Com as candidaturas ao governo do Rio Grande do Sul definidas e as campanhas em curso rumo ao primeiro turno, marcado para 4 de outubro, um tema ambiental e econômico ganhou peso na disputa: o chamado Projeto Natureza, da multinacional chilena CMPC, que prevê a instalação de uma nova fábrica de celulose em Barra do Ribeiro, na Região Metropolitana de Porto Alegre. A reportagem analisa o que dizem os candidatos ao Piratini sobre o empreendimento e como se posicionam diante dos impactos ambientais, econômicos e sociais envolvidos.
Estimado em cerca de R$ 27 bilhões, o empreendimento é apontado como o maior investimento privado já registrado no estado e é apresentado pela empresa e apoiadores como capaz de gerar milhares de empregos diretos e indiretos. Ao mesmo tempo, o projeto segue sob questionamento do Ministério Público Federal (MPF), que ajuizou ação civil pública alegando que comunidades indígenas, quilombolas e de pescadores artesanais da região não foram devidamente consultadas, conforme prevê a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).
A controvérsia envolve, de um lado, o governo do estado, entidades empresariais e candidaturas que defendem o empreendimento e, de outro, procuradores da República, pesquisadores universitários, entidades de defesa ambiental e lideranças de povos tradicionais que apresentam questionamentos ao projeto ou ao processo de licenciamento.
O que está em disputa
O empreendimento, batizado pela CMPC de Projeto Natureza, prevê a construção de uma nova planta industrial de celulose branqueada de eucalipto às margens do Guaíba, em Barra do Ribeiro, além de um terminal de uso privado no Porto do Rio Grande e obras de dragagem e ampliação portuária. A capacidade de produção projetada é de cerca de 2,5 milhões de toneladas de celulose por ano, a maior parte destinada à exportação. O protocolo de intenções entre a CMPC e o governo do estado foi assinado em abril de 2025 pelo governador Eduardo Leite (PSD), que não disputa a reeleição neste ano por já ter cumprido dois mandatos consecutivos.
Desde então, o licenciamento ambiental do empreendimento é conduzido pela Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) e passou a ser contestado pelo MPF, que recomendou em março a suspensão do processo até a realização de consultas prévias, livres e informadas às comunidades potencialmente afetadas. Em maio, o órgão federal ajuizou ação civil pública contra a CMPC, a Fepam, a União, o Incra e a Funai.
Em julho, a Justiça Federal negou o pedido de liminar apresentado pelo MPF para suspender o licenciamento, mantendo a ação em tramitação e o processo administrativo em curso na Fepam. A juíza federal Maria Isabel Pezzi Klein entendeu que não cabia, naquele momento, ao Judiciário interferir na condução dos estudos técnicos realizados pelo órgão ambiental estadual, embora as alegações centrais do MPF, como o suposto descumprimento da Convenção 169, ainda devam ser analisadas ao longo do processo.
Um comitê técnico formado por entidades socioambientais e pesquisadores universitários também encaminhou carta aos deputados estaduais apontando inconsistências no Relatório de Impacto Ambiental do projeto e alertando que a indústria de celulose figura entre as mais poluentes em escala global. Já o Conselho Estadual de Direitos Humanos recomendou a órgãos como o MP e a Defensoria Pública a revisão dos estudos de impacto e da consulta aos povos tradicionais da região.
Entidades empresariais, por sua vez, organizaram manifestações públicas em defesa do empreendimento, entre elas um ato realizado em frente ao Palácio Piratini que reuniu prefeitos da região e lideranças do setor florestal e madeireiro.
Juliana Brizola: apoio condicionado a garantias ambientais
A candidata Juliana Brizola (PDT), que aparece entre os principais nomes nas pesquisas de intenção de voto e conta com o apoio de partidos como PT, Psol e PSB, visitou a unidade da CMPC em Guaíba e declarou apoio ao projeto, condicionado a garantias de responsabilidade ambiental.
Em declarações divulgadas durante a agenda, Brizola destacou a importância de assegurar previsibilidade e segurança jurídica aos setores que geram emprego e desenvolvimento econômico para o estado, sem abrir mão da responsabilidade ambiental. Nas manifestações localizadas pela reportagem, a candidata não associou o apoio ao empreendimento a críticas à atuação do Ministério Público Federal no caso.
Gabriel Souza, Luciano Zucco e Marcelo Maranata: defesa enfática do projeto
Três candidaturas se destacam pela defesa enfática do empreendimento: Gabriel Souza (MDB), Luciano Zucco (PL) e Marcelo Maranata (PSDB).
O vice-governador Gabriel Souza, candidato da situação com o apoio de Eduardo Leite, é um dos defensores mais diretos do projeto. Em declarações públicas, Souza classificou o Projeto Natureza como o maior investimento da história do Rio Grande do Sul e afirmou que o Poder Executivo estadual está atuando para garantir a concretização do empreendimento.
O atual governo também reforçou publicamente a posição favorável à CMPC. Leite se reuniu por diversas vezes com dirigentes da empresa para acompanhar os desdobramentos da ação movida pelo MPF, enquanto o governo estadual sustenta que o licenciamento segue o curso técnico na Fepam.
O deputado federal Luciano Zucco visitou a unidade da CMPC em Guaíba e reiterou apoio ao projeto. Segundo o candidato, o Rio Grande do Sul não pode transmitir insegurança a quem deseja investir no estado. A situação enfrentada pela empresa tornou-se, na avaliação de Zucco, um exemplo de impasses jurídicos capazes de afastar oportunidades de desenvolvimento. Em outra ocasião, o candidato afirmou que lideranças indígenas citadas pelo MPF no processo teriam se posicionado contra a suspensão do licenciamento.
Marcelo Maranata, ex-prefeito de Guaíba, é um dos candidatos mais engajados na defesa pública do empreendimento. Segundo o próprio candidato, ele foi, em diferentes ocasiões, o único então pré-candidato ao governo presente em manifestações realizadas em Barra do Ribeiro, além de ter participado de audiências em Brasília sobre o tema.
Maranata também associou o debate sobre a CMPC à saída da fábrica da Ford do estado, ocorrida durante um governo do PT, e afirmou temer a repetição do episódio caso o novo projeto não avance. O candidato citou ainda a gestão em Guaíba, que classificou como equilibrada entre desenvolvimento econômico e responsabilidades social e ambiental, como referência para a defesa do empreendimento.
Rejane Oliveira: posição contrária ao projeto
Em direção oposta às candidaturas que defendem o empreendimento, a candidata do PSTU, Rejane Oliveira, professora da rede pública e ex-presidente do sindicato estadual dos professores, posiciona-se de forma integralmente contrária à instalação da fábrica.
Segundo a candidata, o estado não pode permitir que uma empresa chegue ao Rio Grande do Sul e contamine a água, ainda que isso seja apresentado à população como algo positivo. Rejane Oliveira também questionou publicamente o argumento de que um investimento desse porte não poderia ser recusado e afirmou que a vida das pessoas não pode ser colocada em segundo plano diante da promessa de desenvolvimento econômico.
A candidata defende ainda a proibição do uso de agrotóxicos e diz não apoiar investimentos que provoquem contaminação do solo, da água e do meio ambiente.
Priscila Voigt: posição não detalhada publicamente
A candidata da Unidade Popular (UP), Priscila Voigt, que atuou por anos em movimentos populares e na Casa de Referência Mulheres Mirabal antes de se lançar candidata, não apresentou até o momento, nas fontes consultadas por esta reportagem, uma manifestação pública específica e detalhada sobre o Projeto Natureza. A campanha tem priorizado publicamente bandeiras como a reestatização de empresas privatizadas e a valorização dos serviços públicos.
O debate para além dos candidatos
Independentemente da posição de cada candidatura, o Projeto Natureza segue sendo alvo de uma disputa técnica e judicial que deve atravessar o próximo mandato estadual, com início em janeiro de 2027. Levantamentos de entidades ambientais apontam que a nova planta, somada à unidade já existente da CMPC em Guaíba, poderia elevar para mais de 390 milhões de litros por dia o volume de efluentes lançados no Guaíba.
A Funai, por sua vez, afirma acompanhar desde o início o processo de licenciamento e nega omissão no acompanhamento técnico do caso. O MPF mantém a ação civil pública em tramitação na Justiça Federal, com o mérito da disputa ainda pendente de julgamento.
Os planos de governo apresentados pelas candidaturas no processo de registro junto à Justiça Eleitoral estão disponíveis para consulta pública no sistema DivulgaCandContas, do Tribunal Superior Eleitoral.
