Rede no limite

DF repete orçamento abaixo das necessidades para acolhimento de crianças e adolescentes 

MPDFT aponta subdimensionamento desde 2023; unidades operam acima das metas e sem vagas

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Espaço destinado ao acolhimento; MPDFT aponta que unidades da rede operam acima das metas pactuadas e sem vagas disponíveis
Espaço destinado ao acolhimento; MPDFT aponta que unidades da rede operam acima das metas pactuadas e sem vagas disponíveis | Crédito: Divulgação Sedes-DF

O Governo do Distrito Federal (GDF) voltou a ser cobrado pela insuficiência de recursos destinados à rede de acolhimento de crianças e adolescentes. Análise do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) identificou que, entre 2023 e 2026, o orçamento inicial dos serviços tem sido reiteradamente fixado abaixo das necessidades e recomposto ao longo do ano por meio de suplementações.

Diante do cenário, o MPDFT recomendou às secretarias de Desenvolvimento Social (Sedes) e de Economia (Seec) a adoção de providências imediatas para reforçar os recursos destinados às organizações da sociedade civil (OSCs) responsáveis por serviços de convivência e acolhimento. O objetivo é garantir o pagamento das obrigações previstas até 31 de dezembro e evitar a interrupção dos atendimentos.

Para 2026, foram inicialmente reservados R$ 18,8 milhões para o programa analisado, ante R$ 32,4 milhões autorizados em 2025. Em março, mais da metade dos recursos deste ano já estava comprometida e o MPDFT projetava que o dinheiro poderia se esgotar por volta de maio.

Posteriormente, o orçamento recebeu um reforço de R$ 4,25 milhões e chegou a R$ 23 milhões. Ainda assim, em julho, 66% do total já estavam comprometidos e restavam R$ 7,74 milhões para o exercício.

A situação não é nova para quem acompanha a rede. A coordenadora da Comissão de Políticas Públicas do Conselho dos Direitos da Criança e do Adolescente do Distrito Federal (CDCA-DF), Daise Lourenço Moisés, afirma que relatos de insuficiência orçamentária e atrasos nos repasses chegam ao Conselho desde 2025.

Orçamento insuficiente vira rotina

A recomendação do MPDFT aponta que o problema não está restrito a 2026. Entre 2023 e 2026, o órgão identificou um padrão de subdimensionamento da dotação inicial, seguido pelo esgotamento dos recursos durante o exercício e pela recomposição por meio de créditos adicionais.

Em 2023, por exemplo, dotações iniciais de R$ 14,6 milhões e R$ 10,5 milhões destinadas a transferências do Orçamento da Criança e do Adolescente para proteção social básica e especial foram posteriormente suplementadas para R$ 22,5 milhões e R$ 18,1 milhões, respectivamente. Na ocasião, uma nota técnica da Procuradoria do MPDFT concluiu que o orçamento planejado não refletia a necessidade da assistência social.

O MPDFT ressalta que a abertura de créditos adicionais é um instrumento legítimo. O problema ocorre quando o mecanismo é utilizado reiteradamente para financiar despesas que já eram conhecidas ou poderiam ser estimadas antes da elaboração do orçamento.

Daise também aponta a recorrência dessa defasagem. “Toda vez que é aprovado um orçamento, ele sempre está sendo aprovado defasado”, afirma.

Para a conselheira, a situação também está relacionada ao espaço ocupado pela assistência social entre as prioridades do poder público. “Eu entendo que o fato não é falta de orçamento, é falta de prioridade na política pública de assistência social, porque recurso tem. Nós só temos que saber quais são as prioridades”, critica.

Na recomendação, o MPDFT identifica ainda falhas na gestão das informações e na articulação entre os órgãos responsáveis. Cabe à Sedes levantar e projetar as necessidades físico-financeiras das parcerias, enquanto a Seec, como órgão central de planejamento e orçamento, deve compatibilizar essas projeções com a elaboração e a execução orçamentária.

Rede atende além do previsto

A insuficiência de recursos ocorre enquanto parte da rede de acolhimento já trabalha sob pressão. Em documento encaminhado ao MPDFT, a própria Diretoria de Serviços de Acolhimento da Sedes informou que diversas unidades operam acima das metas pactuadas e estão sem vagas disponíveis.

O Ministério Público alerta que uma eventual rescisão dos termos de colaboração por inadimplemento poderia exigir o remanejamento emergencial de crianças e adolescentes. A mudança poderia provocar ruptura de vínculos e prejudicar os Planos Individuais de Atendimento e os acompanhamentos escolar, de saúde e psicossocial.

Daise explica que a meta estabelecida na parceria também determina o número de atendimentos financiados pelo poder público. Quando uma organização acolhe mais crianças ou adolescentes do que o previsto, segundo ela, as despesas adicionais acabam sendo absorvidas pela própria entidade.

“Se uma instituição tem uma parceria com o Estado dizendo que ela tem acolhimento para 20 crianças e passa a atender 25 ou 30, esse recurso das cinco ou dez a mais não é reembolsado pelo Estado. Ela paga com recursos próprios”, afirma.

Segundo a conselheira, diante da necessidade de acolhimento, as organizações chegam a retirar recursos de outros projetos para atender quem ultrapassa a meta pactuada. Para ela, a prática acaba mascarando a necessidade de ampliação formal da rede, já que as organizações continuam absorvendo a demanda.

Daise também relaciona a pressão sobre os acolhimentos à falta de expansão dos serviços preventivos. Segundo ela, as metas do Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos, que oferece atividades a crianças e adolescentes, inclusive no contraturno escolar, não são ampliadas desde 2013.

“Se nós temos uma demanda maior no acolhimento ou na população de rua, o fato é porque não se investiu desde 2013 no serviço preventivo”, avalia.

Atrasos atingem folha, alimentação e atendimento

Serviços de convivência desenvolvem atividades com crianças e adolescentes e integram a rede socioassistencial do DF
Serviços de convivência desenvolvem atividades com crianças e adolescentes e integram a rede socioassistencial do DF | Crédito: Divulgação Sedes-DF

Quando o repasse atrasa, no entanto, as despesas das organizações continuam. Segundo Daise, no fim de 2025, OSCs chegaram a permanecer três meses sem receber recursos. A situação foi comunicada ao CDCA, à Promotoria da Infância e a outros órgãos e chegou a ser discutida em sessões de mediação no Ministério Público do Trabalho.

Os efeitos aparecem em despesas básicas para manter os serviços funcionando.

“Você atrasa a folha de pagamento dos funcionários, a parte da alimentação fica prejudicada, o atendimento de uma maneira geral, o material pedagógico não se compra, a gente atrasa pagamento de fornecedores”, relata Daise.

Além das dificuldades imediatas, atrasos em contas, encargos e pagamentos a fornecedores podem gerar multas e juros. Segundo a conselheira, isso reduz ainda mais o dinheiro disponível para as atividades destinadas diretamente aos usuários dos serviços.

As OSCs executam, por meio de termos de colaboração com o poder público, serviços que integram a política de assistência social. Dessa forma, uma eventual interrupção das atividades das entidades não elimina a responsabilidade estatal pelo atendimento.

Daise alerta que a combinação de repasses irregulares, orçamento insuficiente e valores considerados defasados pelas entidades ameaça a continuidade da rede parceira.

“Do jeito que está, se as OSCs não receberem os recursos pontualmente nas datas, no início do mês, e se não for revisto o valor de referência para ser um valor digno para se fazer um atendimento com qualidade, as OSCs vão fechar as portas”, afirma.

Segundo a conselheira, caso isso ocorra, a demanda retornaria diretamente ao poder público. Ela avalia que o Estado não dispõe atualmente de equipamentos suficientes para absorver todos os atendimentos executados pelas organizações parceiras.

Sedes diz que ainda analisa medidas

Sedes afirma que fará levantamento atualizado das necessidades das parcerias responsáveis pelos serviços
Sedes afirma que fará levantamento atualizado das necessidades das parcerias responsáveis pelos serviços | Crédito: Flávio Anastácio/Sedes-DF

Procurada pelo Brasil de Fato DF, a Secretaria de Desenvolvimento Social informou que recebeu a recomendação do MPDFT e está analisando as medidas propostas.

Segundo a pasta, serão realizadas, em articulação com a Secretaria de Economia, “análises técnicas, físico-financeiras e orçamentárias” para definir as providências a serem adotadas, inclusive em relação ao planejamento dos recursos para 2027.

A Sedes afirmou ainda que fará um levantamento atualizado das necessidades das parcerias sob sua gestão e que, após a conclusão das análises, encaminhará ao Ministério Público as providências adotadas dentro do prazo estabelecido.

Questionada sobre quanto ainda é necessário para garantir os serviços até dezembro, quantas OSCs e crianças e adolescentes são atendidos, o número de unidades acima das metas pactuadas e a existência de demanda reprimida por acolhimento, a Sedes não apresentou esses dados na resposta encaminhada à reportagem.

MPDFT cobra correção para 2027

Além da suplementação imediata para 2026, o MPDFT recomendou que Sedes e Seec mudem a forma de planejar esses recursos para os próximos exercícios.

Para 2027, a orientação é que a dotação inicial seja suficiente para cobrir as obrigações financeiras previstas nas parcerias vigentes e as necessidades oficialmente projetadas. O órgão também recomendou que os recursos destinados ao atendimento de crianças e adolescentes não sejam contingenciados.

Sedes e Seec deverão estabelecer um fluxo permanente de articulação para que as necessidades das parcerias sejam incorporadas ao planejamento orçamentário e criar mecanismos para acompanhar a suficiência dos recursos, o cumprimento dos cronogramas de repasse e eventuais riscos de descontinuidade.

Os órgãos têm 20 dias, a partir do recebimento da recomendação, para informar ao MPDFT as providências adotadas. A resposta deverá incluir uma memória de cálculo individualizada por parceria, com valores previstos para 2026 e 2027, créditos adicionais, recursos empenhados, liquidados e pagos e o saldo necessário para cumprir as obrigações deste ano.

A suplementação do orçamento de 2026 deverá ser efetivada em até 30 dias. Em caso de descumprimento, ausência de resposta ou apresentação de informações inconsistentes, o MPDFT poderá adotar outras medidas, entre elas o ajuizamento de ação civil pública e a comunicação dos fatos ao Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF).


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Editado por: Clivia Mesquita

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