FEIRA INTERNACIONAL

‘Nossa vida não é mercadoria’: maior feira de economia solidária da América Latina abre 32ª edição

Feicoop reúne mais de 500 empreendimentos em Santa Maria e reafirma alternativa coletiva frente a emergências climáticas

No audio source provided.
Palco da abertura da 32ª Feicoop com imagem de irmã Lourdes Dill, que acompanhou a cerimônia de Moçambique
Palco da abertura da 32ª Feicoop com imagem de irmã Lourdes Dill, que acompanhou a cerimônia de Moçambique | Crédito: Marcos Corbari

Com um cortejo de tambores e cânticos que ecoavam “Economia, economia, a nossa vida não é mercadoria”, teve início, na tarde de sexta-feira (10), a 32ª Feira Internacional do Cooperativismo e da Economia Solidária (Feicoop). Realizada no parque da Medianeira, em Santa Maria (RS), a feira consolida-se como o maior evento de economia solidária da América Latina e reúne mais de 550 empreendimentos, cerca de 20 caravanas de diferentes estados brasileiros e delegações de países vizinhos. A expectativa é superar 100 mil visitantes ao longo dos três dias de programação.

A abertura foi marcada por um forte tom de celebração da trajetória de resistência e construção coletiva, mas também por cobranças concretas por políticas públicas e pelo reconhecimento do papel da economia solidária na reconstrução do Rio Grande do Sul.

‘Três décadas de luta coletiva’

“A Feicoop é um evento histórico. Há 32 anos, um movimento de resistência e luta acontece aqui, de forma coletiva e autogestionária”, destacou Paola Mattos durante a abertura.

A trajetória da feira é inspirada pelo legado de dom Ivo Lorscheiter, figura central na articulação da iniciativa, e pelo trabalho de irmã Lourdes Dill e das demais Irmãs Filhas do Amor Divino, que durante anos coordenaram o encontro.

A Feicoop nasceu em 1994, com 27 empreendimentos, duas atividades e 4 mil visitantes. Atualmente, reúne uma média de 500 empreendimentos, 34 atividades e mais de 100 mil pessoas por edição.

“Feicoop não é minha só, ela é de todos nós”, entoou o grupo Mojubá durante o cortejo. A frase se repetiu ao longo da cerimônia como síntese do espírito coletivo do evento.

‘A nossa vida não é mercadoria’

O coordenador-geral da Feicoop, José Carlos Peranconi, o Zeca, presidente do Projeto Esperança/Cooesperança, foi o primeiro a subir ao palco e chamou toda a equipe organizadora para mostrar “a cara da Feicoop, como ela é feita, como ela é construída, de mão em mão”.

Zeca definiu o encontro como “muito mais do que uma feira”. Segundo ele, a Feicoop representa “um dos maiores patrimônios sociais, econômicos e culturais do estado” e é um espaço onde produtores, agricultores familiares, artesãos, cooperativas e associações encontram “oportunidade para comercializar seus produtos, compartilhar conhecimentos e fortalecer uma economia mais justa, humana e sustentável”.

“A economia solidária nos ensina que é possível produzir riquezas sem abrir mão da dignidade, da inclusão social e da preservação do meio ambiente”, afirmou.

De Moçambique, irmã Lourdes emociona participantes

Um dos momentos mais aguardados da abertura foi a leitura de uma carta de irmã Lourdes Dill, que acompanhou a cerimônia de Moçambique, na África, onde atua como missionária.

Responsável pela coordenação de 27 edições da Feicoop e de três Fóruns Sociais Mundiais da Economia Solidária, irmã Lourdes enviou uma mensagem carregada de emoção e memória histórica.

A religiosa lembrou que nem mesmo “a pandemia da covid-19, a gripe suína H1N1 e grupos contrários a essa proposta conseguiram derrubá-la”. Segundo ela, as “raízes profundas, ousadas, proféticas e duradouras” da Feicoop seguem firmes.

Irmã Lourdes homenageou três figuras fundamentais para a trajetória da economia solidária: dom Ivo Lorscheiter, descrito como “profeta da esperança”; o professor Paul Singer, “ícone da economia solidária”; e frei Sérgio Görgen, lembrado pelo “vigoroso legado em favor da agroecologia e de todas as lutas da agricultura camponesa”.

A carta foi encerrada com o tradicional provérbio africano repetido pela religiosa ao longo dos anos: “Muita gente pequena, em muitos lugares pequenos, fazendo coisas pequenas, mudando a face da Terra”.

Clima, emergência e política pública

O tema central desta edição, “Construindo Ecologia Integral de Frente às Emergências Climáticas”, ganhou densidade política nas falas que se seguiram.

O prefeito de Santa Maria, Rodrigo Décimo (PSD), ressaltou que a Feicoop “projeta o nome de Santa Maria, movimenta a economia, incentiva o turismo e fortalece quem vive do trabalho” e reafirmou o compromisso do município com a iniciativa.

O vice-reitor da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Thiago Marchesan, afirmou que a instituição estará “sempre de braços dados” com a feira.

“A Feicoop é ciência, é conhecimento, é novas relações de trabalho. Acima de tudo, é um novo mundo, um mundo que pense nas pessoas de forma sustentável”, declarou.

A presidente do Conselho Estadual de Economia Solidária, Maribel Kaufmann, fez uma das falas de maior impacto político. Em tom direto, cobrou dos gestores públicos maior sensibilidade diante da realidade dos empreendimentos solidários, especialmente após as enchentes de maio de 2024, que devastaram o Rio Grande do Sul.

“A gente sabe que está saindo do forno um novo circuito de feiras para a economia solidária e que o Rio Grande do Sul estaria fora neste primeiro momento”, alertou.

Kaufmann contestou o discurso de que o estado já teria superado os impactos da tragédia climática. “A gente passou por tudo o que passou em maio de 2024 e não está legal ainda. Temos visto, em vários momentos, dizerem que o Rio Grande do Sul se superou, que está produzindo mais, que está vendendo mais, mas a realidade dos nossos empreendimentos, em grande maioria, não é essa”, afirmou.

A presidente do conselho defendeu que as políticas públicas garantam transporte de produtos, hospedagem e alimentação, de forma a assegurar “o trabalho digno dos trabalhadores da economia solidária”.

Kaufmann também lembrou que o orçamento da Feicoop gira em torno de R$ 800 mil e criticou a insuficiência do apoio governamental ao evento.

‘É preciso derrotar também a cultura do individualismo’

Em uma das falas mais incisivas da noite, Douglas Filgueiras, representante da Associação do Voluntariado e da Solidariedade (Avesol), afirmou que a importância da feira não se limita à dimensão numérica, mas está na capacidade de reunir pessoas que constroem diariamente “um projeto de sociedade que coloca a vida acima do lucro”.

“O projeto de sociedade que está em disputa tem lado. E não é aquele que tem semeado a discórdia, o medo e o ódio, pois isso nós vivemos recentemente”, declarou.

Filgueiras defendeu que a derrota eleitoral da extrema direita precisa ser acompanhada pela superação de valores individualistas.

“Ter superado, a partir do voto, e derrotado, sim, nas eleições passadas, um projeto de sociedade que quis acabar com a humanidade em todos os sentidos foi importante, mas é preciso ter coragem para avançar. Aqui nós derrotamos o bolsonarismo. Mas é preciso derrotar também a cultura do individualismo. E isso a economia popular solidária tem feito”, afirmou.

A declaração recebeu forte aplauso da plateia e sintetizou o clima político da abertura: a economia solidária como uma forma de resistência não apenas econômica, mas civilizatória.

‘Não se faz um Rio Grande decente sem economia solidária’

A Cáritas Brasileira Regional Rio Grande do Sul, representada por Roseli Pereira Dias, apresentou durante a plenária o “Manifesto por um Rio Grande Decente”.

Construído pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) em diálogo com movimentos sociais, o documento propõe uma reflexão sobre o futuro do estado.

“A gente tem que ajudar o povo do Rio Grande do Sul a pensar que estado quer para o futuro”, afirmou Roseli.

A mensagem central do manifesto foi resumida em uma frase: “Não se faz um Rio Grande decente sem economia solidária”.

Formação, cultura e diversidade

A organização também apresentou os eixos que estruturam a Feicoop. A formação e articulação são desenvolvidas por meio de seminários e rodas de conversa que fortalecem pautas sociais, ambientais e econômicas em âmbito local, nacional e latino-americano.

O eixo de arte, cultura e diversidade reúne uma programação participativa, com música, dança, teatro e diferentes manifestações populares. As atividades seguem ao longo dos três dias de feira.

A noite terminou com a apresentação da canção “Corrente da Vida”, composta em homenagem à trajetória de irmã Lourdes e à luta da economia solidária.

“Preparando na terra a semente / Tendo fé na nobreza do grão / Esperança na luta da gente / É o futuro a brotar dessa união”, diz um trecho da composição.

Feicoop homenageou dois lutadores sociais: frei Sérgio, lembrado em vídeo durante a abertura, e o cantor Zé Martins
Feicoop homenageou dois lutadores sociais: frei Sérgio, lembrado em vídeo durante a abertura, e o cantor Zé Martins | Crédito: João Lüdke/Feicoop

‘Presente, semente’

Ao final da celebração, foi evocada a memória de frei Sérgio Görgen, falecido há cerca de cinco meses.

Um vídeo exibido durante a cerimônia mostrou a presença constante do religioso nos corredores da Feicoop. Frei Sérgio participou de todas as edições da feira e contribuiu com o trabalho de irmã Lourdes por meio dos projetos do Instituto Cultural Padre Josimo.

Também foi homenageado, por meio da exibição de um painel, o músico, compositor e arte-educador Zé Martins, integrante do grupo Unamérica, falecido duas semanas antes da feira.

A Feicoop segue neste sábado (11) e domingo (12), com acesso gratuito. A programação completa está disponível no site do Projeto Esperança/Cooesperança (https://site.esperancacooesperanca.org.br/programacao/).

Editado por: Marcelo Ferreira

|

Newsletter