O movimento de mulheres negras no Brasil se consolidou, nos últimos anos, como uma das maiores forças políticas organizadas do país. O exemplo mais recente foi a 2ª Marcha Nacional das Mulheres Negras, realizada em novembro de 2025, em Brasília, que reuniu cerca de 300 mil pessoas, segundo a organização. Com o tema Por Reparação e Bem Viver, a mobilização ultrapassou as fronteiras nacionais e contou com a participação de mulheres negras de 47 países.
Oito meses após a mobilização, e em um mês marcado pelas celebrações do Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e do Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, as mulheres negras seguem reivindicando o Bem Viver como único caminho possível para a construção de uma democracia plena e de uma sociedade livre do racismo.
Para refletir sobre o legado da marcha e os desafios atuais do movimento, o Brasil de Fato DF entrevistou a coordenadora-executiva do Odara – Instituto da Mulher Negra, Naiara Leite. Jornalista e mestra em Comunicação pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), ela analisa como o movimento de mulheres negras se tornou uma das forças políticas mais radicais e organizadas do país e reflete também sobre o papel da comunicação na disputa de um projeto político de sociedade.
A primeira marcha foi realizada em 2015, como resultado de um processo de articulação iniciado em 2011 por um conjunto de organizações de mulheres negras para enfrentar o contexto de genocídio da população negra e a naturalização da morte de crianças, jovens e pessoas negras nas periferias brasileiras. Sob o tema Mulheres Negras em Marcha Contra o Racismo, a Violência e pelo Bem Viver, cerca de 100 mil mulheres negras ocuparam as ruas de Brasília em 18 de novembro de 2015.
Segundo Naiara Leite, a primeira marcha partiu da ideia de dar visibilidade à luta das mulheres negras ao mesmo tempo em que apresentou para a sociedade brasileira o projeto de nação baseado no pacto do Bem Viver. “É um projeto que desconstrói e que faz um enfrentamento direto a uma ideia colonial, capitalista, desenvolvimentista, genocida, onde dizemos que não é essa ideia de democracia que vai dar conta de transformar e incluir as mulheres negras e a população negra. É pensar uma outra forma de existência, porque [o Bem Viver] é uma ruptura com essa hierarquia de poder social, onde quem tem mais é quem tem não só o direito de viver, mas também quem tem o direito de controlar e definir quem vive no país e como vive”, explica.
Na avaliação da jornalista, se essa estrutura social capitalista – baseada na escravização, de poder branco e heteronormativo – não mudar, o olhar sobre as populações negras e indígenas também não muda.
“O Bem Viver é uma mensagem que as mulheres negras compreenderam como possibilidade, porque não pensamos o Bem Viver apenas para nós; é uma mudança de modelo para toda a sociedade brasileira”, destaca Naiara Leite.

Da primeira à segunda marcha, se passaram dez anos. Um processo de mobilização contínuo, que se configurou no que Leite chama de “experiência metodológica de articulação nacional”. Diversos comitês mobilizadores da marcha foram organizados no país. Na avaliação de Leite, isso demonstra que não existe uma experiência única de ser mulher negra no Brasil.
“Hoje, é quase impossível ir a qualquer lugar do Brasil e não encontrar um coletivo ou associação liderado por elas, mesmo quando são espaços mistos. Elas se reconhecem nesse lugar político. A ideia central é que, se não mudarmos a ordem do lugar para as mulheres negras, não conseguiremos uma sociedade de fato democrática”, observa.
‘Não há democracia sem mulheres negras’
De acordo com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), nas eleições municipais de 2016 foram registradas 73 mil candidaturas de mulheres negras (candidatas autodeclaradas pretas e pardas), já nas eleições de 2020 foram mais de 90 mil, um aumento de 23%. Para a coordenadora-executiva do Odara, o número representa um dos legados da marcha.
“As mulheres negras se candidataram, disputaram as cotas, o financiamento e ao mesmo tempo direcionaram para uma reflexão que o movimento negro brasileiro faz há muitos anos de que não há democracia com racismo, não há democracia sem mulheres negras”, destaca Leite.
O aumento da incidência política, o monitoramento de políticas públicas e a atuação do movimento de mulheres negras em contextos internacionais é outro legado da marcha, apontado por Naiara Leite.

Entre uma marcha e outra, o período foi marcado por contextos agressivos, com o aumento do feminicídio de mulheres negras e trans, o golpe contra a primeira mulher presidente do país, Dilma Rousseff, em 2016, o assassinato de Marielle Franco em 2018, a ascensão da extrema direita no país, entre outros processos.
“Esses últimos 10 anos também foram um período em que tivemos um crescimento gravíssimo em relação à violência doméstica e feminicídio de meninas e mulheres negras. Ao mesmo tempo, essa expressão desse movimento e dessa força organizativa das mulheres negras foi traduzida também negativamente no crescimento da violência política de raça e gênero no Brasil, porque quem é ameaçada e que morre são mulheres negras cis e trans que estão na política. Marielle Franco foi o exemplo mais brutal disso”, destaca Leite.
Segundo a jornalista, muitas mulheres negras se retiram da disputa eleitoral porque são ameaçadas permanentemente ou tratadas como “sujeitas de quinta categoria” pelos partidos. “Não nos veem como capazes de pensar a política. Por isso, nossa presença é uma disputa radical sobre os nossos corpos e sobre o futuro”, reforça.

Reparação: trilha para o futuro
“Reparação e Bem Viver”, esse foi o tema da segunda marcha das mulheres negras. Na carta política de 2025, as organizações reforçaram que a reparação “é a criação e implementação de ações coletivas simbólicas, políticas e materiais, que revertam os impactos da escravidão e colonização, e corrijam as injustiças que se mantêm no presente, em todos os âmbitos sociais”.
A disputa pela reparação é apresentada não apenas como um pedido de indenização, mas como um projeto político amplo de devolução de dignidade e autonomia sobre os corpos e territórios das populações negras. “Para 2025, a marcha focou na reparação como uma trilha obrigatória para o futuro. Precisamos de uma história de reparação em todos os países que viveram a escravização e colonização para poder imaginar a sociedade do Bem Viver. Reparação, para nós, significa o direito à terra, luz, água e justiça econômica assegurada pelos nossos próprios princípios”, destaca Naiara Leite.
Mais de 100 mulheres de 47 países participaram da marcha, onde foi criado um Comitê Global para mobilização das mulheres negras, fortalecendo uma agenda transnacional.
“Essas mulheres foram envolvidas nessa ideia de construir esse pacto do Bem Viver. Também avançamos com a presença das mulheres negras no Fórum Permanente de Afrodescendentes da ONU [Organização das Nações Unidas] e criamos 216 comitês no Brasil, comitês territoriais, municipais, estaduais, regionais, temáticos, produzindo documentos sobre justiça climática, tecnologia e cultura, isso tudo fruto da marcha, um processo que não se encerrou”.

| Crédito: Foto: Flávia Quirino/Brasil de Fato DF
Pós-marcha em ano eleitoral
Criado em 2013, o Julho das Pretas se consolidou como uma estratégia de denúncia e incidência para as mulheres negras, são mais de 700 atividades em todo o país, de acordo com Naiara Leite.
“O Julho das Pretas virou no Brasil uma das estratégias mais importantes de mobilização e de incidência, fundamentalmente, de incidência de denúncias das violências e violações que vivem as mulheres negras. Esse mês inteiro temos homenagens e ações concretas como marchas, paralisações, rodas de conversa, que estão denunciando, em diferentes dimensões, o racismo patriarcal heteronormativo”, observa.
Neste ano, o Julho das Pretas ganha ainda mais relevância diante do cenário pós-marcha e das eleições, marcadas pela disputa entre diferentes projetos de país. Além de apontar a necessidade de eleger mulheres negras nas eleições, Naiara Leite considera que também é necessário reagir a projetos que, tanto do ponto de vista histórico quanto ideológico, tentam “trucidar” a população negra.
“Fazer isso em um marco do pós-marcha tem uma outra conotação, porque sabemos quais são as ferramentas de desinformação, por exemplo, que a extrema direita utiliza nas periferias. E esse primeiro ano de pós-marcha é fundamental para que a gente discuta e enfrente projetos que são radicalmente contra a existência das pessoas negras nesse país”.
A jornalista reflete ainda que as mulheres negras “estão movendo uma ideia radical de futuro no presente”. “Não podemos seguir como estamos, não temos condição. E acho que nós e as populações indígenas estamos no caminho certo sobre disputar um outro mundo, sobre disputar essa construção de outra perspectiva: o Bem Viver”, considera.

| Crédito: Juliana Duarte
A comunicação como ferramenta de disputa
Mestra em Comunicação pela UFRB, Naiara Leite aponta que um dos caminhos para enfrentar a desinformação é apostar em uma estratégia que possa “disputar mentes e corações”.
“A comunicação é um dos grandes desafios que nós temos hoje. Como é que disputamos narrativas na sociedade brasileira, diante de um contexto tão perverso contra grupos que perderam a capacidade muitas vezes de esperançar, diante de tanta violência e morte?”, questiona.
A resposta é promover uma comunicação que encante e que sensibilize. “Precisamos ter uma comunicação que sensibilize mais pessoas da sociedade brasileira de que o que acontece com a população negra não é um problema exclusivo da população negra, é um problema da sociedade brasileira como um todo. Para isso, a comunicação precisa produzir esse sentimento de se levantar e lutar por liberdade, pela construção de um futuro, sem perder de vista o agora, e essa capacidade de sensibilizar”.
*Esta entrevista é fruto de uma parceria entre Cese e Brasil de Fato DF para o Julho das Pretas. Criado em 2013 pelo Odara – Instituto da Mulher Negra, o Julho das Pretas é uma agenda coletiva construída por organizações e pelo movimento de mulheres negras da Bahia, do Nordeste e de diversas regiões do Brasil. A iniciativa fortalece organizações de mulheres negras e celebra o 25 de Julho – Dia Internacional da Mulher Negra Afro-Latino-Americana e Caribenha. Ao longo dessa trajetória, a Cese tem caminhado ao lado dessa luta, com apoio a 97 projetos, com valor estimado em mais de R$ 600 mil reais, beneficiando cerca de 34 mil mulheres negras de todo o país.
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