Na Paraíba

Primeiro curso do Pronera qualifica assentados e quilombolas para transição energética fora da lógica do capital

Curso superior capacita trabalhadores a formularem alternativas de energia consorciada com a produção de alimentos

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Turma do Curso Superior de Tecnologia em Energias Renováveis, Pronera, na Instituto Federal da Paraíba, em Esperança.
Turma do Curso Superior de Tecnologia em Energias Renováveis, Pronera, no Instituto Federal da Paraíba, em Esperança. | Crédito: Carla Batista/MST

Procurar caminhos para uma transição energética justa e diferente da lógica do capital. Esse é um dos objetivos do Curso Superior de Tecnologia em Energias Renováveis, realizado pelo Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera), na Paraíba, e que começa seu segundo ciclo no dia 27 de julho.

Trata-se da primeira iniciativa de formação técnica com foco em energias renováveis e na reforma agrária para assentados, trabalhadores sem terra, quilombolas e pequenos agricultores.

“A gente tem capacidade no Brasil, sim, de produzir energia descentralizada, energia que beneficie os próprios territórios e que retorne a consorciar a produção da vida humana, a produção de alimentos saudáveis, o desenvolvimento da natureza. A gente não precisa desmatar para fazer a instalação de placas. A gente não precisa expulsar as pessoas do território para fazer instalação de torres eólicas”, afirma a articuladora político-pedagógica do curso e integrante da Direção Estadual do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) da Paraíba, Larissa Padilha de Brito.

Os cerca de 50 estudantes começaram em março deste ano o curso, que é baseado na alternância entre o tempo escola e o tempo comunidade. No primeiro, eles ficam imersos por cerca de 35 dias no Centro de Formação Elizabeth e João Pedro Teixeira, com aulas também no campus Esperança, do Instituto Federal da Paraíba (IFPB), como as de laboratório, por exemplo.

Seminários integradores misturam aspectos técnicos e políticos em mesas de conversas e encontros. No primeiro semestre, os debates se focaram na transição energética e na justiça climática. No período que vai se iniciar, um dos temas será o Plano Nacional de Transição Energética, discutindo, por exemplo, aspectos normativos das energias renováveis.

Depois dos 35 dias de imersão, chega o tempo da comunidade, quando o que foi discutido e aprendido volta para o território, seja de forma prática, com a possibilidade de instalação de equipamentos, ou teórica, com pesquisas e análises in loco.

Essa primeira turma tem educandos de nove estados brasileiros, do Rio Grande do Sul ao Piauí, com maior participação dos paraibanos. A grande maioria deles se envolveu com a transição energética por serem violentados pelos grandes empreendimentos. É o caso dos participantes do Ceará, Paraíba ou Rio Grande do Norte, que estão imersos em conflitos como o apresentado no documentário “Donos do Vento”, sobre o Quilombo do Cumbe, no litoral cearense, impactado por um parque eólico na região.

Debate durante a imersão do Curso Superior de Tecnologia em Energias Renováveis, no Instituto Federal da Paraíba, em Esperança.
Debate durante a imersão do Curso Superior de Tecnologia em Energias Renováveis, no Instituto Federal da Paraíba, em Esperança. | Crédito: MST/PB

A discussão sobre essas questões, no entanto, não inviabiliza a adoção das tecnologias, mas pensa em um caminho diferente. “A gente acredita, sim, na transição energética, mas ela tem que ser diferente da lógica que o capital impõe, que é grandes empreendimentos, unidades centralizadas de produção de energia pelos donos exclusivos dessas companhias, inclusive com a ‘estrangeirização’ da terra”, aponta Brito.

Atualmente, as empresas estrangeiras detêm 68,9% dos parques eólicos da região Nordeste. Outros 30% são de capital misto, com investimentos nacional e internacional. A França lidera como país que mais possui parques eólicos na região, com 156 parques, segundo levantamento da pesquisadora Monalisa Lustosa, da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp).

E é nesse território de pressão do capital que se instalou o curso. O município de Esperança, onde fica o campus, está na região que reúne o Polo de Borborema, um movimento de milhares de agricultoras, lideranças comunitárias e organizações populares do Semiárido que realiza anualmente a Marcha pela Vida das Mulheres e pela Agroecologia.

“Há o histórico da marcha da Borborema, mas há outras mobilizações: todos para evitar as usinas de energia eólica nos territórios. São regiões na Paraíba, que têm uma grande produção da agricultura familiar, que produz sem veneno, que está em transição agroecológica, que sustenta a sua família a partir do trabalho com a terra”, detalha a integrante do MST.

Há cinco anos, essas mulheres, ao discutir as falsas soluções para o clima, apontaram a necessidade de aprofundar e de qualificar tecnicamente a transição energética, o que originou o projeto. Com o curso avançando, é possível esperar coisas boas para os próximos cinco anos. “O nosso sonho é que eles tenham a experiência de empreendimentos de energia consorciada com a produção de alimentos, que é um pouco o que a gente tem construído e acreditado. A gente acredita que a gente pode iniciar com esses 50. Humildemente, acreditamos que pode ser uma iniciativa muito importante para que a gente avance”, conclui a coordenadora do curso.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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