ataque à soberania

Classificar facções como terroristas não tem ‘objetivo factível’ de resolver problema do crime transnacional, diz analista

Marcia Suárez aponta caráter essencialmente político dos EUA e elogia postura do Itamaraty por fazer contraponto

No audio source provided.
O presidente dos Estados Unidos Donald Trump
Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump | Crédito: Kevin Dietsch/Getty Images via AFP

O Ministério das Relações Exteriores, por meio de um documento produzido pelo Itamaraty, oficializou a avaliação de um risco real de intervenção militar dos Estados Unidos em território brasileiro após a classificação de organizações criminosas como terroristas. A mensagem, assinada pelo chanceler Mauro Vieira, foi uma resposta a um pedido de informações do deputado Evair de Melo (Republicanos-ES) sobre a medida.

O governo Donald Trump enquadrou o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas no dia 5 de junho. Na semana passada, foram anunciadas as primeiras sanções contra pessoas e empresas supostamente envolvidas com o PCC.

Em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, Marcial Suárez, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) e membro do Observatório de Política Externa e da Inserção Internacional (OPEB), avalia que o posicionamento do governo brasileiro é importante. Apesar disso, alerta que o enquadramento feito por Trump com relação às organizações criminosas não é inédito e alimenta um discurso político.

“No caso dos Estados Unidos, especialmente no atual governo Donald Trump, é uma designação que tem uma importância muito mais política de criar a ideia de um inimigo que pode estar em qualquer lugar, que está disperso no mundo inteiro. Logo, qualquer área, qualquer espaço do ambiente internacional é um espaço mais passível de intervenção do que cooperação. Os Estados Unidos, quando promovem esse tipo de agenda, não estão preocupados em cooperar com ninguém, mas estão preocupados em impor uma determinada agenda de segurança sobre determinados espaços que são de interesse”, analisa.

O especialista exemplifica a análise com o 11 de setembro de 2001, episódio inicial da construção narrativa de guerra ao terrorismo usada até hoje.

Para ele, o documento do Itamaraty serve como contraponto a essa narrativa e busca propor um espaço de diálogo. “Nós não estamos vivendo hoje numa ordem ou sob uma ordem internacional dentro daquilo que a gente poderia pensar como normal. É uma ordem internacional absolutamente anormal ou, em alguns casos, excepcional sobre determinados temas”, aponta.

Marcial Suárez destaca que, quando se observa a lista de organizações terroristas do Departamento de Estado dos EUA, há dois grandes grupos: um de natureza islâmica jihadista e outro de facções criminosas. “A maioria das organizações de natureza criminosa é latino-americana. Se vê claramente que há uma dimensão política, há um objetivo político de designar”, explica. “Isso gera um medo, uma instabilidade. Por outro lado, tem que se entender também que é uma dimensão essencialmente política. Não há o objetivo claro ou, pelo menos, factível e real de resolver o problema do crime transnacional ou da presença de atores criminais transnacionais ao longo da América Latina e com penetração no território estadunidense”, resume.

Para ouvir e assistir

O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 12h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

Editado por: Gia Matheus Almeida

|

Newsletter