O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) inaugurou neste sábado (22) o Restaurante da Reforma Agrária Popular, na sede do Armazém do Campo, nos Campos Elíseos, região central de São Paulo. A partir de segunda-feira (24), o espaço passa a oferecer almoço de segunda a sábado, das 12h às 15h, com opções de buffet e à la carte e um cardápio inspirado na diversidade culinária das cinco regiões do país. O prato deste sábado foi o arroz carreteiro, típico do Rio Grande do Sul.
Além de comercializar alimentos produzidos pela agricultura familiar e pela reforma agrária, o Armazém passa agora a transformar parte dessa produção em refeições. Para o coordenador do restaurante, Rafael Coelho, a novidade amplia a atuação do espaço como ponto de encontro entre campo e cidade.
“Além de ser um espaço de encontro, de política e arte, além de comercializar e vender os produtos da reforma agrária popular, da agricultura familiar, o Armazém agora chega com a proposta de servir o almoço, a comida pronta, a comida sem veneno, a comida de verdade, com tempero de verdade, com cuidado e com carinho”, destacou Coelho durante o evento de inauguração.
O restaurante abre as portas como parte das comemorações dos dez anos do Armazém do Campo na capital paulista. Criado como desdobramento da 1ª Feira Nacional da Reforma Agrária, realizada em 2015, o espaço atualmente comercializa cerca de 1,5 mil produtos de aproximadamente 700 produtores rurais. A rede do Armazém do Campo tem 19 unidades em 11 estados.
Segundo Carina Ortega, coordenadora do Armazém do Campo de São Paulo, o espaço amplia as possibilidades de contato do público com a produção da reforma agrária.
“O restaurante abre mais um canal de diálogo do nosso espaço e do nosso projeto com o bairro, com a cidade, com outras organizações, com as pessoas, enfim, para conhecer a nossa proposta, enquanto Armazém do Campo, mas também enquanto Movimento Sem Terra e movimentos que lutam pela reforma agrária e pelos direitos em geral.”
A relação entre produção e consumo também foi destacada pelo DJ KL Jay, que participou da programação de inauguração. Ele contou que o convite para o evento despertou a ideia de começar a comprar produtos do Armazém para utilizar no Katarina, seu bar.
“O alimento orgânico não tem nenhuma toxina, nenhum agrotóxico. É outro alimento, tem outro formato, outro gosto, textura, faz toda a diferença. É outra sensação, vale realmente a pena consumir o alimento orgânico, ainda mais podendo pagar o preço justo. Tô muito feliz de poder participar desta festa, não podia recusar esse convite, faz sentido com minha trajetória, com minha visão de mundo”, destacou o músico durante o programa “Estúdio 98”, da Rádio Brasil de Fato.

Cardápio inspirado nas regiões do país
A ideia é que o menu do restaurante seja renovado mensalmente e tenha como referência a culinária das regiões brasileiras. A inspiração também vem da memória das feiras da reforma agrária, realizadas pelo MST.
“Como a gente está querendo trazer essa memória da feira nacional, vamos trazer pratos que costumam ter na nossa feira, divididos por grandes regiões”, explica Ortega.
A cada dia, o cardápio à la carte terá referências a uma região ou a uma culinária específica. Um dos exemplos citados pela coordenadora é o Nordeste, com o baião de dois.
Já o buffet será mais próximo da comida cotidiana encontrada nos restaurantes da região central, com arroz, feijão, opções de carne, alternativas vegetarianas e saladas. Os vegetais utilizados na preparação serão provenientes da produção comercializada pelo próprio Armazém, incluindo alimentos orgânicos e agroecológicos.

A proposta, segundo Ortega, é que o consumidor tenha contato com os alimentos da reforma agrária tanto nas prateleiras do Armazém quanto na refeição servida no restaurante.
“A gente enxerga o restaurante hoje como mais um espaço que potencializa esse acesso à alimentação, a partir de alimentos que são mais saudáveis, que são orgânicos, que são agroecológicos, que são de produções de pequenos agricultores e de agricultores da reforma agrária popular.”
O restaurante terá duas cozinheiras, além de duas auxiliares de cozinha. O espaço terá pratos individuais e comida por quilo. Segundo Ortega, a equipe trabalha para manter os preços próximos aos praticados por outros restaurantes da região, apesar do custo dos alimentos orgânicos e agroecológicos.
“A gente está num processo intenso de tentar garantir com que os nossos preços sejam o mesmo preço do bairro”, conta Ortega.
Durante o primeiro mês de funcionamento, o restaurante também fará uma pesquisa de opinião com os clientes para avaliar o modelo, os pratos, o atendimento e o próprio espaço. A intenção é utilizar as respostas para ajustar a estrutura e o funcionamento do restaurante.

Espaço de diálogo
A inauguração acontece em meio a uma reorganização do Armazém do Campo, que completa dez anos em 2026. O espaço passa por mudanças no layout e prepara uma nova proposta de ornamentação, construída em parceria com o coletivo de cultura do MST.
A ideia é criar um percurso que apresente parte da memória do movimento, as cooperativas e os territórios onde são produzidos os alimentos comercializados no local. O projeto também pretende reforçar a relação entre campo e cidade.
Ortega afirma que o restaurante integra esse processo ao ampliar as formas de contato do público urbano com a produção da reforma agrária.
“A gente quer ampliar o acesso a esse debate da alimentação, ao debate da necessidade da reforma agrária, para além das pessoas que já conhecem o espaço aqui, seja porque compram no mercado, seja porque consomem no nosso café. A gente agora também quer elas aqui no nosso restaurante.”
Para ela, o momento eleitoral também torna esse debate mais relevante. A coordenadora avalia que o Armazém pode apresentar, por meio da própria produção comercializada no espaço, resultados concretos da luta pela terra.
“Aqui você tem os resultados da luta pela terra que foi feita ao longo dos 42 anos do Movimento Sem Terra. Eu acho que é justamente um momento oportuno de pautar coisas para os nossos candidatos e para a sociedade como um todo, do ponto de vista da necessidade de a gente repensar os projetos que temos de país”, conclui Carina Ortega.
A inauguração do restaurante contou com a presença de candidatos e candidatas do campo progressista nas Eleições 2026. Nomes como Sonia Guajajara (Psol), Nabil Bonduki (PT), Luiza Erundina (Psol), Miguel Selerges (PT), Eduardo Suplicy, entre outros, passaram pelo local neste sábado.
