo, o militarismo passou a perder o lugar central da sua ideologia. Pouco a pouco, lideranças até então menores foram se projetando. E a ala mais religiosa foi galgando espaço como que um ideário catalizador de todos os símbolos e projetos do bolsonarismo. Ocorre que, como toda lógica monárquica, restava a família do líder máximo.
Assim, nos bastidores do bolsonarismo, foi se estruturando uma disputa surda entre essas duas alas: a vertente religiosa ultraconservadora e os herdeiros de sangue do líder máximo. Passaram a ser as duas fontes principais do poder discursivo e agregador do bolsonarismo.

É a partir deste cenário de disputa que é possível interpretar os dois vídeos publicados por Michelle Bolsonaro no dia do jogo de futebol do Brasil contra a Escócia. Pela primeira vez, foi escancarada a disputa entre as duas vertentes. Os vídeos de Michelle foram ainda mais poderosos que qualquer discurso para o público externo, justamente porque ela faz parte da família Bolsonaro. Mais: é líder máxima do PL Mulher o que, numa estrutura organizativa altamente centralizada e marcada pelo respeito às autoridades, significa um lugar de destaque na hierarquia bolsonarista.

Mudança interna

Mas, Michelle Bolsonaro não atua apenas no mundo familiar ou mesmo num lugar partidário, a despeito da sua relação estreita com o presidente nacional do PL. Michelle trouxe com os vídeos um novo elemento ao bolsonarismo: a defesa das mulheres. Este ideário foi inaugurado no extremismo de direita na França, pela elaboração de Marine Le Pen. Marine trouxe um “feminismo torto” quando afirmou que as mulheres francesas deveriam se proteger dos homens muçulmanos que as ameaçam e estupram. Uma evidente instrumentalização dos direitos das mulheres para defender agendas anti-imigração e islamofóbicas. O partido de ultradireita AfD (Alternativa para a Alemanha) entrou neste jogo e lançou uma campanha onde aparecia uma foto de mulheres jovens de biquíni acompanhada do texto “Burca? Nós gostamos de biquínis!”. Em outro, os olhos de uma mulher usando burca eram seguidos da frase “a liberdade das mulheres não é negociável”.

Michelle agrega ao bolsonarismo esta novidade quando fala do direito das mulheres ultraconservadoras em serem candidatas e liderarem o bolsonarismo. Fala de si, evidentemente, mas se lança como liderança feminina do extremismo de direita, algo inédito até então.

Faz mais ao articular o “feminismo torto” com o Velho Testamento. Para tanto, distribuiu símbolos religiosos por todo o cenário que armou para gravar os dois vídeos. E atacou duramente os “filhos homens do líder máximo”. Da sua maneira, surfou na lógica identitária que identifica nos homens todos os problemas vivenciados pelas mulheres. Ora, as evangélicas são majoritariamente negras ou pardas.

Segundo o Datafolha, 59% dos evangélicos se declaram pretos ou pardos, sendo que as mulheres representam 58% a 69% do total de fiéis (sendo mais expressivas nas igrejas neopentecostais). Ocorre que mulheres negras representam mais de 62% das vítimas de feminicídios em nosso país, sendo que 80% têm nos parceiros ou ex-companheiros os autores do seu assassinato.

O discurso de Michelle é, portanto, muito poderoso e coloca os líderes masculinos do bolsonarismo nas cordas. O que podem falar? Como reagir? Não basta usarem uma mulher que não seja da hierarquia bolsonarista para contrapor a liderança de Michelle. Esta tentativa não cabe na lógica política bolsonarista.

Estamos diante de uma revolução no interior do bolsonarismo. Não é apenas uma disputa pelo comando desta ideologia. É uma mudança interna de perspectiva.

Entendamos que, entre as igrejas evangélicas ultraconservadoras, a mulher tem o papel de alertar seus maridos a se voltarem à religião e a Deus. O marido é quem prega e traz as orientações divinas ao lar. Contudo, se falhar, é a esposa que tem o dever de fazer seu marido retornar ao caminho da retidão e do temor a Deus. É exatamente este papel que Michelle Bolsonaro parece investir: aquela que alerta sobre o desvio do caminho de Deus.

Este é o fulcro do discurso e ofensiva aberta com os dois vídeos produzidos por Michelle. Não é uma mera disputa, mas uma ressignificação do bolsonarismo. Uma lógica que a maioria dos líderes bolsonaristas não tem como enfrentar no momento.

Evidentemente, uma lógica que desmonta a estrutura de campanha de Flávio Bolsonaro. Flávio e Valdemar Costa Neto terão que negociar com Michelle a partir de agora. Michelle que foi acolhida pela governadora do DF, Celina Leão. Mas, também pelo campeão de intenção de voto para governador de Minas Gerais, Cleitinho.
Se negociar, Michelle pode até aliviar o conflito com a campanha de Flávio. Mas, terá sido alçada para a sucessão da liderança nacional do bolsonarismo.

*Rudá Ricci é sociólogo, doutor em ciências sociais e presidente do Instituto Cultiva.

**Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato DF.


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Editado por: Flavia Quirino

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