O que Karl Marx tem a ver com José Mujica? À primeira vista, pouco. Mas os dois são figuras essenciais na Livraria Via Sapiens, na rua da República, 58, na Cidade Baixa, em Porto Alegre. Um como autor, Marx*; outro como personagem de vários livros, Mujica**. Os dois captam leitores ao longo do tempo. Sempre são procurados por quem quer saber sobre eles, o que fizeram, o que pregavam, o que diziam e as razões que os tornaram célebres. Um como ideólogo do comunismo e suas variantes, o outro como o maior democrata de todos os tempos na América Latina.
É por isso mesmo que a Via Sapiens atrai leitores interessados, diz Marcos Abrahão, formado em Biologia, e casado com uma geógrafa, Léa Schneider. “Nossa empresa é familiar. Nos conhecemos na universidade e tínhamos muitas dificuldades para encontrar bibliografia para nossas especialidades. Depois de muito pensar e planejar, criamos uma livraria. Começamos numa pequena garagem aqui em frente ao nosso atual endereço e nos mudamos pouco depois”, conta ele.

A livraria começou em maio de 2000 e completou 26 anos de funcionamento ininterrupto. Até na pandemia “seguiu navegando”, vendendo por encomendas, baixando e levantando a porta. O nome da livraria, para ele, tem um significado especial: via da sabedoria e caminho de amor ao conhecimento. “A galera nova gosta de ler na telinha, mas tem muita gente que segue firme nos livros. Apesar dos prognósticos, os livros não vão morrer”, garante Abrahão. “Estamos aqui para isso.” Em 2008, a Via Sapiens se tornou também editora, principalmente nas áreas biológica, geográfica e sustentável.
A partir daí, desenvolveu um projeto editorial independente, publicando autores com conhecimento profundo e prático, com abordagens coerentes e comprometidas com a vida contemporânea. Ali, a edição de livros é tratada como ofício, e a publicação é adotada como ferramenta para aproximar leitores de mudanças culturais. É uma livraria e editora, segundo Abrahão, de referência em permacultura, agricultura regenerativa, habitação sustentável, saúde integral, economia justa e literatura moderna.

Afinal, o que é permacultura?
A permacultura é um termo muito caro para o livreiro. Abrahão se baseia na obra do australiano David Holmgren, nascido em 1955, designer ambiental, educador ecológico e escritor, conhecido como um dos criadores do conceito de permacultura, ao lado de Bill Mollison (1928-2016), naturalista, conterrâneo dele.
Mas, afinal, o que é permacultura? É muita coisa, na visão de Abrahão. O termo é uma contração de agricultura permanente, um sistema de planejamento para a criação de ambientes humanos sustentáveis e regenerativos. Em vez de lutar contra a natureza, o conceito propõe trabalhar em harmonia com ela, unindo saberes tradicionais e tecnologias modernas para desenhar espaços de alta eficiência e baixo impacto.

Os princípios básicos são três: cuidado com a terra ─ para proteger e regenerar o solo, as florestas, a água e a biodiversidade; cuidado com as pessoas ─ para garantir acesso aos recursos necessários a uma vida digna e saudável; e partilha justa ─ para estabelecer limites ao consumo e compartilhar excedentes de alimento, energia ou conhecimento.
Neste amplo espectro da permacultura, entram a produção agrícola e a gestão da vida em comunidade, a agroecologia e a agricultura sintrópica, com uso da terra sem defensivos, e a bioconstrução, com técnicas de baixo impacto para construir moradias. A captação e o armazenamento de água da chuva, o tratamento ecológico de efluentes e o uso de energias renováveis também são tratados ali, pois são questões fundamentais para a agricultura.
Na Via Sapiens, tem tudo sobre permacultura. “Nosso propósito é refutar o modelo de exaustão do mundo natural, não somente contestando teorias e práticas equivocadas que ainda persistem, mas também promovendo alternativas viáveis e inspiradoras”, afirma Abrahão.

A exploração do ‘material’ da natureza
Para quem quer explorar a natureza, principalmente o ‘material’ gaúcho, a Via Sapiens oferece várias alternativas. Tem guia de cogumelos comestíveis, livro editado ali e que não existia no Brasil, obra sobre mamíferos silvestres do RS, mangues gaúchos, ciclos das águas do Litoral, lagoas, atlas ambiental, enciclopédias de flores e de árvores. Em breve, a editora publicará um livro sobre borboletas e tantas outras coisas impressionantes e raras. “Se tivesse recursos, publicaria uma obra de pesquisa por ano, utilizando estudiosos, fundações e outras associações ou entidades que se dedicam ao mundo natural”, enfatiza o editor.
“Estas obras de interesse específico vendem muito. Tem o público especializado, mas também tem pessoas que se interessam por esses temas por pura curiosidade. Quem vem aqui por isso também acaba olhando e comprando livros gerais sobre humanidades, política, economia, saúde, alimentação, literatura, artes, cultura, livros infantis”, afirma Abrahão. “Temos uma boa base de clientes na Cidade Baixa, das universidades, de vários bairros e até recebemos pedidos de outros estados e do exterior”, destaca.

Concorrência das grandes empresas
Trabalham na livraria/editora duas pessoas – Abrahão e Léa – e, eventualmente, uma terceira, quando há eventos de lançamento. Hoje, o negócio vive momento melhor, mas há alguns anos a situação estava difícil. Livrarias do porte da Cultura, da Saraiva e de outras, com muita amplitude e variedade de temas, incomodaram muito antes de fechar por questões econômicas. “Nós fomos resilientes e seguimos em frente, graças às qualidades e às ofertas de livros raros”, ressalta o livreiro.
Entre esses livros especiais e de difícil localização, ele cita “A tonalidade do pensamento”, do filósofo e ensaísta sul-coreano Byung-Chul Han. A obra aborda temas como música, beleza, esperança e amor. Outro livro de muita profundidade é do jornalista e repórter do New York Times, Max Fisher, chamado “A máquina do caos: como as redes sociais reprogramaram nossa mente e nosso mundo”.

Não dá para esquecer obras sobre educação, como “Inquérito Paulo Freire: a ditadura interroga o educador”, organizado por Joana Salém Vasconcelos. “Temos uma variedade de autores sem precedentes”, garante.
Apesar das facilidades de comprar por aplicativos, que Abrahão chama de “verdadeiros matadouros do negócio livraria”, ele defende a experiência presencial. “Ainda é bom tocar, sair de casa e cheirar os livros. Nosso mercado precisa ser regulado. Os efeitos desta concorrência são terríveis. O que garanto, porém, é que são as livrarias que oferecem retorno, confiança e diálogo com quem lê”, afirma.

Princípios básicos
Conforme Abrahão, a Via Sapiens tem princípios que segue com rigidez e dedicação. A livraria e editora organiza a atuação em torno de quatro compromissos:
Capital intelectual – cultivar relações colaborativas e cordiais com a comunidade de leitores, para compartilhar e desenvolver um corpo de conhecimentos contemporâneos reflexivos e práticos.
Capital social – observar a satisfação dos colaboradores como contribuição e recompensa; e consolidar o compromisso com novos leitores através da interação comunitária local e das plataformas digitais.
Capital financeiro – estruturar o empreendimento para proporcionar economia e retorno equilibrados; além de manter a independência através de uma estratégia de investimento de capital que possa ser financiada internamente.
Capital natural – reduzir a pegada ecológica das publicações; utilizando papel e materiais corretos, plantando o maior número possível de árvores a fim de mitigar nosso impacto, bem como otimizar o consumo de energia relacionado à logística diária de operação, e aos meios de transporte que utilizamos.

*Karl Marx (1818-1883), nascido na Prússia, defendia a superação do capitalismo em prol de uma sociedade sem classes e sem desigualdades, o comunismo. Para ele, o capitalismo é um sistema injusto, pois se baseia na luta de classes entre a burguesia, os donos das fábricas e dos meios de produção, e o proletariado, os trabalhadores. Autor de “O Capital”, conjunto de livros que critica o capitalismo. Uma das frases mais famosas associadas à obra dele é “Proletários de todos os países, uni-vos!”.
**José Alberto “Pepe” Mujica Cordano (1935-2025) foi o 40º presidente do Uruguai. Ex-guerrilheiro dos Tupamaros, Mujica foi torturado e preso por 14 anos durante a ditadura militar dos anos 1970 e 1980. Integrante da Frente Ampla uruguaia, chegou ao Parlamento em 1994, como deputado por Montevidéu, e depois foi senador. Entre 2005 e 2008, foi ministro da Pecuária, Agricultura e Pesca. Eleito presidente em 2009, governou o Uruguai entre 2010 e 2015. A gestão dele foi marcada por políticas progressistas e um estilo de vida austero.
