Tenho me dedicado nos últimos anos, e intensamente nos últimos meses, a compreender o bolsonarismo. Compartilho com vocês algumas reflexões que espero que contribuam em nossa luta para vencê-lo eleitoralmente este ano, para vencê-lo em definitivo nos próximos anos e para conseguirmos mudar a realidade de nosso povo e nosso país.
Já é de conhecimento comum os motivos conscientes de apoio a Bolsonaro: a luta contra a corrupção e o sistema, a identificação do PT com ambos, o conservadorismo. Mas outros movimentos e partidos da direita também têm estas bandeiras. Qual o diferencial do bolsonarismo que o fez se tornar a principal força política da direita, conseguindo conquistar pessoas para além dela?
Penso que é dar sentido ao indivíduo.
É conseguir capturar os sentidos do que é ser alguém no mundo, o que é ser homem, ser mulher, ser brasileira, ser cristão (a questão racial opera no bolsonarismo pelo silêncio). Enquanto a esquerda disputa apenas os sentidos econômicos do mundo, marginalizando as críticas sobre o indivíduo hegemônico (o homem branco heterossexual cis rico) para o espaço segmentado do “identitarismo” (que abarcaria as críticas sobre raça, gênero e sexualidade), o bolsonarismo surfa no vácuo deixado no indivíduo pelos movimentos históricos de combate às diferentes formas de opressão, de questionamento do mundo e do indivíduo hegemônico — o indivíduo beneficiado pelo racismo, pelo patriarcado heteronormativo, pelo capitalismo.
Eu percebo a mim e ao mundo pelos sentidos que dou a mim e ao mundo. Como somos seres sociais, aprendemos a ser humanos nas relações com o mundo, com nossa cultura, nossa sociedade, dando sentidos para tudo, para o que é uma cadeira, o que é dinheiro, o que é a bondade, o que é ser homem, ser mulher.
Indivíduo e mundo são inseparáveis, tudo que existe em mim está em relação com o que existe fora de mim. A esquerda, ao perceber que as mudanças são sempre coletivas, ignorou a importância do indivíduo nisso. Mas é impossível falarmos de racismo estrutural, de capitalismo e de patriarcado heteronormativo, sem falarmos do indivíduo que essas diferentes dimensões de opressão formam. Este indivíduo somos nós. Sou eu, é você, sua mãe, seu pai, somos todas e todos. Então, se vivemos em um mundo racista, patriarcal, heteronormativo, capitalista, os indivíduos formados neste mundo serão inevitavalmente racistas, machistas, homofóbicos, individualistas, pois os sentidos que damos a nós e ao mundo são construídos também por estas dimensões de opressão — isso até nos percebermos e, então, podermos (e devermos) mudar.
Questionar o mundo, portanto, é questionar o indivíduo. E isso é extremamente necessário, pois queremos um mundo em que todas as pessoas tenham o direito de viver bem. Mas, ao questionarmos este indivíduo hegemônico, estamos colocando em xeque o sentido do indivíduo em nossa sociedade pois, por ser hegemônico, todas e todos nos formamos como pessoas com este indivíduo como norma (introjetado) — seja pela identificação, pela oposição, pelo desejo, pela repulsa.
A percepção do eu e do mundo que conquistou hegemonia no mundo ocidental com a colonização, é a do indivíduo separado do mundo, o indivíduo que era e é o colonizador, o homem, branco, heterossexual, rico, europeu, cristão. O mundo é percebido a partir dele. As outras pessoas são percebidas a partir dele e de seu narcisismo, sua preocupação apenas consigo próprio e sua incapacidade de perceber a outra pessoa como alguém tão humano, tão complexo como ele. Se a pessoa não é branca, ela é racializada e percebida como sub-humana pelo racismo. Se é mulher, é um objeto de satisfação sexual e de afetos percebida pelo machismo. Se sua sexualidade é diferente, é vista como anormal, doente. Se é pobre, é vista como subalterna. Se não é cristão, é herege. E se é aparentemente igual, um homem branco heterossexual cristão com dinheiro, é visto como um competidor, pelo individualismo.
Esta cosmovisão hegemônica, que pariu o racismo, o capitalismo, o patriarcado, o fascismo, a ciência, é centrada na ilusão da separação entre indivíduo e mundo: o mundo existe para satisfazer os desejos do indivíduo, e a capacidade do indivíduo de satisfazer seus desejos depende apenas de seu esforço, seu trabalho, seu mérito. Mérito individual, também separado do mundo.
Nesta cosmovisão colonial, que ainda nos forma, este indivíduo hegemônico é universal. Desconectado do mundo, ele percebe suas relações com o mundo pela frieza do utilitarismo, como se tudo fosse mercantilizável, como se todas as relações pudessem ser econômicas e econômicas capitalistas. Essa desconexão com o mundo, a incapacidade de percebê-lo com curiosidade, com amor, nos deixa profundamente sozinhos. Solitários, não nos percebemos como parte do mundo, da natureza, não nos percebemos como um dos corpos que vivem no mundo e, portanto, é plausível acharmos que podemos compreender o mundo inteiro pelo pensamento.
O corpo nos aterra, aterra nossas ideias. Separar o pensamento do corpo é desaterrar, separar as ideias da realidade, percebendo ela como se quer perceber, projeção de nosso mundo interior. Na ciência, isto se expressa no fundamento basilar de que as ideias do indivíduo podem ser universais, como se caíssem do céu, e não fossem ideias elaboradas por uma pessoa, com um corpo, uma existência material localizada no tempo e no espaço. Mas o indivíduo desta cosmovisão é o indivíduo hegemônico: são os filósofos e cientistas europeus brancos que descobrem verdades universais sobre a vida e o ser humano. Isto é a cosmovisão que se tornou hegemônica com a colonização. Pois, se for uma mulher negra no interior de São Paulo fazendo ciência e descobrindo novos aspectos da realidade, não diremos que ela está descobrindo verdades universais, mas que são estudos de uma mulher negra no interior paulista.
A ilusão de que pessoas podem ser universais, sem corpo, é fruto da ilusão de que estamos separados do mundo, e é o que possibilita a grande contradição que a mantém: ao mesmo tempo em que o indivíduo é o centro de tudo, é o mundo, ele nunca reflete sobre si mesmo, pois, afinal, ele não tem corpo, ele é universal. Ele reflete sobre o universo, mas não sobre si próprio. Nos desconectarmos do mundo é também nos desconectarmos de nós próprios. Nós não nos percebemos, não investigamos o universo que existe dentro de nós. E é isso que torna possível a contradição já conhecida de racistas que dizem ser antirracistas, machistas que dizem amar as mulheres, homofóbicos que dizem não ter preconceito. A desconexão com o mundo é o cerne desta cosmovisão. E esta desconexão leva a contradições, a incoerências.
Vivemos em tempos de incerteza existencial. Nossa aventura humana no planeta Terra parece com os dias contados e a diminuir, pelas mudanças climáticas, pela destruição dos seres e da vida, do ambiente do qual somos parte. Assistimos indignados e sem surpresas governos fascistas fazendo novos genocídios e guerras obscenas. Os avanços tecnológicos criam um mundo de ilusões e adoecimento que rouba nossa vida o tempo inteiro pela tela do celular. O avanço do capitalismo para novas dimensões da existência, sua crueldade e o agravamento das desigualdades sociais tornam mais difícil e incerta as vidas da maioria da população. O avanço de lutas históricas contra o racismo, o patriarcado heteronormativo, o capitalismo, tornaram impossível ignorar que nossas relações — nesta sociedade que construíram e destruíram para nós e que nós mantemos — são marcadas por violências que beneficiam, sempre, as mesmas pessoas, mas de diferentes formas. Este sistema foi feito para beneficiar o homem branco hetero e rico. Quem tem algum destes requisitos mas não todos, vai sofrer algumas violências e se beneficiar pelas outras violências.
Neste mundo cheio de incertezas, o que é ser alguém? Qual o sentido que eu tenho para minha vida, qual meu propósito, quem sou eu? De repente, o pouco que eu tinha de certeza sobre a vida, de que sou uma pessoa boa e sem preconceitos, é colocado em xeque. Entre todas as incertezas e correrias, sofrimentos e trabalhos, como posso viver com alguém falando que na verdade sou um opressor?
Viver é dar sentido ao eu e ao mundo. Nada existe (para nós) sem sentido. Quando os sentidos do mundo parecem perdidos e os sentidos do eu são questionados, abre-se a disputa para quais serão os sentidos que vou dar ao eu e ao mundo, pois não existe ausência de sentido. E é aqui que o bolsonarismo entra. O sentido que ele dá ao mundo é similar ao de outros movimentos da direita, da guerra contra o diferente e da união competitiva com os iguais, da exploração do mundo para benefício próprio. O sentido que ele dá ao eu, ao indivíduo, é o da negação violenta de todos aqueles questionamentos sobre opressões e violências, e reafirmação do indivíduo hegemônico. O bolsonarismo só conseguiu fazer esta disputa pelos sentidos do indivíduo e vencer, porque se aliou às correntes mais conservadoras do cristianismo. Porque percebeu, talvez não conscientemente, que nós somos um todo, e não existe separação real entre política e espiritualidade.
É este o diferencial do bolsonarismo. Dizer às pessoas que elas não são racistas, machistas, homofóbicas, e que quem diz isso está perdido ou é mal intencionado. É dizer que quem apoia Bolsonaro são os cidadãos de bem, que são cristãos e que, por isso, são pessoas boas, que defendem Deus, a pátria, a família. É assegurar a identidade de cada uma e um, é dar certeza de quem você é e qual o seu propósito na vida. O sentido que o bolsonarismo dá ao indivíduo é o do cristão conservador, com tudo que isso implica.
Diante disso, o que fazer?
Precisamos disputar os sentidos do indivíduo. Não pela mesma forma do bolsonarismo, negando as lutas “identitárias” ou jogando elas para um canto onde a gente possa ignorá las, mas nos comprometendo de verdade com elas. Pois, afinal, todas e todos queremos ser pessoas boas. E só seremos pessoas boas se tentarmos não fazer violências contra as outras pessoas, os outros seres, com o mundo. Nossa tarefa, portanto, é a coerência, uma das tarefas mais difíceis.
Precisamos ser realmente antirracistas, feministas, solidários. Não apenas no discurso, mas na prática. Só existe conhecimento real sobre o indivíduo se nós nos conhecermos, e só assim conseguiremos disputar os sentidos do que é ser homem, ser mulher, ser negro, branco, hetero, gay, brasileira, cristão. O indivíduo sou eu e é você. Todo conhecimento sobre o mundo sem autoconhecimento é incompleto, e vice-versa. Pois o conhecimento não existe em um plano desligado do corporal, as ideias não caem do céu.
Também precisamos reconectar o espiritual e o político, que não é apenas conversar com pessoas religiosas, mas disputar os significados da espiritualidade, mostrando que o espiritual também são as relações, é coletivo, é relação com algo além do eu, e isso é o contrário da cosmovisão centrada no indivíduo em oposição ao mundo.
A esquerda, ao perceber que a mudança é sempre coletiva e não só individual, não pôde perceber que ignorar o indivíduo é reproduzir a cosmovisão europeia de apagamento do próprio corpo e universalização das ideias. Indivíduo e mundo são inseparáveis. A centralidade na extrema direita da agenda “woke”, da luta contra a “ideologia de gênero”, da “guerra cultural”, está aqui: a manutenção do sistema percebeu o que não percebemos, e capturou o significado do indivíduo que a esquerda esvaziou.
O conhecimento sempre teve corpo. Conhecer o mundo sem se conhecer é estar fadado à hipocrisia e à desconexão entre teoria e prática. Conhecer a si mesmo sem conhecer o mundo é estar fadado à arrogância do desenvolvimento pessoal alienado. Quando nos conhecemos e percebemos em nós o racismo, o machismo, o individualismo que apontamos no outro, conseguimos abandonar o ar professoral que caracterizou parte da esquerda e a isolou do mundo. Conhecer nossas limitações, nossos vacilos, nossos preconceitos, é nos conectar conosco e com o mundo e praticar a humildade, a relação com o outro com interesse real em ouvi-lo e em aprender com ele.
Pois não existe autoconhecimento sem o diálogo com o outro. Existem dimensões de quem eu sou que só consigo perceber no diálogo com outra pessoa. O diálogo sincero, humilde, em que ambas as pessoas se abrem para a possibilidade de estarem erradas, para ouvir realmente uma a outra. E é também por isso que não existe diálogo com fascista: pois existem certezas, como a compreensão de que todas e todos somos complexos e temos igualmente direito à complexidade e à vida boa, que não podemos abrir mão. É este o limite do diálogo: não existe diálogo com quem é conscientemente racista, machista, homofóbico. Conscientemente.
O que nos conforta é que a grande maioria de nós, como eu, como talvez você, é inconscientemente racista, machista, homofóbico, individualista. E queremos ser pessoas boas. Queremos um mundo bom. E nós não somos apenas a cosmovisão hegemônica. Somos a construção constante das relações, diálogos, lutas, de diferentes cosmopercepções históricas, dos povos que vivem aqui há milhares de anos, de outros povos milenares que chegaram aqui sequestrados e imigrando, e somos mais, pois cada indivíduo é único. E isso é tudo que precisamos para dialogarmos umas com os outros, nos conhecermos contínuamente, mudarmos e atuarmos para mudar o mundo para melhor. Isso é tudo que precisamos para acabar com o bolsonarismo, com o racismo, com o patriarcado heteronormativo, com o capitalismo. E construir um mundo em que caibam muitos mundos e em que nós, todas e todos, possamos viver bem.
*Fabio Sorrentino é militante do PT e doutorando na Universidade de Coimbra com pesquisa sobre bolsonarismo e a extrema direita portuguesa.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.
