Agosto Lilás

Caso em Águas Lindas (GO) expõe urgência da proteção às mulheres

Quando uma mulher procura ajuda, muitas vezes já atravessou um longo percurso de violência

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Dados da Secretaria de Segurança Pública mostram que a violência sexual foi o crime mais registrato contra mulheres e meninas
Dados da Secretaria de Segurança Pública mostram que a violência sexual foi o crime mais registrado contra mulheres e meninas | Crédito: Elza Fiúza/Agência Brasil

Em pleno Agosto Lilás, mês dedicado à conscientização e ao enfrentamento da violência contra a mulher, novos casos de violência doméstica continuam sendo registrados em diferentes regiões do país.

Nos últimos dias, um dos episódios mais chocantes no Centro-Oeste foi o de Emiliane Tamara Nunes Carvalho, encontrada pela polícia em uma casa em Águas Lindas de Goiás depois de permanecer cinco dias em cárcere privado. Quando foi localizada, estava amordaçada, acorrentada e mantida em condições insalubres. Segundo seu relato, foi estuprada repetidas vezes durante o período em que permaneceu presa.

O ex-companheiro Ailton Rodrigues de Souza foi preso em flagrante. Segundo a polícia, já sob custódia, ele afirmou que pretendia matá-la quando deixasse a prisão.

A gravidade do caso aumenta diante de outra informação divulgada: Emiliane já havia solicitado uma medida protetiva anteriormente, mas o pedido foi negado. O episódio evidencia um ponto central no enfrentamento à violência doméstica: a proteção precisa chegar antes que a ameaça se transforme em agressão extrema.

Em 2025, o Ligue 180 recebeu 155.111 denúncias de violência contra mulheres no Brasil, uma média de 425 por dia. No mesmo período, foram registradas cerca de 679 mil violações, entre violência psicológica, física, patrimonial, sexual, sequestro e cárcere privado.

Em quase 50 mil denúncias, a violência ocorria diariamente.

Os números mostram que não se trata de episódios isolados. A violência doméstica e de gênero é persistente, repetitiva e, muitas vezes, praticada por quem mantém ou manteve uma relação íntima com a vítima.

É nesse contexto que as medidas protetivas assumem papel fundamental. Elas não representam condenação antecipada, mas um instrumento de prevenção diante de uma situação de risco. Quando uma mulher procura ajuda, muitas vezes já atravessou um longo percurso de violência antes de conseguir denunciar. 

A denúncia costuma ser apenas a parte visível de uma violência que já vinha se manifestando por meio de controle, humilhação, ameaças, perseguição, isolamento e medo.

Por isso, é necessário compreender que prevenção e garantia de direitos não são incompatíveis. Uma medida protetiva pode ser revista, alterada ou revogada. Uma vida perdida, não. O Agosto Lilás, portanto, não pode se resumir a campanhas, iluminação de prédios ou mensagens de conscientização. Precisa representar também rede de proteção funcionando, escuta qualificada, avaliação adequada do risco e resposta rápida quando uma mulher procura ajuda.

Conscientizar sobre a importância da denúncia é fundamental. Mas é igualmente necessário garantir que, depois da denúncia, haja acolhimento, proteção e acompanhamento efetivo.

Inclusive considerando a nova forma de violência sofrida hoje pelas mulheres em todo o país: a violência digital. Para tanto, a conscientização no mês de agosto deve seguir para além da importância de denunciar, mas também para a importância das políticas de gênero. A ascensão de movimentos misóginos em redes digitais funciona, se não como reforço, inevitavelmente como uma permissão social para a violência contra as mulheres, inclusive a violência doméstica, a qual o mês de agosto faz referência ao combate.

Este ano teremos oportunidade de renovar nossos representantes no Congresso e precisamos efetivamente contar com lideranças e pessoas eleitas que realmente legislem considerando criar e/ou atualizar políticas públicas que combatam a violência contra mulheres.

Emiliane sobreviveu depois de cinco dias de violência extrema. O caso reforça uma reflexão que precisa ultrapassar o mês de agosto: não basta dizer às mulheres que denunciem. É preciso garantir que, quando elas pedirem proteção, o Estado esteja preparado para protegê-las a tempo.

Canal Viva sem Violência

Diante de situações de violência doméstica, acolhimento e orientação podem ser decisivos. O “Canal Viva sem Violência”, criado pelo Sindicato dos Bancários e Bancárias de Brasília, oferece atendimento humanizado, sigiloso e gratuito, com apoio e orientação jurídica para mulheres em situação de violência doméstica.

O atendimento é feito via WhatsApp pelo número (61) 9292-5294.

Informação, acolhimento e acesso à orientação também fazem parte da rede de proteção às mulheres.

*Zezé Furtado é secretária de Mulheres do Sindicato dos Bancários de Brasília

**Elis Regina Camelo é secretária-geral do Sindicato dos Bancários de Brasília

***Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha do editorial do jornal Brasil de Fato – DF.


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Editado por: Clivia Mesquita

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