A palavra “social”, quando associada à gastronomia, carrega uma promessa de virtude. Ela sugere que ali não se cozinha apenas para o prazer individual, mas para o outro, para o coletivo, para a transformação. É justamente nesse ponto, no entanto, que se impõe a dúvida. O que significa, afinal, esse “social”?
Como nos advertiu Foucault[1], não se deve tomar o social como um dado, mas como efeito de tecnologias de poder. O social não é neutro: trata-se de um campo construído para tornar populações visíveis, governáveis e reguláveis. Nesse sentido, a chamada gastronomia social não pode ser compreendida apenas como prática solidária ou pedagógica, mas como dispositivo que produz sujeitos – sujeitos que aprendem não somente a cozinhar, mas a se autogerir, a se responsabilizar e a ocupar, com docilidade, o lugar que lhes é reservado.
Deleuze e Guattari[2] aprofundam essa leitura ao afirmarem que o desejo é sempre social. Comer, cozinhar, partilhar alimentos são fluxos que atravessam corpos, territórios e memórias. O que chamamos de gastronomia social pode, assim, ser entendido como uma máquina desejante conecta restos a novos pratos, precarização a promessas de autonomia, afetos comunitários a circuitos de visibilidade.
Essa potência, contudo, não está fora da captura. O capitalismo se reorganiza continuamente, absorvendo aquilo que aparenta escapar. Práticas que se apresentam como emancipadoras podem ser rapidamente re territorializadas e convertidas em vitrines de inovação, empreendedorismo e protagonismo individual.
É nesse ponto que se faz necessário afirmar, grande parte do que hoje se denomina gastronomia social não emancipa, subordina. Não rompe, ajusta. Produz uma estética da transformação que, na essência, mantém a estrutura intacta. Oficinas, cozinhas comunitárias e projetos de inclusão operam, muitas vezes, como dispositivos de adaptação, mobilizam o desejo, produzem pertencimento, mas resultam em sujeitos que permanecem no mesmo lugar, apenas mais resilientes, mais produtivos e mais ajustados.
Estamos diante de uma disputa. As gastronomias não são meras práticas culinárias, mas tecnologias territoriais em relação mas, também conflito. De um lado, uma gastronomia capturada, que opera como instrumento de gestão da pobreza e da precariedade. De outro, uma gastronomia insurgente, que pode emergir dos territórios como prática de autonomia, memória e reinvenção da vida.
Essa disputa é também estética. A estética dominante não é neutra, ela define o que é valorizado, o que é visível e o que pode circular. Ao impor padrões de apresentação, composição e valor, apaga territórios, invisibiliza saberes locais e subordina formas de existência a uma lógica de mercado. Aquilo que não se encaixa é rotulado como “rústico” ou “exótico”, sendo ao mesmo tempo deslegitimado e domesticado.
Nesse processo, não se perde apenas uma forma, perde-se o mundo que essa forma sustenta.
A universidade, especialmente por meio das práticas extensão universitária[3], frequentemente reproduz essa lógica. Ao se apresentar como espaço de devolução de saber, parte do pressuposto de que detém o conhecimento e que cabe aos territórios recebê-lo. Raramente se inverte o movimento. Pouco se reconhece que são os territórios que produzem saberes, tecnologias e formas de existência capazes de deslocar profundamente a própria universidade.
O desafio crítico, portanto, não é negar a potência dessas práticas. Cozinhar pode ser gesto de criação, memória e resistência. Mas é necessário sustentar a tensão: até onde essas experiências escapam à subordinação? Até onde produzem autonomia real? E até onde apenas alimentam a engrenagem que dizem combater?
Entre a cozinha como laboratório de novas existências e a cozinha como fábrica de corpos dóceis, a tarefa da crítica é diferenciar e fazer emergir as contradições. Não se trata de rejeitar o social, mas de disputá-lo. De compreender que, no interior das práticas chamadas de gastronomia social, está em jogo algo muito maior: a possibilidade – ainda que frágil – de inventar outros mundos.
E isso não se faz com slogans!
Faz-se com rupturas!
[1] FOUCAULT, M. Microfísica do Poder. Organização, introdução e revisão técnica de Roberto Machado. 9a. ed. Rio de Janeiro, São Paulo: Paz e Terra, [1979] 2019.
[2] DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. O Anti-Édipo: capitalismo e esquizofrenia. São Paulo: Editora 34, 2010.
[3] FORPROEX. Diretrizes da Extensão Universitária. [S. l.]: FORPROEX, 2012.
* Cláudia Pinto é professora no Departamento de Gastronomia da UFRJ – Doutora em Educação em Ciências da Saúde – UFRJ; Gerson Antonio Barbosa Borges é pesquisador, militante do Movimento dos Pequenos Agricultores e Doutor em Geografia pela UNESP – Presidente Prudente.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.
