Memórias do terror

Experiências de memória das ditaduras na América Latina apontam caminhos para memorial do DOI-Codi

Pesquisa comparou antigos centros de repressão na América Latina e oferece referências para a criação do espaço em SP

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Registro do DOI-Codi, em São Paulo, no período de regime militar no Brasil
Registro do DOI-Codi, em São Paulo, no período de regime militar no Brasil | Crédito: Divulgação/Memorial DOI-Codi

A experiência de antigos centros de repressão transformados em espaços de memória na América Latina pode servir de referência para o futuro do DOI-Codi de São Paulo (SP). Uma pesquisa coordenada pela historiadora Mariana Joffily, da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), analisou memoriais instalados em cinco países e aponta elementos que podem orientar a criação de um memorial permanente no complexo da Vila Mariana, na zona sul da capital paulista, onde funcionou o principal centro de tortura da cidade.

O estudo “Situando o DOI-Codi na contrainsurgência latino-americana”, desenvolvido por pesquisadores da Udesc em parceria com universidades brasileiras e estrangeiras, mapeou o funcionamento de sete memoriais instalados em antigos centros de repressão no Chile, Argentina, Uruguai, Paraguai e México. Os resultados serão incorporados à plataforma Memory AL.

As experiências pesquisadas indicam que a preservação dos edifícios onde ocorreram violações de direitos humanos é um dos principais elementos que diferenciam esses memoriais de outros espaços museológicos. Segundo Joffily, a materialidade dos antigos centros de repressão mantém uma relação direta com os acontecimentos históricos e com os testemunhos de sobreviventes.

“Por terem sido lugares de tortura e morte, esses espaços possuem, potencialmente, um caráter probatório. É completamente diferente de um lugar escolhido de maneira aleatória para ser um museu: o local em si é o que carrega a força do testemunho”, explica Mariana Joffily.

A historiadora, que realizou a pesquisa como parte do estágio de pós-doutorado no México, destaca que não existe um único modelo para apresentar a violência de Estado nesses locais. Entre os memoriais visitados pela equipe, foi constatado que há diferentes formas de abordar a tortura e as violações de direitos humanos, desde exposições com recursos artísticos até propostas baseadas em relatos de sobreviventes e informações documentais.

“Há diferentes modos de fazer isso”, afirma Joffily, ao comentar os desafios de representar a tortura em exposições. Para ela, cada espaço precisa construir uma narrativa considerando sua própria história, seus acervos e a relação com as vítimas e a sociedade.

A pesquisa também mostra que esses espaços permanecem sujeitos às disputas políticas em torno da memória das ditaduras. Segundo os pesquisadores, governos de extrema direita na Argentina e no Chile reduziram recursos destinados aos memoriais, comprometendo equipes e atividades.

“Esses dois países têm enfrentado grandes dificuldades em virtude dos governos de extrema direita que assumiram e que têm propiciado um desfinanciamento desses espaços”, alerta historiadora Deborah Neves, coordenadora do Grupo de Trabalho (GT) Memorial DOI-Codi.

Eles estão esvaziando, não fechando completamente, mas demitindo funcionários, inviabilizando e sufocando financeiramente a ponto de as pessoas que trabalham precisarem ser demitidas porque não têm como pagar salários, e tornando os acessos cada vez mais difíceis”, afirma.

Os espaços analisados pela pesquisa apresentam diferentes níveis de consolidação. Um dos locais visitados pela equipe foi o Circular de Morelia 8, na Cidade do México, antigo prédio da Divisão Federal de Segurança, órgão de inteligência mexicano que funcionou como centro de vigilância, detenção e tortura durante a década de 1970. Hoje, o subsolo do edifício abriga um espaço de memória com relatos de sobreviventes nas paredes.

Outros lugares, como El Pozo, em Rosário (Argentina), e Irán 3037, em Santiago (Chile), promovem atividades esporádicas, enquanto o memorial ex-Sid, em Montevidéu (Uruguai), mantém visitas mediadas regulares, acervo audiovisual com relatos de sobreviventes e exposições sobre a repressão.

No caso brasileiro, essa discussão se concentra no complexo da Rua Tutóia, na Vila Mariana, zona sul de São Paulo, onde funcionou o Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi/SP) entre 1969 e 1983. O local foi o maior centro clandestino de repressão, tortura e morte da ditadura militar em São Paulo.

Mais de dez anos se passaram desde que o conjunto de prédios foi tombado como patrimônio histórico pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo (Condephaat), em 2014, e pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Compresp), em 2017. Apesar disso, o espaço permanece sob a tutela da Secretaria de Segurança Pública.

Quem caminha por ali hoje encontra um complexo de quatro edifícios cinzentos, onde o cotidiano da segurança pública transcorre sob o barulho de sirenes, escondendo uma história que o Estado, por décadas, tentou silenciar.

A criação de um memorial no DOI-Codi é defendida por uma rede de historiadores, arqueólogos e pesquisadores de direitos humanos, que atua em duas frentes: o estudo das experiências internacionais de memorialização e a articulação política para que o governo de São Paulo transfira o imóvel para a Secretaria de Cultura.

Ao comparar o caso brasileiro com experiências na Argentina, Chile e Uruguai, Joffily reforça que o prédio é um “vetor de memória” para os sobreviventes. “É completamente diferente de um lugar escolhido de maneira aleatória para ser um museu. O local em si é o que carrega a força do testemunho”, afirma.

Impasse político

Embora o prédio físico permaneça fechado ao público, o trabalho de preservação da memória no local segue em andamento. Desde 2017, o Grupo de Trabalho Memorial DOI-Codi realiza visitas mediadas, pesquisas científicas e investigações arqueológicas no espaço.

Em 2024, o esforço foi reconhecido pelo Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) como um “ponto de memória”, categoria que reconhece iniciativas de museologia social desenvolvidas por comunidades e grupos envolvidos com preservação histórica.

“De um modo geral, a gente costuma dizer que as práticas do memorial do DOI-Codi enquanto museu já existem”, explica Deborah Neves. Segundo a historiadora, o reconhecimento do Ibram confirma a importância das ações realizadas pelo grupo, mas ainda falta a implementação física do memorial no prédio da Rua Tutóia.

“O que nós precisamos agora é que o governo do estado assuma a responsabilidade pela implementação física do memorial naquele espaço”, afirma.

A transferência do imóvel, porém, depende de uma articulação entre diferentes órgãos estaduais. Durante audiência pública realizada em 10 de junho de 2026 na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp), o delegado-geral adjunto da Polícia Civil, Gilson Cézar da Silveira, afirmou que a corporação está disposta a desocupar a área assim que o projeto do memorial for formalizado.

Segundo Deborah Neves, o principal entrave está na Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, que não teria interesse em assumir a gestão do espaço. A pasta argumenta que a capital paulista já possui um equipamento dedicado à memória da ditadura: o Memorial da Resistência, instalado na antiga sede do Departamento Estadual de Ordem Política e Social (Dops), no centro da cidade.

Para a historiadora, os dois espaços possuem funções distintas. “Nós insistimos que o Memorial da Resistência é extremamente importante, pioneiro no Brasil, mas ele é insuficiente para contar essa história da forma como ela precisa ser contada”, afirma.

Segundo Deborah, o antigo DOI-Codi possui características específicas que justificam a criação de um memorial próprio. “Temos no prédio do antigo DOI-Codi inscrições nas paredes, a preservação do espaço de uma forma bastante similar àquela de quando funcionava, e evidências materiais de crimes cometidos lá, identificados pelas equipes de arqueologia”, destaca.

Deborah Neves destaca ainda a responsabilidade histórica do governo estadual na manutenção do aparato repressivo. “Foi a Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo, em consórcio com o Exército, que patrocinou a existência do DOI-Codi e a sua instalação ali. Ele nasce como Operação Bandeirante (Oban) e depois essa experiência é oficializada”, afirma.

A Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo foi questionada pelo Brasil de Fato sobre a destinação do prédio do DOI-Codi, a criação do memorial, a articulação com outras pastas para viabilizar a transferência do imóvel, o planejamento orçamentário para restauro e a avaliação sobre a insuficiência do Memorial da Resistência diante das especificidades do local.

Em resposta, a pasta afirmou que “o Estado de São Paulo já possui um equipamento público voltado ao registro histórico e à preservação da memória do período militar brasileiro: o Memorial da Resistência de São Paulo”. Segundo a secretaria, o museu, criado em 2009, realiza pesquisas, exposições e atividades educativas gratuitas sobre o período.

Arqueologia pública

Além da preservação do edifício, as pesquisas arqueológicas realizadas no DOI-Codi revelaram vestígios materiais do funcionamento do centro de repressão. O trabalho é considerado pelos pesquisadores uma ferramenta para reconstruir a dinâmica da violência praticada pelo Estado durante a ditadura.

Atualmente, parte do acervo arqueológico encontrado no local está sob guarda do Laboratório de Arqueologia Pública da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Para integrantes do GT Memorial DOI-Codi, a permanência das peças fora do prédio de origem dificulta a construção de uma narrativa integrada sobre aquele espaço.

“É como se eles estivessem presos naquele laboratório, fora do lugar onde pertencem”, afirma Deborah Neves. “Eles pertencem àquele espaço e precisam estar de volta, trabalhados de maneira crítica, com critérios científicos e trazendo a ciência para que as pessoas conheçam aspectos do cotidiano de funcionamento daquele local.”

A pesquisa arqueológica também contribuiu para novas análises sobre crimes cometidos no DOI-Codi. Um estudo desenvolvido pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) cruzou laudos oficiais, fotografias de época e características físicas do prédio para identificar que o tenente reformado da Polícia Militar José Ferreira de Almeida e o jornalista Vladimir Herzog foram assassinados na mesma cela do complexo.

A análise encontrou elementos estruturais semelhantes nas imagens das duas vítimas, como a disposição dos tacos de madeira do piso, a presença de uma porta metálica seguida de uma porta de madeira e a altura da janela em relação ao chão. Os pesquisadores apontam que as evidências ajudam a contestar as versões oficiais de “suicídio” apresentadas pelo regime militar.

“Clandestinidade legalizada”

A estrutura do DOI-Codi funcionava a partir de uma combinação entre mecanismos oficiais do Estado e práticas clandestinas de repressão. Enquanto documentos administrativos, inquéritos e registros formais davam aparência de legalidade às detenções, dentro do complexo operava uma estrutura de sequestros, torturas e execuções.

Historiadores e juristas definem esse funcionamento como uma “clandestinidade legalizada”: uma engrenagem repressiva que utilizava instrumentos institucionais para encobrir crimes praticados contra opositores da ditadura militar.

Estima-se que mais de 7 mil pessoas tenham sido presas e torturadas no DOI-Codi de São Paulo. Entre os sobreviventes está Ivan Seixas, detido aos 16 anos junto com o pai, Joaquim Alencar de Seixas, militante da resistência à ditadura.

Ivan foi levado ao centro de repressão em 1971. Enquanto ele sobreviveu, Joaquim foi torturado e morto nas dependências do DOI-Codi. Durante décadas, a versão oficial divulgada pelo Estado indicou que a morte teria ocorrido em um confronto policial. Apenas em 2015, após uma longa disputa judicial, a família conseguiu a retificação da certidão de óbito, reconhecendo a tortura como causa da morte.

Outra história associada ao funcionamento do DOI-Codi é a de Denise Peres Crispim, presa pela Operação Bandeirante (Oban) em julho de 1970, aos 20 anos, quando estava grávida de seu companheiro Eduardo Leite, conhecido como Bacuri, militante da Ação Libertadora Nacional (ALN).

Segundo depoimento publicado pelo Memorial DOI-Codi, Denise foi submetida a agressões físicas e psicológicas durante a prisão e mantida sob vigilância enquanto estava grávida. Após o nascimento da filha, permaneceu sob controle das forças repressivas e obrigada a se apresentar ao tribunal a cada 15 dias.

Bacuri foi preso em 1970 e permaneceu 109 dias sob tortura antes de ser assassinado pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury. A versão oficial divulgada à época afirmava que ele havia morrido em um confronto durante uma tentativa de fuga.

Em 2025, a Corte Interamericana de Direitos Humanos condenou o Estado brasileiro pela ausência de investigação e punição dos responsáveis pela tortura de Denise Crispim e pela execução de Bacuri.

Denise Crispim em depoimento à Corte Interamericana de Direitos Humanos
Denise Crispim em depoimento à Corte Interamericana de Direitos Humanos | Crédito: Divulgação/Corte IDH

Plano museológico coletivo

Enquanto aguarda a transferência do imóvel para a criação do memorial, o GT Memorial DOI-Codi desenvolve uma proposta de funcionamento para o futuro espaço. Em fevereiro de 2024, em parceria com o Centro de Pesquisa e Formação do Sesc, o grupo realizou um workshop aberto para discutir as diretrizes do plano museológico.

O debate reuniu pesquisadores, sobreviventes, familiares de vítimas e interessados na preservação da memória da ditadura. Entre os temas discutidos estavam as diretrizes gerais do espaço, a organização dos acervos, as ações educativas, a expografia e a relação entre arquitetura e memória.

“O que nós estamos fazendo é bastante revolucionário, bastante inovador, porque nós estamos discutindo um plano museológico primeiro, antes do museu existir”, afirma Deborah Neves. “E segundo, coletivamente, conjuntamente com a comunidade.”

A construção do projeto também envolve discussões sobre como representar a tortura e a violência de Estado sem transformar o sofrimento das vítimas em espetáculo. Segundo Deborah, o debate ainda está em aberto entre os participantes.

“Existe aí um debate interessante, importante, que precisa ser aprofundado, sem nenhuma dúvida, que é sobre como a gente conta sobre a tortura”, explica. “Uma parte dos participantes do workshop entende que não deve haver uma representação literal da tortura. Mas uma parte de sobreviventes e ex-presos entende que precisa, sim, tratar sobre a tortura, inclusive com representações gráficas de como elas aconteciam.”

Atualmente, parte do acervo e das pesquisas do memorial está disponível na plataforma virtual mantida pelo grupo. A iniciativa reúne documentos, relatos e informações sobre o funcionamento do DOI-Codi, mas ainda depende, em grande parte, de trabalho voluntário e de apoio institucional.

Página inicial da plataforma virtual do memorial
Página inicial da plataforma virtual do memorial | Crédito: Reprodução/Memorial DOI-Codi

Pedagogia da memória

Além da criação do espaço físico, pesquisadores envolvidos com o Memorial DOI-Codi defendem que o futuro equipamento tenha uma função educativa voltada principalmente às novas gerações.

Como resultado da pesquisa internacional desenvolvida com a Udesc, a rede de pesquisadores elaborou propostas pedagógicas para trabalhar a memória da ditadura e os direitos humanos com estudantes do ensino fundamental e médio.

Para Pablo Pamplona, vice-coordenador da Rede Brasileira de Pesquisadores de Sítios de Memória (Rebrapesc), a dificuldade do Brasil em lidar com o passado autoritário não está na ausência de memória, mas na falta de políticas para preservá-la e transmiti-la.

“A gente não lembra de acordo com aquilo que a gente tem capacidade cognitiva para lembrar. A gente lembra aquilo que a gente tem recurso para lembrar”, disse Pamplona durante manifestação na Alesp, em junho. “A gente precisa de espaços, de lugares de memória. O brasileiro tem memória oprimida, sistematicamente apagada e violentada”, afirmou o pesquisador.

Editado por: Geisa Marques

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