O campus Centro da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) recebe, de segunda-feira (20) a esta quarta-feira (22), duas feiras que aproximam a produção da agricultura familiar e dos povos originários do público urbano de Porto Alegre. Montadas no Espaço das Tendas, em frente à Faculdade de Educação, as atividades têm entrada gratuita e funcionam durante todo o dia, reunindo cooperativas, agroindústrias familiares e artesãos indígenas de diferentes regiões do estado.
As feiras integram a programação do 16º Congresso Mundial de Sociologia Rural e do 64º Congresso da Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural, que acontecem na universidade entre os dias 19 e 23 de julho e reúnem mais de 1,5 mil pesquisadores de 42 países para debater os desafios dos sistemas agroalimentares e do desenvolvimento rural.
Produção que atravessa territórios
A Feira da Agricultura Familiar é organizada pela Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar do Rio Grande do Sul (Fetraf-RS), com apoio da Secretaria de Desenvolvimento Rural do RS (SDR-RS). No espaço, o público encontra pães, cucas e bolachas, queijos, salames e copa, mel, geleias, doces e conservas, sucos, vinhos, cachaças e outras bebidas artesanais, além de erva-mate, cuias e artesanato ligado à sociobiodiversidade.
Segundo o material de divulgação da feira, cada produto exposto representa o trabalho de famílias agricultoras, cooperativas e agroindústrias familiares comprometidas com a produção sustentável e com a valorização dos territórios de origem. A agricultura familiar é responsável por parcela significativa dos alimentos consumidos no Brasil, gerando trabalho e renda, fortalecendo economias locais e contribuindo para a preservação da biodiversidade nas regiões onde atua, conforme aponta a mesma organização.
A Fetraf-RS realiza feiras semelhantes ao longo de todo o ano em diferentes municípios gaúchos, como parte de uma estratégia de comercialização direta que aproxima produtores e consumidores. A entidade defende que esses espaços ampliam a visibilidade da produção local e fortalecem a conexão entre o campo e a cidade.
Saberes originários em exposição
Ao lado da feira de produtos da agricultura familiar, o Espaço das Tendas também abriga a Feira de Artesanato dos Povos Originários do Rio Grande do Sul, promovida pelas comunidades Kaingang e Mbyá-Guarani, com apoio da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai). A mostra reúne biojoias, como brincos, colares e pulseiras, peças de cestaria ancestral trançadas em vime, cipó e taquara e esculturas em madeira que representam a fauna nativa da região.
De acordo com a organização da feira, a proposta é oferecer ao público uma conexão direta com a sociobiodiversidade e com a resistência indígena, permitindo o diálogo com lideranças das duas etnias e o contato com saberes tradicionais transmitidos entre gerações. A comercialização das peças é apontada pelas comunidades como forma de apoiar diretamente a autonomia econômica dos grupos indígenas participantes.
Um congresso mundial sobre alimentação e clima
As feiras ocorrem no contexto de um evento acadêmico de grande porte. O congresso que reúne a Associação Internacional de Sociologia Rural (Irsa) e a Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural (Sober) tem como tema “Políticas para a Natureza, Alimentação e Nutrição em tempos de incerteza e mudanças climáticas” e aborda questões como segurança alimentar, conservação da biodiversidade, desigualdades sociais e governança dos sistemas alimentares.
Para o coordenador-geral do congresso, Paulo Niederle, professor do Departamento de Sociologia da UFRGS, sediar o evento fortalece a internacionalização da pesquisa e da pós-graduação da universidade, amplia oportunidades de cooperação científica e reafirma o papel da instituição na produção de conhecimento sobre desafios globais relacionados à alimentação, às mudanças climáticas e ao desenvolvimento sustentável, segundo declaração da própria UFRGS.
A programação científica reúne pesquisadoras e pesquisadores de diferentes países, entre eles Jennifer Clapp, da University of Waterloo, no Canadá, especialista em governança dos sistemas alimentares, e Madelaine Fairbairn, da University of California, em Santa Cruz, nos Estados Unidos, referência em estudos sobre financeirização da agricultura. O evento inclui ainda conferências, painéis internacionais, grupos de trabalho, minicursos e visitas técnicas até o dia 23 de julho.
Porto Alegre como palco do debate
A escolha de Porto Alegre como sede do congresso é associada pela organização do evento ao contexto recente vivido pela cidade. Após enfrentar uma das maiores tragédias climáticas da história, com as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul, a capital gaúcha passou a ser vista como espaço para discutir estratégias de adaptação às mudanças climáticas, reconstrução de territórios e fortalecimento de sistemas alimentares mais resilientes, conforme descreve a UFRGS em material sobre o congresso.
A universidade também destaca a tradição em pesquisas nas áreas de sociologia, economia e administração rural, somada a grupos de pesquisa em saúde coletiva, nutrição, agronomia e políticas públicas, como fatores que embasaram a candidatura da instituição para sediar o encontro internacional.
Devido à montagem das estruturas das feiras no estacionamento em frente à Faculdade de Educação, a UFRGS informou a redução do número de vagas disponíveis no Quarteirão 2 do campus Centro entre os dias 19 e 23 de julho.
