Em meio a denúncias de negligência hospitalar, o Distrito Federal registrou seis mortes na rede pública de saúde em menos de um mês. Os casos ocorreram em diferentes unidades do Sistema Único de Saúde (SUS) administradas pelo Governo do Distrito Federal (GDF), e são alvo de investigações administrativas e policiais.
Dois casos foram registrados no Hospital Regional de Samambaia em menos de uma semana. O primeiro foi de Maria Aparecida Galdino dos Santos, de 25 anos, na última segunda (13). Ela teria pedido uma cesárea, mas os profissionais realizaram parto normal. Segundo a família, a equipe médica teria esquecido a placenta na gestante. A retirada do órgão, horas depois, teria resultado na hemorragia que levou à morte da jovem.
Quatro dias depois, Maria Graciana Andrade Alves, de 36 anos, também faleceu durante o parto em um contexto parecido. Segundo a família, os médicos optaram pelo parto normal mesmo a paciente tendo informado que não tinha condições de passar pelo procedimento. A equipe só realizou a cesariana após a bebê apresentar sinais de sofrimento.
No início do mês, uma extubação acidental teria provocado a morte de uma bebê de 5 meses durante a transferência do Hospital Regional de Planaltina (HRP) para o Hospital da Criança de Brasília José Alencar (HCB). A Secretaria de Saúde lamentou o caso e informou que “as circunstâncias relacionadas ao desfecho estão sendo apuradas”.
Longas esperas
O primeiro caso que deu início à sequência de óbitos foi o de Vilmar Pereira da Silva, 49, na recepção da Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) do Recanto das Emas em 20 de junho, enquanto aguardava atendimento. Vilmar faleceu após permanecer no local por pelo menos quatro horas, segundo testemunhas. A Polícia Civil do DF (PCDF) apura possível omissão de socorro no caso.
Em nota, o Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do Distrito Federal (IgesDF), responsável pela administração da UPA, informou que a apuração permanece em andamento. A unidade afirma que implementou “medidas de aprimoramento dos fluxos assistenciais voltadas ao fortalecimento do acolhimento, da identificação precoce de situações de vulnerabilidade e da segurança do paciente.”
No Plano Piloto, Rodrigo Resende Prado, de 46 anos, morreu na calçada da porta do Hospital de Base, no último domingo (12). O homem chegou à unidade com intensa falta de ar, no entanto, o atendimento não foi imediato. Segundo familiares, a equipe só prestou socorro após ele perder a consciência.
Em nota, o Iges-DF, afirmou que instaurou procedimento para apurar as circunstâncias relacionadas ao óbito.
Sobrecarga e déficit de profissionais
Ao Brasil de Fato DF, o Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal (CRM-DF) afirmou que recebe, semanalmente, relatos de superlotação crônica das instalações e grave déficit de profissionais para o atendimento da demanda.
O conselho defendeu que a melhoria do atendimento nas emergências depende do fortalecimento da força de trabalho nas unidades de saúde. “Para mitigar os riscos assistenciais e aprimorar o atendimento nas emergências, o CRM-DF avalia como indispensável a recomposição estruturada e definitiva da força de trabalho nas unidades de saúde”, afirma o órgão.
“Medidas como contratações temporárias apresentam caráter estritamente paliativo, pois não estabelecem um vínculo profissional sólido e frequentemente oferecem condições contratuais instáveis. A solução sustentável e segura para a saúde pública exige a reestruturação das carreiras médicas, a revisão das tabelas remuneratórias e a realização de concursos públicos regulares”, completa.
Ainda segundo o órgão, as equipes de plantão nas UPAs do DF estão sobrecarregadas devido à saturação da rede hospitalar. “As UPAs deixaram de atuar exclusivamente no suporte de urgência e emergência rápida e passaram a reter e internar pacientes por longos períodos”, argumenta.
Insatisfação
Pesquisa do Observatório de Políticas Públicas do Distrito Federal (ObservaDF) realizada em abril de 2025 com mil entrevistados nas 29 regiões administrativas revela que a saúde é apontada como o principal problema do DF por cerca de metade dos moradores.
Entre as principais críticas da população estão o mau atendimento, apontado por 26% dos entrevistados, as filas nos prontos-socorros (14%) e a falta de médicos (12,8%). Também foram mencionadas a demora para tratamento (9,6%), a má gestão do sistema (5,3%) e a falta de medicamentos (3,7%).
Nas UPAs, o principal problema relatado pelos usuários é o tempo de espera. Segundo a pesquisa, 67% avaliaram negativamente esse aspecto do atendimento. Já nos hospitais públicos, predominam avaliações negativas relacionadas às filas para atendimento nas emergências, consultas ambulatoriais e cirurgias. O estudo conclui que os hospitais públicos apresentam os piores índices de avaliação entre os equipamentos de saúde analisados.
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