Plataformas digitais deverão cobrir parte do seguro de saúde de entregadores, motoristas por aplicativo e prestadores de serviço por demanda, categoria com mais de 200 milhões de trabalhadores na China. A diretriz foi divulgada no Plano Quinquenal de Cobertura de Saúde Universal para 2026–2030, pela Administração Nacional do Seguro de Saúde da China, nesta quarta-feira (19).
Atualmente, o trabalhador dessas categorias que quiser o seguro dos assalariados formais, com reembolso de cerca de 80% das despesas hospitalares, precisa arcar com 100% da contribuição por conta própria, sem participação alguma da plataforma contratante. A maioria desses trabalhadores hoje usa o seguro de saúde de residentes, com reembolso de cerca de 70%.
Segundo relatório do Conselho de Estado apresentado à Assembleia Nacional Popular (ANP) em dezembro de 2025, apenas 66,16 milhões dos mais de 200 milhões de trabalhadores nessa categoria tinham seguro de saúde vinculado ao emprego até o final de 2024.
O 14º Plano Quinquenal (2021–2025) havia dado um passo inicial ao remover a exigência de que os trabalhadores de aplicativos só pudessem se inscrever no seguro na cidade onde têm registro domiciliar, o chamado hukou, um sistema que vincula direitos sociais ao local de origem e historicamente impediu migrantes de acessar serviços nas cidades onde trabalham. A barreira financeira, porém, permanecia: sem obrigação de contribuição para as plataformas, o trabalhador continuava bancando a parte que caberia ao empregador.
Até o final do ano passado, o Sistema de Seguro Médico Básico da China cobria 1,33 bilhão de pessoas, 95% da população, com receita de 3,59 trilhões de yuans (cerca de R$ 2,9 tri) e despesas de 3 trilhões de yuans (mais de R$ 2,4 tri), incluindo o seguro-maternidade, segundo a Xinhua. Ao contrário do SUS brasileiro, financiado por impostos e gratuito no atendimento, o sistema chinês é contributivo: trabalhadores e empregadores pagam mensalmente ao fundo, que depois reembolsa parte das despesas hospitalares.
Com o novo plano, o parto no hospital será coberto integralmente pelo seguro-maternidade, sem custos para a mulher. A anestesia durante o parto e os procedimentos de reprodução assistida também passam a ser cobertos.
Remédios a preço de Estado
O sistema de compras em grande escala, no qual o governo negocia direto com os laboratórios para conseguir descontos em troca de volume garantido, vai crescer e virar uma regra permanente. A medida já reduziu bastante o preço de itens caros, como próteses, lentes intraoculares e stents para o coração, informa a Xinhua. A meta é fazer com que 90% dos remédios e 80% dos materiais de alto custo dos hospitais públicos sejam adquiridos por plataformas regionais.
Também será criado um aplicativo para que a população em geral possa comparar preços de remédios perto de casa, checar o estoque em tempo real e receber alertas contra cobranças abusivas.
O plano também prevê um mecanismo de acompanhamento contínuo para quem tem gastos muito altos com saúde, emitindo alertas para evitar que despesas médicas levem as famílias à pobreza.
Cuidados de longa duração
Com mais de 323 milhões de pessoas acima dos 60 anos (23% da população) e a projeção de ultrapassar 400 milhões até 2035, a China vai expandir o Seguro de Cuidados de Longa Duração, conhecido como o “sexto seguro” social do país. Hoje, 308 milhões de pessoas contribuem para o fundo; o benefício, destinado a quem tem dependência severa para tarefas básicas, atende 1,93 milhão de pessoas.
O programa, atualmente em fase de testes em 92 cidades, será levado para todo o país até 2030. O projeto prevê ainda regras unificadas em nível nacional para avaliar o grau de dependência dos idosos e o uso de robôs auxiliares para ajudar quem tem dificuldade de locomoção.
