A resistência do povo cubano ao bloqueio cada vez mais intenso e desumano dos Estados Unidos contra a ilha foi o destaque da mesa do Ciclo de Debate 100 Anos de Fidel Castro, ocorrido no dia 22, na Escola Nacional Florestan Fernandes, em Guararema (SP).
O repórter do Brasil de Fato e um dos realizadores do documentário “Fidel e Cuba Socialista – Queimar os Céus”, Rodrigo Chagas, destacou que a resistência contra os Estados Unidos é repetida o tempo todo nas ruas de Cuba, em especial diante do acirramento das sanções que deixam o país em uma crise econômica e energética sem precedentes.
“A gente ouve o tempo todo os cubanos repetirem: ‘Não queremos voltar a ser colônia dos Estados Unidos’”, conta Chagas, que lembrou que o bloqueio dos EUA à ilha, com 67 anos, “é uma tentativa de matar de fome, de fazer esse povo sofrer, descaradamente”.
Chagas, que esteve na ilha há cerca de um mês, considera que a situação do povo cubano está “no nível do imponderável”. “Talvez no pior momento do ponto de vista material, impostos por um bloqueio desumano”, colocando o povo cubano em “estresse coletivo, para tentar derrubar a revolução”.
O jornalista aponta que o legado de Fidel Castro, que completaria 100 anos este ano, é que “a gente nunca para de aprender” e a importância da palavra “revolução”. “A palavra revolução é muito esquecida. A gente tem um público aqui de maioria de brasileiros, um público muito diverso. De jovens, outras pessoas, outros jovens um pouco mais velhos, mas que essa palavra presente na obra de Fidel é algo que a gente tem que resgatar.”
“Sinto que o povo cubano carrega esse compromisso de, nesses momentos difíceis, tentar buscar na sua história exemplos de luta para superar também esse novo momento difícil”, completou, destacando a importância da solidariedade internacional nesse momento.
Bloqueio sem trégua
O fundador do ICL Notícias, Eduardo Moreira, fez um resgate histórico do bloqueio, que começa com algumas restrições, mas vai se recrudescendo. “Não teve presidente [dos EUA], seja democrata ou republicano, que tivesse aliviado [o bloqueio]. Para ser justo, segundo alguns amigos cubanos, o único, que também foi péssimo, mas que fez minimamente alguma coisa, foi o Obama em relação ao turismo, só”, destacou o apresentador, lembrando que essa mudança em relação ao turismo já melhorou e deu fôlego à ilha.
Moreira lembrou ainda que Joe Biden, no último dia de seu governo, atestou: “Não existe nada que prove que Cuba financiou o terrorismo internacional e nunca houve nenhuma prova disso”, garantindo a possibilidade de fim das sanções. Mas a possibilidade de alívio durou apenas um dia, porque Trump entrou e ampliou muito o bloqueio.
Moreira destacou ainda a disciplina do povo cubano. “Não existe maior disciplina do que nos regimes de esquerda, que conseguiram resistir e conseguiram fazer as coisas funcionar, mas não é uma disciplina imposta e forçada, é uma disciplina construída e acordada.”
Solidariedade e educação popular
A educadora cubana e militante do Movimento Martin Luther King Jr. Magda Rodriguez também lembrou da solidariedade e apoio do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e das pessoas em geral no Brasil ao povo cubano.
Em sua fala, Rodriguez fez um resgate da educação popular como “uma corrente pedagógica e movimento ético, político, cultural e que tem uma forte presença na América Latina” e destacou a influência de Paulo Freire por uma educação para o bem-estar coletivo e individual, que influenciou a educação feita em Cuba.
“Sempre me emociono quando falo de Pablo Freire, porque ele, sobretudo, ressalta que a educação popular tem um valor muito importante, que é o humanismo.”
A educadora lembrou também a importância que Fidel Castro dava à educação, primeiro com questões básicas como a erradicação do analfabetismo em Cuba, mas também com as reformas ocorridas nos anos 1980, impulsionadas por Fidel, com renovação, quando os jovens reivindicavam uma educação que “ensine a pensar”. Para Rodriguez, esse movimento tem ajudado na resistência do povo cubano no momento.
