Basta de violência

Após caso Emiliane, ato expõe limites da rede de proteção às mulheres em Águas Lindas (GO)

Mobilização nesta terça (25) cobra atendimento 24 horas e denuncia barreiras para vítimas acessarem serviços

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Mobilização de mulheres em Águas Lindas; caso Emiliane reacendeu cobranças por uma rede de proteção que atue antes que a violência chegue ao feminicídio
Mobilização de mulheres em Águas Lindas; caso Emiliane reacendeu cobranças por uma rede de proteção que atue antes que a violência chegue ao feminicídio | Crédito: Donavan Sampaio

Movimentos sociais, sindicatos, partidos políticos e moradores de Águas Lindas de Goiás realizam, nesta terça-feira (25), um ato contra a violência às mulheres após o caso de Emiliane Tamara Nunes Carvalho, de 24 anos, que foi sequestrada e mantida por cinco dias em cárcere privado no município. A manifestação está marcada para as 15h, na Rotatória da Santa, no Jardim Brasília.

Com o chamado “Chega de violência contra as mulheres em Águas Lindas”, a mobilização cobra do poder público o fortalecimento da rede de proteção às vítimas de violência, com ampliação dos equipamentos de atendimento, funcionamento 24 horas dos serviços, melhorias na saúde, no atendimento psicossocial e no transporte coletivo do município.

Sara Oliveira Lins, da coordenação do Movimento de Mulheres Olga Benario, explica que a repercussão do caso de Emiliane levou as organizações a convocarem a manifestação enquanto a violência contra as mulheres está no centro do debate público.

“A gente escolheu fazer agora exatamente para aproveitar toda essa comoção e trazer atenção para as violências às quais as mulheres estão submetidas e que podem encontrar todos os dias”, afirma.

Emiliane desapareceu em 17 de agosto, depois de sair de uma clínica em Águas Lindas. Ela foi localizada na sexta-feira (21), amordaçada e acorrentada a uma cama em uma casa no Jardim América III. O ex-companheiro da jovem foi preso em flagrante e teve a prisão convertida em preventiva.

Segundo a Polícia Civil, o imóvel teria sido alugado para manter Emiliane em cárcere privado. Após ser resgatada, a jovem relatou ter sofrido diferentes formas de violência durante os cinco dias em que permaneceu no local.

Pedido de proteção antes do sequestro

Antes do crime, Emiliane já havia recorrido ao sistema de Justiça em busca de proteção contra o ex-companheiro. Segundo informações divulgadas pelo Tribunal de Justiça de Goiás (TJGO), ela obteve uma medida protetiva em 2020, válida por 180 dias, e fez um novo pedido em 2026.

No pedido mais recente, Emiliane relatou episódios ocorridos entre dezembro de 2025 e março deste ano, incluindo danos a uma câmera de segurança e outras situações que atribuía ao ex-companheiro. O Ministério Público se manifestou pelo indeferimento e a Justiça negou a medida ao considerar que não havia elementos objetivos suficientes para relacionar o homem aos episódios relatados e demonstrar situação atual de risco.

Para o movimento feminista, o caso coloca em discussão a capacidade do Estado de agir antes que a violência se agrave. “Como alguém chega falando que está sofrendo uma coisa e o Judiciário não acredita? Como a gente vai realmente confiar que o Estado vai garantir essa proteção a que a gente tem acesso como mulher?”, questiona Sara Lins, do Movimento Olga Benario.

Ela ressalta que o movimento continua orientando mulheres em situação de violência a buscarem medidas protetivas, embora considere que o instrumento, sozinho, não seja suficiente para impedir as agressões.

A gente defende que a medida protetiva é importante, que ela tem que ser pedida. A gente sabe que ela não resolve os casos de violência, mas sempre incentiva [o registro]”, diz.

Limites da rede de proteção

Além da resposta do sistema de Justiça, o ato pretende chamar atenção para as dificuldades enfrentadas pelas mulheres para acessar serviços de proteção no próprio município.

De acordo com informações levantadas pelo Movimento de Mulheres Olga Benario, a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam) de Águas Lindas funciona de segunda a sexta-feira, das 8h às 20h. Já o Centro de Referência da Mulher Brasileira (CRMB) atende de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h.

Para o movimento, a ausência de atendimento especializado durante todo o dia e aos fins de semana limita as possibilidades de buscar ajuda justamente em situações que não obedecem ao horário de funcionamento dos equipamentos.

A mobilidade dentro do município é outro problema apontado pelas organizadoras. Lins afirma que a precariedade do transporte coletivo interno cria mais uma barreira para mulheres que precisam chegar a delegacias, unidades de saúde ou serviços de assistência.

“Como as mulheres vão sair de um extremo do município para ir até a delegacia?”, questiona.

Segundo ela, a dificuldade também afeta mulheres que precisam realizar acompanhamento psicológico, buscar documentos ou acessar outros serviços públicos. Por isso, a melhoria do transporte coletivo aparece entre as reivindicações da manifestação.

O movimento também cobra melhorias na rede municipal de saúde e no atendimento psicossocial. Segundo Sara, a dificuldade para acessar esses serviços agrava a vulnerabilidade de mulheres que precisam de acompanhamento após situações de violência.

Três mortes em cinco dias

O caso de Emiliane ocorre meses após uma sequência de mortes de mulheres que chamou atenção desse tipo de crime no município. Em dezembro de 2025, três mulheres foram mortas em um intervalo de cinco dias em Águas Lindas, em casos noticiados à época como feminicídios.

Entre elas estavam Larissa Conceição Amaral, Jennifer Caroline Torres da Costa Sousa e Marinalva Silva Braga. Os crimes ocorreram entre os dias 14 e 18 de dezembro.

Para o Movimento de Mulheres Olga Benario, a sucessão de episódios reforça a necessidade de políticas capazes de atuar antes que as agressões cheguem ao feminicídio.

“Só as mulheres organizadas e unidas vão conseguir lutar efetivamente contra toda essa violência”, afirma Sara.

Além do ato, o movimento prepara um encontro de mulheres para domingo (30), à tarde, na Feira Central de Águas Lindas. Segundo Sara, a proposta é dar continuidade ao debate sobre segurança, direitos e políticas públicas no município.

As organizações também articulam a participação de Águas Lindas em uma jornada nacional contra estupros e feminicídios prevista para 9 de setembro.

Serviço

Data: 25/08

Horário: a partir das 15h

Local: rotatória da Santa, Jardim Brasília – Águas Lindas de Goiás


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Editado por: Clivia Mesquita

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