Sem prazo para uma obra definitiva contra cheias, moradores do bairro Guarujá, na zona sul da Capital, cobraram do Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae) um cronograma e respostas sobre as medidas emergenciais adotadas na região, que segue vulnerável após a enchente histórica de 2024. O debate ocorreu nesta terça-feira (25), na Câmara Municipal, durante reunião da Comissão de Urbanização, Transportes e Habitação (Cuthab).
Proposto pelo vereador Jonas Reis (PT), o encontro ocorreu após uma série de protestos de moradores por informações sobre as intervenções provisórias e a solução permanente. Uma reunião da comissão havia sido marcada anteriormente no CTG Roda de Chimarrão, no bairro, mas foi desmarcada. A atividade desta terça também expôs uma divisão entre moradores.
A divergência apareceu antes das respostas do Dmae. Ricardo Santana Oliveira, Vinícius Monteiro dos Reis e Alexandre Ribeiro apresentaram perguntas em nome de moradores que afirmam não se sentir representados por outro grupo do bairro, o Todos pelo Guarujá. Também pediram uma audiência no próprio bairro e fora do horário comercial.
“Enquanto houver atrasos para a entrega do projeto, haverá pressão. Enquanto não houver uma proteção definitiva, haverá protestos”, afirmou Oliveira. Ribeiro resumiu a principal cobrança: “Não queremos apenas respostas, queremos saber o que será feito, quem serão os responsáveis e quando”.
Projeto ainda não está pronto
O diretor-presidente do Dmae, Vicente Perrone, afirmou que o município contratou em outubro de 2024 estudos para chegar a um anteprojeto. “Eu acho que muitas dessas perguntas não têm respostas ainda”, reconheceu.
Segundo Perrone, o documento deve ficar pronto entre setembro e outubro. Continuam em avaliação três alternativas apresentadas pela prefeitura em junho: muro, elevação da avenida Guaíba ou elevação da praça Zeno Simon, algumas com possibilidade de desapropriações.
Os valores também não estão fechados. Perrone estimou a intervenção entre R$ 200 milhões e R$ 300 milhões, dependendo da solução escolhida. Segundo ele, o município busca recursos em diferentes frentes e obras desse porte dependem de financiamento federal.
Contenção impede Guaíba, mas chuva depende de bombas
Na sequência, o diretor de Proteção contra Cheias e Drenagem Urbana, Alex Sander Zanoteli Martins, explicou as medidas emergenciais. Nas ruas Jacipuia e arredores, a drenagem foi desconectada do Guaíba para impedir o refluxo da água pelos bueiros. Bombas móveis passaram a fazer a retirada da água acumulada.
“Eu digo com toda certeza para vocês que não teve um centímetro de água do Guaíba entrando dentro do bairro Guarujá”, afirmou Zanoteli.
No arroio Guarujá, o canal chegou a ser bloqueado, mas a forte chuva do fim de julho provocou alagamento e atualmente ele está novamente aberto. Zanoteli explicou que o fechamento impede a entrada do Guaíba, mas também interrompe o escoamento natural da chuva.
“No momento que a gente bloqueia o canal, se chover no bairro, muito provavelmente vai causar um alagamento temporário até que as bombas sejam capazes de tirar toda essa água”, disse.
O Dmae informou que dispõe de dez bombas a diesel e já recebeu quatro bombas elétricas flutuantes. Outras 13 estão previstas, completando um lote de 17 equipamentos para uso na cidade. Não foi definido quantas ficarão disponíveis para o Guarujá. Segundo Zanoteli, uma casa de bombas definitiva na região precisaria ter capacidade superior a 20 mil litros por segundo.
As barreiras móveis devem começar a chegar no início de setembro. Foram adquiridos 8 km de módulos para utilização em diferentes pontos de Porto Alegre. Em junho, o Dmae havia apresentado um sistema que permitiria montar até 1,5 km de barreira com 2 metros de altura em até 48 horas.
Uma comporta prevista para substituir os bags usados no fechamento do canal ainda não tem prazo. Segundo Zanoteli, o departamento está levantando o que será necessário para a estrutura e depois precisará buscar recursos para a aquisição.
Moradores têm avaliações opostas
Cristina Abud, representante do Todos pelo Guarujá, afirmou que moradores das ruas Jacipuia e Oiampi enfrentam alagamentos há mais de uma década e defendeu as intervenções atuais.
“Nós estamos satisfeitos com o que foi feito. Por quê? Porque é a primeira vez que a nossa rua não alaga”, disse Abud. Ela também contestou a crítica sobre falta de acesso às informações. “Nós corremos atrás, ninguém vai bater na nossa porta.”
A divisão apareceu também na organização das manifestações. A reportagem observou um homem com roupa identificada com o Dmae incentivando moradores favoráveis às intervenções da prefeitura a se inscreverem para falar. Não foi confirmado qual era o vínculo dele com o departamento.
Vinícius Monteiro dos Reis fez uma avaliação oposta. “A gente não tem um plano definitivo, a gente não tem um plano de contenção, a gente não tem isenção de IPTU”, afirmou.
Ivam Kley, prefeito de praça do parque Zeno Simon e morador antigo do Guarujá, defendeu o trabalho emergencial. Ele relatou ter perdido tudo em 2024. “Se não tivesse isso, hoje a nossa rua estava cheia d’água”, afirmou Kley.
Drenagem e disputa política
Uma moradora da rua Jacipuia, onde vive há cerca de 30 anos, questionou se a tubulação antiga suporta a expansão urbana da região. Na abertura da reunião, Jonas Reis afirmou que novos condomínios e áreas impermeabilizadas nas regiões mais altas aumentaram o volume de água direcionado para a parte baixa, enquanto a estrutura de drenagem permaneceu a mesma.
O vereador Professor Vitorino (MDB) defendeu as intervenções emergenciais e criticou manifestações contra as estruturas instaladas no bairro. Segundo ele, a contenção provisória é necessária enquanto a solução definitiva não sai do papel, inclusive para proteger o Guarujá de elevações menores do Guaíba, que já provocam transtornos na região. Ele elogiou o trabalho dos técnicos do Dmae e afirmou que a busca pelos recursos para a obra permanente precisa envolver outras esferas de governo. “O que vai trazer tranquilidade para as pessoas são obras”, afirmou.
Jonas Reis contestou a ênfase de Perrone e Professor Vitorino na necessidade de participação do governo federal na solução. “A prefeitura é responsável por alagamentos. Qualquer prefeitura é responsável por alagamentos”, disse. O vereador também cobrou o projeto definitivo e isenção de IPTU para famílias atingidas. A fala provocou interrupções e troca de acusações.
Perrone voltou a se manifestar após as críticas e diferenciou proteção contra cheias de drenagem urbana. “Drenagem é competência do Dmae”, afirmou. “Aquilo ali é um alívio à drenagem urbana. Não é proteção contra cheias.”
O vereador Giovani Culau (PCdoB), que se apresentou como oposição à prefeitura, buscou construir uma posição intermediária no debate. Ele defendeu que as divergências políticas não inviabilizem a discussão nem aprofundem a divisão entre os moradores.
Culau propôs uma comissão permanente da comunidade para acompanhar as ações e uma frente parlamentar para fiscalizar os projetos e buscar recursos. “Os eventos climáticos extremos exigem a responsabilidade de todos os governos”, disse. Segundo ele, município, estado e União precisam atuar de forma conjunta, sem que uma esfera se exima das próprias responsabilidades.
Ao final, Perrone se comprometeu a encaminhar por escrito respostas às perguntas apresentadas pelos moradores. O anteprojeto, segundo o Dmae, deve ficar pronto entre setembro e outubro. A obra definitiva continua sem data para começar.
