O governo ucraniano de Volodymyr Zelensky passa por uma reformulação geral com a mudança de cargos de alto escalão. A primeira-ministra Yulia Svyrydenko, e o ministro da Defesa, Mikhaylo Fedorov, deixaram seus postos. A reforma gerou protestos em diversas cidades do país e expôs fragilidades do governo ucraniano.
A reestruturação acontece em meio a uma escalada da guerra da Ucrânia, com a intensificação dos ataques de ambos os lados. O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, destituiu nomes importantes do seu gabinete. Em particular, a renúncia do ministro da Defesa, anunciada na última quinta-feira (16), gerou protestos em diversas cidades ucranianas e acendeu um alerta de crise política no país.
Fedorov era visto por uma parcela da população ucraniana como um quadro eficiente à frente do Ministério da Defesa e associado ao combate à corrupção no país.
Em entrevista ao Brasil de Fato, o diretor do Instituto Ucraniano de Política, Ruslan Bortnik, aponta que as mudanças do governo têm como pano de fundo a tentativa de melhorar uma imagem desgastada do governo de Zelensky em meio a uma série de escândalos envolvendo figuras próximas ao chefe de Estado.
“A mudança tem várias razões. A principal é que o governo perdeu a confiança do presidente, e de diversas maneiras. Primeiro, há o próprio governo. Ele passou por um grave escândalo de corrupção, em consequência do qual três membros do governo, agora ex-membros, estão sob investigação, e alguns outros ainda aparecem em relatórios investigativos. É um governo com a reputação seriamente abalada, um governo muito tóxico para o presidente e impopular na sociedade ucraniana”, explica.
Além disso, segundo o cientista político, Volodymyr Zelensky passou a identificar um problema de lealdade de certos membros do governo e “muitos começaram a flertar e a estabelecer conexões com o movimento anticorrupção, que continua a combater o governo dentro da Ucrânia”.
“A luta interna continua, e isso está ligado a uma certa desconfiança em relação à [ex-primeira-ministra] Svyrydenko. Seu comportamento durante a renúncia de Yermak e o conflito em torno do Ministro da Defesa contribuíram para o surgimento de membros autônomos no governo, cada vez menos dependentes da linha presidencial, do próprio presidente. E o presidente, naturalmente, queria substituí-los”, diz o analista.
Nesse contexto, um protesto ocorreu em Kiev na manhã da última quinta-feira (16). Centenas de manifestantes se reuniram no centro da cidade, exibindo cartazes em apoio ao ministro da Defesa destituído e criticando Zelensky. Manifestações semelhantes ocorreram em outras 13 cidades, incluindo Lvov, Odessa e Kharkov.
A reação do Kremlin foi cautelosa, sem apresentar posições contundentes. Ao comentar as mudanças no governo ucraniano, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, declarou que Moscou atribui maior importância à resolução do conflito e à garantia de seus próprios interesses, mas destacou que a Rússia monitora a situação de perto.
“Vocês sabem, nós, naturalmente, monitoramos todas as notícias relacionadas ao regime de Kiev, especialmente considerando a operação militar especial [nome oficial usado para guerra da Ucrânia na Rússia] em curso. Mas, de modo geral, não importa quem seja o ministro da Defesa. Para nós, o importante é que tenha alguém no regime de Kiev que assuma a responsabilidade e tome uma decisão responsável que permita uma solução pacífica. Ou que permita a conclusão da operação militar especial. Em Kiev, eles sabem muito bem quais decisões precisam ser tomadas nesse sentido. É importante para nós que essas pessoas apareçam”, completou.
Com a atual reestruturação, o Ministério da Defesa da Ucrânia terá a quarta troca de comando desde o início da guerra com a Rússia, em fevereiro de 2022. O ex-ministro Mykhailo Fedorov era visto como um quadro associado ao combate à corrupção e gozava de prestígio na opinião pública.
De acordo com o diretor do Instituto Ucraniano de Política, Ruslan Bortnik, Fedorov construiu uma imagem de combatente da corrupção dentro do exército, angariando apoio dos círculos liberais da sociedade. “Nesse aspecto, ele tem uma boa reputação. Além disso, ele já atuou como vice-primeiro-ministro para a Transformação Digital, onde lançou serviços de ponta, como uma ferramenta digital, entre muitos outros, que são amplamente utilizados pelos cidadãos”, completa.
Instatisfação popular
A insatisfação popular na Ucrânia em relação aos problemas de corrupção no governo não é uma novidade. Em novembro de 2025, o Escritório Nacional Anticorrupção da Ucrânia (NABU) e a Procuradoria Especializada Anticorrupção (SAPO) do país relataram a descoberta de um esquema de corrupção em larga escala na empresa estatal ucraniana de geração de energia nuclear, Energoatom. Segundo os investigadores, a empresa era controlada por um grupo organizado que exigia propinas de 10% a 15% dos contratos concedidos.
A investigação apontou o empresário Timur Mindich como figura central do grande esquema de corrupção. Ele era tido como um aliado próximo ao presidente Volodymyr Zelensky. O empresário deixou o país algumas horas antes da operação dos órgãos anticorrupção. O escândalo também envolveu o então ministro da Justiça, Herman Galushchenko.
Na ocasião, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, afirmou que os aliados europeus de Kiev tinham motivos para se preocupar com a eclosão do escândalo, na medida em que, segundo ele, o esquema de corrupção envolvia dinheiro estrangeiro. Agora, Zelensky busca uma reforma em meio ao lobby por mais apoio financeiro e militar da UE na guerra com a Rússia. No entanto, internamente as medidas foram recebidas com controvérsia, dado o recente histórico de escândalos e o vínculo dos políticos demitidos com os partidários do combate à corrupção no país.
Tal cenário cria um dilema para o presidente Volodymyr Zelensky, na medida em que a dinâmica da política externa não deve sofrer alterações, e, internamente, a reforma até então só alimentou desconfiança nas movimentações políticas do líder ucraniano.
Como afirma o cientista político Ruslan Bortnik, o rumo do governo não deve sofrer alterações com as recentes mudanças. Ao mesmo tempo, de acordo com ele, “talvez este governo dê maior ênfase à política interna, à garantia do fornecimento de energia e ao combate às tentativas de desestabilização”.
“A Ucrânia presenciou protestos recentemente, por exemplo, a revolta em Lvov contra a mobilização de civis para a guerra. Ou seja, havia uma sensação de que a situação interna estava se desestabilizando, se deteriorando. Ou seja, há um certo foco na estabilização interna, no combate à desestabilização interna. Mas, no geral, o rumo permanecerá inalterado: continuação da guerra, continuação da integração europeia, fortalecimento da aliança com os aliados ocidentais da Ucrânia”, completa.
