Áfria Ocidental

Grupos armados ameaçam governos do Sahel e estabilidade regional; entenda

Ataques no final de semana com ao menos 50 soldados mortos no Mali podem indicar parceria inédita entre FLA e JNIM

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Assimi Goita, líder da junta militar que governa o Mali desde 2021.
Assimi Goita, líder da junta militar que governa o Mali desde 2021. | Crédito: Pavel Bednyakov / Pool / AFP

Grupos armados do Mali têm ampliado meios de coordenação e ameaçado a estabilidade no país. No último sábado (18), uma emboscada matou pelo menos 50 soldados malianos perto da cidade de Anefis, no norte do país, e atingiu um comboio conjunto das Forças Armadas do Mali (FAMa) e do Afrika Korps da Rússia.

As forças do Mali chegaram a dizer que lançaram contra-operações, mas a retaliação foi infrutífera. O Afrika Korps, por sua vez, divulgou imagens que indicariam um ataque a drones contra combatentes.

Pelo menos desde abril, várias operações coordenadas no norte do Mali têm colocado em xeque a estabilidade regional, trazendo novas nuances para a costumeiramente tensa situação da segurança no Sahel.

Quem é quem

Há dois anos, em julho de 2024, Mali, Níger e Burkina Faso anunciaram a formação de uma “confederação”. O objetivo era fortalecer a aliança entre esses países da África Ocidental. O trio, cuja população somada supera os 70 milhões de habitantes, está localizado na região do Sahel, uma faixa ao sul do deserto do Saara.

Para fortalecer a segurança, porém, é necessário criar alianças estratégicas com outros países. Neste ponto, o papel da Rússia é central: há tempos, Moscou acusa a Ucrânia de apoiar grupos terroristas na região, visando desestabilizar a situação política na África. Ainda em 2024, Níger e Mali romperam relações diplomáticas com Kiev, motivados pelo suposto apoio aos rebeldes tuaregues. A Ucrânia sustenta que as alegações não têm fundamento.

Para que possa atuar como fiadora da segurança na região, a Rússia lança mão de uma força paramilitar conhecida como Afrika Korps. A organização paramilitar surgiu após o desmantelamento do Grupo Wagner, ocorrido com o polêmico motim promovido por Yevgeny Prigozhin, em junho de 2023.

Em meio à rede de interesses geopolíticos, Moscou e os países da Aliança dos Estados do Sahel (ASS, na sigla em inglês) firmaram um acordo para estabelecer parcerias estratégicas. O acerto envolve reuniões permanentes e o fornecimento de armas e equipamentos avançados, além do treinamento especial aos militares do Sahel.

Os significados dos ataques recentes

Dois atores importantes reivindicaram os ataques deste mês: a Frente de Libertação de Azawad (FLA), que reúne grupos separatistas tuaregues, e a Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM), que atua como braço da Al-Qaeda no Sahel.

O ataque aponta para uma união entre os dois agrupamentos. A FLA, historicamente, tem uma postura mais voltada ao estímulo à independência do norte de Mali. A JNIM, formada em 2017, aposta em uma visão mais rígida da lei islâmica, chegando a impor códigos de vestimenta e outras regras de conduta. Em 2025, a JNIM também chegou a promover ataques coordenados contra posições militares no oeste de Mali, próximo às fronteiras com Senegal e Mauritânia.

Há um componente diplomático na história. Nesse caso, um fator em franca decadência. Muito embora o exército maliano tenha se fortalecido com o apoio russo, há muito pouco avanço no trato sobre quais devem ser as condições políticas para que a região seja minimamente governável.

Parte desse arrefecimento se explica pela retirada da Missão Multidimensional Integrada de Estabilização das Nações Unidas no Mali (MINUSMA), um ator visto com ressalva pelo governo local e por Moscou.

Além disso, o estreitamento das relações entre os governos da região do Sahel e o Kremlin, a despeito das vantagens estratégicas, pode ter começado a gerar um efeito complexo, mas relativamente previsível: o de que forças contrárias possam passar a um movimento de parceria em ataques, como é o caso da FLA e da JNIM.

O futuro passará por saber a extensão da parceria entre os dois grupos. Se o cenário se confirmar, o risco para o Sahel, como um todo, acentua-se. As atividades dos grupos poderão ir além das fronteiras, causando problemas mais amplos às condições políticas na África Ocidental.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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