Protagonismo

Como mulheres negras estão pautando demandas básicas de saúde no Rio de Janeiro

Projeto da ONG Criola articula lideranças comunitárias e aumenta participação popular no SUS

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Projeto Saúde das Mulheres Negras mobiliza rede local em diversos territórios do RJ
Projeto Saúde das Mulheres Negras mobiliza rede local em diversos territórios do RJ | Crédito: Mariana Monteiro/Acervo Criola

O projeto Saúde das Mulheres Negras, desenvolvido pela ONG Criola, em parceria com 42 organizações e lideranças comunitárias do Rio de Janeiro, atua para fortalecer o Sistema Único de Saúde (SUS) a partir das demandas dos territórios. A iniciativa tem como foco aumentar a incidência das mulheres negras na atenção primária, com o objetivo de combater desigualdades estruturais.

Duas estratégias são principais: formação e mobilização com lideranças locais sobre determinantes sociais de saúde e direitos; e incidência política diretamente com os órgãos e equipamentos de saúde para garantir acesso à vacinação e exames preventivos. 

Em diálogo contínuo, as participantes incentivam umas às outras a irem às unidades de saúde e cobrarem seus direitos como forma de melhorar o sistema e o serviço prestado à população como um todo. As mulheres negras formam uma espécie de vigilância popular na saúde local. É o que explica Nathália Ribeiro, líder do projeto Saúde das Mulheres e especialista em Política e Gestão de Saúde Social, nesta entrevista ao Brasil de Fato.

A participação das mulheres negras tem resultados concretos, como acesso à vacina de HPV, antes indisponível em uma unidade de saúde, e participação em conselhos gestores. Ribeiro destaca a necessidade de um olhar racializado no SUS para reduzir desfechos de saúde indesejáveis que atingem, sobretudo, mulheres negras em regiões vulnerabilizadas do estado do Rio. 

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A área de atuação do projeto abrange 9 municípios da Região Metropolitana, incluindo a capital, onde vivem 1,5 milhão de mulheres negras, cis e trans, e já contabiliza participação em mais de 240 conselhos e 440 ações em unidades básicas de saúde.

Leia os destaques da entrevista:

Brasil de Fato – Por que é necessário um olhar racializado na saúde pública brasileira? 

Nathalia Ribeiro – Quando a gente faz um recorte específico de raça e gênero, vemos que é a população negra com mais desfechos indesejáveis na saúde. A gente tem forte incidência de mortalidade materna, por exemplo. Porque a população negra está mais morrendo, a gente precisa pensar que também é a que mais precisa de cuidado. 

É preciso reconhecer desigualdades territoriais e de renda que são históricas. A população negra acaba ficando marginalizada nos territórios mais periféricos. Como consequência da compra de alimentos ultraprocessados mais baratos, há uma maior incidência de doenças crônicas, como diabetes e hipertensão. A gente precisa olhar para as mulheres negras com mais dignidade, como as pessoas dignas de acessar os direitos.

Quais estratégias o projeto utiliza para assegurar esse direito à saúde?

A gente faz bastante formação, informa essa mulher o que é saúde, o que é o seu direito em saúde, o que esperar da UBS, o que buscar lá. Como a gente tem essa porta de entrada na atenção primária e como a gente pode alavancar os nossos direitos a partir dela. Esse é um pilar do projeto.

O segundo é a gente conseguir cobrar, agenciar os nossos direitos, mas a gente também precisa de uma mudança sistêmica do SUS para olhar para essa população. Cito como exemplo a coleta de citopatológico, mas posso estender para hipertensão, diabetes, e é papel da unidade básica de saúde cuidar. 

Posso estender para vacinação, gestação. Como olhar essa saúde integral da mulher e para além de um corpo que gesta. A gente tem progressos, mas eles chegam sempre depois à população negra, porque temos desafios sociais e estruturais de acesso.

Reuniões com articuladoras do Projeto Saúde das Mulheres Negras no RJ
Reuniões com articuladoras do Projeto Saúde das Mulheres Negras no RJ
| Crédito: Acervo Crioula

Que exemplos de incidência no dia a dia das comunidades você pode citar?

A gente está fortemente ligado à unidade básica daquele território, mas também mobilizamos o CRAS, CREAS, as secretarias de saúde. As mulheres vão lá cobrar. O que está sendo muito legal nesse projeto é que não é só liderança que a gente mobiliza. As mulheres vão juntas, ficam lá esperando para falar com o secretário de Saúde.

Uma dessas experiências foi no território de Belford Roxo, que não tinha [vacina] HPV. A liderança foi lá na secretaria com as mulheres, elas ficaram até a pessoa responsável chegar. No dia seguinte, as vacinas estavam lá. É mobilizar as mulheres para que elas consigam agenciar esses direitos, mas também cobrar para que o sistema mude em prol dessa saúde. 

A unidade básica de saúde que atende aquele território precisa olhar para a população daquele território. Muitos quilombos, por exemplo, trazem a unidade básica de saúde até o quilombo. Então as mulheres conseguem mobilizar os dias para receber a unidade básica de saúde, que vem com médico para fazer consulta, enfermeiro para ferir pressão, curativo.

A gente aproveita esse momento para falar um pouco de racismo estrutural, para que esses profissionais estejam mais em contato e se mobilizem. Entender que é uma população específica. 

Tenho um quilombo em que as pessoas têm muito o desafio da alfabetização. Lá, a melhor forma de mobilização é o carro de som, porque as pessoas escutam. A gente precisa fazer com que o sistema entenda a sua população. Não é a população que tem que se adaptar ao sistema. A gente tem que respeitar aquele território. 

Alguns quilombos fazem isso, principalmente em Magé, que trazem essa unidade básica de saúde para dentro do território. Isso era para acontecer de forma espontânea, mas a gente vai lá cobrar esse direito constitucional, que é levar saúde ao cidadão.

Os territórios são marginalizados e a gente precisa estar apontando as especificidades. A gente queria muito que isso se fosse lá e resolvesse, mas não é isso que acontece. Então, as formações e mobilizações são contínuas para a gente fazer até um papel de vigilância em saúde do território. As nossas lideranças, por exemplo, do Rio de Janeiro, sentaram na mesa com o secretário de saúde de uma capital.

Nathália Ribeiro, liderança do Projeto Saúde das Mulheres Negras, iniciou carreira em um dos maiores hospitais de São Gonçalo (RJ)
Nathália Ribeiro, liderança do Projeto Saúde das Mulheres Negras, iniciou carreira em um dos maiores hospitais de São Gonçalo (RJ)

Quais os desafios na implementação da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra no Rio de Janeiro?

São barreiras significativas, incluindo a fragilidade dos dados nos prontuários eletrônicos – muitas vezes preenchidos incorretamente ou sem a raça declarada – e a necessidade de formação contínua dos profissionais de saúde. 

Um exemplo que a gente costuma usar bastante é o de mortalidade materna. No estado do Rio de Janeiro como um todo, a gente tem um desafio muito grande. Todos os anos, são as mulheres negras que mais morrem de mortalidade materna, principalmente, dando um recorde para a capital. 

Um segundo desafio é ter dados. Isso é até um mecanismo do racismo estrutural. A política, ao mesmo tempo em que a gente consegue o avanço de instituir, esses dados ainda se mostram muito frágeis. Porque depende de autodeclaração, que muitas vezes nem é perguntada. Dados de um território onde a população é majoritariamente  negra, mas no prontuário eletrônico você vê como branca ou amarela. Quem respondeu a esse dado? Qual é a qualidade desse dado? Será que é só para dar check? A gente entende também que os profissionais acabam sendo muito sobrecarregados com as outras demandas do sistema.

A gente tem muitos casos de racismo religioso e intolerância religiosa. Em um território mais conservador, foi pedido pela assistência social que uma das nossas lideranças de matriz africana não fosse tão expressiva na sua fé. É um clássico sinônimo de racismo religioso. Como a gente educa os nossos profissionais? O que o nosso estado está fazendo pela educação?

Editado por: Vivian Virissimo

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