Após poucas semanas da assinatura do memorando de entendimento entre Estados Unidos e Irã e de um aparente avanço nas negociações para o fim do conflito, o presidente Donald Trump ignorou todo o processo e voltou a atacar o país persa, que nesta semana realiza o velório do líder supremo, aiatolá Ali Khamenei.
O líder estadunidense chegou a declarar o “fim do cessar-fogo” e fazer ameaças de um grande ataque que aconteceria na noite desta quarta-feira (8). O Irã, por sua vez, denunciou “graves violações” ao acordo por parte dos EUA e anunciou uma operação contra alvos militares na Ásia Ocidental.
Para Jana Silverman, professora de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC), Trump repete o mesmo discurso beligerante que adotou, por exemplo, em abril, quando disse que “exterminaria uma civilização”, para tentar passar uma imagem de força que não encontra respaldo na realidade.
“Não existe nada de novo. Desde o início do conflito, ele faz isso. Eu acredito que essa guerra está deixando muito evidente que há formas de fazer uma guerra não convencional contra um país que é o maior poder militar do mundo”, avalia a especialista em alusão ao fato de que o governo persa, ao não ceder, pressiona Trump e se coloca numa posição superior.
Silverman avalia que a postura firme do governo iraniano, tanto nesta resposta mais recente como ao longo de todo o conflito, expressa a estratégia adotada pelo país para conseguir “contestar o poderio militar do império”. “Talvez, caso não haja nenhuma vontade dos dois lados de conduzir um processo de paz mais duradoura, mais sólida, veremos uma guerra longa de baixa intensidade, em que sempre vai pipocar um bombardeio, um fechamento momentâneo do Estreito de Ormuz, assim como aconteceu na Colômbia. E isso é ruim porque não dará segurança jurídica e nem física para empresas que precisam do Estreito livre terem os seus negócios garantidos”, aponta em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato.
Com relação à pressão dos mercados globais por causa do aumento no preço do petróleo, Jana Silverman acredita que esse continua sendo o ponto nevrálgico do conflito. “A gente já sabe que o Trump não se preocupa em fomentar a democracia no Irã, não se importa com as vidas humanas, e isso fica óbvio ao ver o que ele está fazendo em Cuba. O ponto sensível é que tem o preço do petróleo generalizado, ou seja, fazer sentir nos postos de gasolina dos EUA quando as eleições de meio mandato estiverem chegando, daqui a quatro meses. Acho pouco provável o Trump mudar sua política para ajudar aliados. EUA não precisa do petróleo do Golfo, controla o petróleo da Venezuela. Mas, por uma motivação econômica, sim, ele pode mudar de posição”, analisa.
A professora afirma que definiria Trump com duas palavras: unilateralismo e imprevisibilidade. “E ele vai continuar sendo assim e fazendo as coisas para atender unicamente seus interesses”, resume Jana Silverman.
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