Entre as mais de 7 mil ilhas, sendo 13 países soberanos e 17 territórios dependentes, que existem no mar do Caribe, região do globo com maior concentração de paraíso fiscal, Cuba e Haiti são ovelha negra. Com suas trajetórias revolucionárias e independentistas, abolicionistas ou socialistas, atraíram a ira das potências dominantes que nunca perdoaram tamanha ousadia.
Apesar de sua proximidade geográfica — apenas 80 quilômetros separam a ponta do Môle Saint Nicolas, no noroeste haitiano, da Punta de Maísi, na costa leste cubana —, o isolamento forçado desses dois países é tão grande que é preciso, para um haitiano, fazer duas ou três escalas internacionais, desembolsar mais de US$ 1.000 e correr atrás de vários vistos para poder finalmente pousar no aeroporto José Martí, em Havana.
Esse foi o itinerário que o economista e professor Camille Chalmers, coordenador da organização haitiana PAPDA, teve que percorrer para marcar presença na IV Assembleia Continental da Alba Movimentos. Organizado na capital cubana neste mês, o encontro celebrou, ao lado do povo cubano e de dezenas de organizações populares internacionais, o centenário do nascimento de Fidel Castro.
Para Chalmers, não se poderiam poupar esforços para reafirmar a perenidade da amizade haitiano-cubana e os laços de solidariedade que unem os dois países em contextos tão adversos. “A nossa presença na Assembleia se inscreve numa atitude contínua de solidariedade [com Cuba]. Mas hoje, especialmente, pensamos que tem uma urgência e uma necessidade de estar presente em Havana […] para se juntar a todos os esforços que o povo cubano tem feito para se defender frente à agressão imperialista”, declara, em entrevista ao Brasil de Fato.

Hoje, o bloqueio econômico que Cuba enfrenta há 60 anos, imposto pelos Estados Unidos para sufocar a revolução socialista, alcançou seu ponto mais crítico. Com a invasão da Venezuela em 3 de janeiro, a ilha perdeu um dos seus mais importantes aliados e fornecedores de petróleo. A falta de energia afeta não apenas o cotidiano das pessoas, mas também o funcionamento de instituições, escolas, transporte e hospitais, com consequências dramáticas em vidas humanas.
No Haiti, os meios de intimidação usados pelo imperialismo são outros, mas a finalidade é a mesma: golpes sucessivos, liquidação da soberania alimentar e abastecimento de grupos armados que aterrorizam a população e impedem o exercício da democracia visam à destruição do Estado de direito e ao retorno de uma certa ordem neocolonial no “pátio traseiro” dos Estados Unidos.
Segundo Chalmers, o isolamento sistemático, a desinformação e o apagamento histórico também fazem parte dessa guerra silenciosa. “As pessoas não podem saber que esses dois países fizeram revoluções, que trabalhadores escravizados [haitianos] conseguiram elaborar uma estratégia para derrubar os três maiores impérios da época e que Cuba conseguiu fazer uma revolução de transição para o socialismo a apenas 140 quilômetros da maior potência capitalista. Ninguém pode saber disso. E, quando se fala sobre, é para ser visto como um fracasso, algo que não funcionou.”
Médicos cubanos
No entanto, o que esses dois povos têm em comum é também um forte espírito de dignidade e de compromisso com a luta. Neste sentido, a melhor resposta que podem dar às ameaças e à opressão imperialista está justamente na entreajuda e na valorização mútua, seja no âmbito cultural, humano ou científico. Desde 1998, é o que faz a Brigada Médica Cubana no Haiti, com 65 profissionais da saúde atuando em toda a região sul do país.
O Dr. Guillermo Mora García, coordenador da Brigada, ressalta que esses 28 anos foram de presença ininterrupta, enfrentando, junto aos haitianos, todas as dificuldades que o país atravessou, desde o terremoto e desastres climáticos, passando pela pandemia de Covid-19, até a crise política e de segurança que continua paralisando o desenvolvimento da região.
“Estamos no Haiti compartilhando nossos conhecimentos, nossa ciência e as mesmas dores, os mesmos sacrifícios que sofre o povo haitiano”, explica García ao Brasil de Fato. O foco da missão da brigada está nas zonas mais recuadas, mais distantes das infraestruturas de saúde públicas e onde as condições de vida são mais precárias. “Estamos nos lugares de mais difícil acesso, sempre junto a camaradas haitianos, e trabalhando para o povo num espírito de solidariedade humanista e vocação pela promoção e prevenção de doenças.”

Esta postura de trabalhar junto em vez de querer impor seu modo de fazer ou substituir o Estado haitiano, como fazem muitas organizações internacionais, é a marca fundamental da Brigada. Sua atuação se dá mediante um convênio com o Ministério haitiano da Saúde Pública e da População, dentro da rede de Saúde Pública, sempre ao lado de médicos e sanitaristas nacionais.
“Nosso trabalho não seria possível sem o apoio e a presença de profissionais haitianos de altíssima qualificação científica, que estão sempre em primeira linha junto com os nossos médicos”, reforça o coordenador da brigada, reforçando que o país conta com prestigiosas instituições de saúde. A principal carência do setor está na quantidade de médicos disponíveis, sendo apenas três a cada 10 mil habitantes no Haiti — a título de comparação, são 30 no Brasil e 100 em Cuba.
As áreas de atuação da brigada vão da medicina geral à intervenção cirúrgica, incluindo a formação e participação em programas específicos de promoção da saúde pelas autoridades locais. O intercâmbio científico também constitui um eixo fundamental da presença cubana no Haiti, com a organização de jornadas e seminários bilaterais. Quanto aos brigadistas, eles ficam geralmente em torno de três anos em imersão no país, aprendendo a língua crioula e trabalhando a serviço da população.
“Nas brigadas cubanas do mundo inteiro, os profissionais que prestam serviço à população o fazem com amor, com dedicação, e porque uma parte da nossa formação como médicos inclui o internacionalismo proletário”, observa García. “Para os cubanos, o Haiti é um povo que merece todo o respeito, a consideração, a nossa amizade e, obviamente, a atenção dos nossos profissionais da Saúde, que sempre, ou enquanto o povo decidir, estarão aqui nesta terra irmã.”
É importante ressaltar que a solidariedade cubana em relação ao Haiti se manifestou também em outras áreas ao longo das últimas décadas, com contribuições na agricultura e soberania alimentar, na educação, por meio do programa de alfabetização “Sim, eu posso”, ou na colaboração acadêmica, que permitiu formar mais de mil haitianos em universidades cubanas, a maioria deles em carreira de medicina.
Irmandade histórica
“Precisamos dizer que, entre os povos cubanos e haitianos, há uma longa história de solidariedade que começou em 1495, quando um cacique Tainó foi para Cuba para alertar sobre os crimes cometidos pelos espanhóis e pedir aos Tainós cubanos que organizem a resistência”, conta Camille Chalmers, referindo-se aos povos indígenas que habitavam as duas ilhas antes da chegada de Cristóvão Colombo. “E a história mostrou que a zona na qual esse cacique chegou foi onde aconteceu a maior resistência contra a colonização espanhola”, ressalta.
Ao longo dos séculos 19 e 20, as trajetórias das duas nações rebeldes se cruzaram e interagiram em diversos momentos. A Revolução Haitiana, que aboliu a escravidão e levou à independência do país em 1804, inspirou o levante de escravizados cubanos liderado por José Antonio Aponte em 1812. Mais tarde, a amizade e admiração mútua entre José Martí e o antropólogo haitiano Antenor Firmin alimentaram o projeto de libertação da nação cubana, do qual Martí foi pioneiro.

Chalmers narra que, “quando José Martí morreu em combate, ele tinha dentro da sua mochila um livro de Antenor Firmin intitulado ‘A igualdade das raças humanas'”. Ele insiste também no papel crucial que o diálogo entre diversos intelectuais da região teve na formação da identidade dos povos do Caribe. “José Martí, Antenor Firmin, Ramón Betances, Máximo Gomes e outros estavam trabalhando sobre a ideia de uma confederação das Antilhas, no intuito de criar uma relação entre os povos do Caribe que seja diferente da segmentação que a colonização quis fazer.”
O próprio Fidel Castro relatou, no livro “Fidel e a religião”, fruto de uma conversa com Frei Betto, que sua consciência política e revolucionária se formou, ainda na infância, a partir do contato com migrantes haitianos que trabalhavam nos engenhos cubanos. O contato com essas famílias lhe permitiu conhecer a cultura e história do Haiti, ao mesmo tempo que lhe fez perceber as injustiças que sofriam, a precariedade de suas condições de vida e a enorme desigualdade social que estruturava então a sociedade cubana.
Quando aconteceu a Revolução Cubana de 1959, o Haiti vivia sob a ditadura de François Duvalier, que, a mando dos Estados Unidos, rompeu as relações com o novo governo. Foi apenas em 1997 que o presidente Jean-Bertrand Aristide restabeleceu o contato diplomático com Fidel Castro, permitindo a abertura de uma embaixada cubana em Porto Príncipe e o início da colaboração que dura até hoje.
“Haitianos e cubanos são dois povos irmãos que, desde 1495 e durante toda a história, nunca se abandonaram. Eles trabalham num mesmo sentido de dignidade, autodeterminação, defesa da soberania, batalha contra a escravidão e toda forma de opressão”, conclui Chalmers, consciente também do impacto que tem a resistência cubana a nível internacional. “A Revolução Cubana é uma chama de liberdade, de dignidade, de esperança para todo povo que deseja afirmar sua soberania e que acredita na possibilidade de construir uma sociedade que não tenha como base uma lógica de predação, uma lógica criminosa de exploração, como o capitalismo.”
