Havana

Sob asfixia energética dos EUA, Cuba enfrenta novo apagão generalizado

Chanceler Bruno Rodríguez denuncia pressão de Washington na véspera de sessão especial na Assembleia Geral da ONU

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Bloqueio energético dos EUA tem levado Cuba a sucessivos apagões
Bloqueio energético dos EUA tem levado Cuba a sucessivos apagões | Crédito: Adalberto Roque / AFP

A ilha de Cuba enfrentou nesta segunda-feira (6) um novo apagão generalizado após uma desconexão total de seu Sistema Eletroenergético Nacional. O incidente ocorre sob um cenário de extrema escassez de combustível, agravado pelo cerco econômico e pelas sanções impostas pelos Estados Unidos.

Pouco tempo após o colapso, a empresa estatal Unión Eléctrica de Cuba (UNE) informou que os trabalhos de recuperação do sistema foram iniciados, com o restabelecimento de uma das unidades geradoras da usina de Energás Boca de Jaruco.

O episódio, contudo, expõe a grave crise de infraestrutura cubana, onde apagões severos de até 20 horas diárias têm paralisado atividades cotidianas, transportes, hospitais, escolas e o fornecimento de água nos últimos meses. A emergência energética coincide com a preparação de uma importante denúncia na diplomacia internacional.

O ministro das Relações Exteriores de Cuba, Bruno Rodríguez Parrilla, confirmou sua ida a Nova York para uma sessão especial na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). Nas redes sociais, o chanceler confirmou que o bloqueio estadunidense será o tema central do debate e denunciou tentativas de boicote por parte de Washington.

Rodríguez afirmou que “o governo dos EUA tenta impedir que a Assembleia Geral da ONU se pronuncie”, exercendo forte pressão política sobre governos estrangeiros e buscando “coagir a vontade soberana dos Estados-membros”.

O ministro cubano voltou a classificar as sanções unilaterais como um castigo coletivo criminoso contra a população civil da ilha. “Defenderemos nosso direito soberano de viver sem cerco energético, sem asfixia externa, sem coerção, sem ameaças de um banho de sangue, sem um castigo coletivo”, escreveu ele, enfatizando que “Cuba não é uma ameaça; o bloqueio sim”.

A sessão especial na ONU, agendada para esta terça-feira (7), foi formalmente articulada por Havana para expor a intensificação das agressões e do cerco energético imposto pela Casa Branca. O governo cubano classifica as medidas coercitivas unilaterais dos EUA como “um ato de genocídio, uma punição coletiva e uma violação massiva, flagrante e sistemática dos direitos humanos”.

As tensões escalaram ainda mais após declarações do secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, que negou que Washington esteja aplicando um bloqueio energético contra Cuba. Rubio argumentou publicamente que a escassez se deve ao fato de que a Venezuela teria decidido cortar o fornecimento de petróleo gratuito que a ilha costumava “revender”.

Em resposta, o chanceler cubano acusou o secretário de Estado estadunidense de “simplesmente optar por mentir” para acobertar os impactos das sanções na economia da ilha. Rodríguez detalhou que o cerco sufoca o país ao intimidar e ameaçar todos os fornecedores estrangeiros de combustíveis, violando as normas de livre comércio e fazendo com que apenas um navio petroleiro conseguisse atracar em portos cubanos em um intervalo de quatro meses.

Essa asfixia energética é amparada por ordens executivas estadunidenses que ameaçam punir severamente qualquer país ou entidade estrangeira que venda ou forneça petróleo a Cuba. A ofensiva econômica foi duramente criticada por especialistas em direitos humanos das Nações Unidas, que a qualificaram como uma “grave violação do direito internacional” e uma forma extrema de coerção.

O chanceler cubano também alertou para a circulação “opaca” de documentos diplomáticos produzidos por Washington com o objetivo de influenciar votos contra a ilha na Assembleia Geral. Os materiais, que incluem manuais como “É hora de mudar Cuba” e “O regime deve se reformar, não vote com sua propaganda”, tentam associar a ilha ao terrorismo internacional e enfraquecer a votação da resolução contra o bloqueio, aprovada ininterruptamente pela ONU há 33 anos.

Sob as pressões desse “estado de cerco” sem precedentes, o Comitê Central do Partido Comunista de Cuba e a Assembleia Nacional aprovaram recentemente as reformas econômicas mais abrangentes em mais de 60 anos na ilha.

O pacote de 176 medidas inclui a permissão de empresas e bancos privados, descentralização municipal e estímulo ao investimento de cubanos residentes no exterior. Ao justificar as reformas de “desatamento das forças produtivas”, o presidente Miguel Díaz-Canel declarou que “não há soberania com o prato vazio”.

Diante do severo bloqueio de combustíveis fósseis, a transição para energias renováveis tornou-se uma ferramenta de resistência nacional, apoiada por acordos com a China. Pequim financia atualmente a instalação de 92 parques solares em território cubano, com a meta de suprir cerca de metade da demanda diurna de eletricidade da ilha até 2028, reduzindo a vulnerabilidade do país frente às ameaças externas.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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