Robótica

Império dos robôs: China demonstra domínio no mercado de humanoides e quebra recordes em Pequim

Com mais de 97% das vendas no 1º semestre de 2026 e máquinas superando marcas de Usain Bolt, país consolida hegemonia

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O robô da Honor Shuangchi que competiu durante a final dos 1500m dos 2º Jogos Mundiais de Robôs Humanoides em Pequim, capital da China. 21 de agosto de 2026.
O robô da Honor Shuangchi que competiu durante a final dos 1500m dos 2º Jogos Mundiais de Robôs Humanoides em Pequim, capital da China. 21 de agosto de 2026. | Crédito: Jiang Chenxing / Brasil de Fato

Em Pequim, a Conferência Mundial de Robôs (realizada de 19 a 23 de agosto) e a segunda edição dos Jogos Mundiais de Robôs Humanoides (do 22 ao 26) representaram a consolidação da China no setor da robótica.

No primeiro semestre de 2026, os fabricantes chineses foram responsáveis por mais de 97% de todos os robôs humanoides vendidos no mundo. As duas maiores empresas do país, Zhiyuan e Unitree, respondem por três quartos desse mercado.

A conferência de robôs reuniu 373 empresas de 26 países e mais de 557 mil visitantes. Em paralelo, os Jogos Mundiais de Robôs Humanoides contaram com 666 equipes de 16 países e 2.056 robôs em 51 modalidades, com o número de empresas participantes aumentando 36% e o de novos produtos, 21%. As máquinas quebraram vários recordes.

Substituição em trabalhos de risco

Nas últimas décadas, uma das prioridades do governo chinês no campo da robótica tem sido o desenvolvimento de máquinas capazes de substituir trabalhadores em ocupações de alto risco. Em 2025, a administração municipal de Pequim lançou um programa para acelerar a automatização de funções perigosas, repetitivas e fisicamente desgastantes, priorizando setores como montagem de veículos, extração mineral e indústria química.

Durante a conferência, a Tecnologia Inteligente 58 apresentou o Dasheng D20, robô humanoide de 1,8 metro desenvolvido para esse fim. Ling Lei, gerente de produto da empresa, descreveu os cenários para os quais o equipamento foi projetado:

“Substituir trabalhadores humanos em situações de risco e reduzir vítimas. Os casos de uso incluem combate a incêndios, neutralização de explosivos e patrulhamento de segurança. Ele também se aplica a cenários industriais, como pintura automotiva, uma atividade com riscos graves à saúde dos trabalhadores. Com o cockpit dedicado, o operador humano permanece longe do local. A inteligência humana compensa as limitações cognitivas do robô”, afirmou Ling Lei.

O produto foi lançado neste ano. Segundo Ling Lei, a comercialização em pequena escala está prevista para o final de 2026, com pedidos já confirmados de bombeiros, agências de desativação de explosivos e clientes industriais.

Robôs para desastres

Em dezembro de 2023, os ministérios de Gestão de Emergências e da Indústria e Tecnologia da Informação editaram uma norma conjunta para acelerar o uso de robôs em ações de prevenção de desastres, operações de resgate e comunicações em áreas de risco. A Tecnologia Inteligente 58 apresentou dois modelos desenvolvidos para esses cenários.

“Este é o nosso cão-robô de reconhecimento de emergência. Com os sensores embarcados, consegue identificar riscos e localizar vítimas em ambientes afetados por desastres. Temos também o cão-robô bombeiro, desenvolvido para cenários de incêndio de alto risco. Ele substitui os bombeiros humanos no combate em proximidade, equipado com um monitor capaz de disparar água a até 60 metros de distância”, disse Zhang Huan, responsável pelos produtos de emergência da empresa.

Inteligência incorporada

O 15º Plano Quinquenal da China incluiu explicitamente a inteligência incorporada, ou seja, robôs controlados por Inteligência Artificial (IA), entre os novos vetores de expansão econômica do país. O desafio central desse campo é desenvolver máquinas capazes de lidar com objetos e situações que se modificam constantemente.

Liang Zhujin é cofundador da Octopus Dynamics, empresa fundada no início de 2026 com foco em modelos de inteligência artificial de propósito geral. No estande da conferência, eles mostraram um problema conhecido dessa área da tecnologia.

“Dobrar roupas é um desafio clássico da inteligência incorporada, com inúmeras dificuldades técnicas. Uma roupa é um objeto deformável: perturbações pequenas alteram completamente o seu formato. Essa variabilidade torna impossível resolver o problema só com modelagem. Além disso, dobrar uma roupa é uma tarefa longa, com várias etapas em sequência. Quanto mais etapas, menor a taxa de sucesso”, explicou Liang Zhujin.

A demonstração foi desenvolvida sobre o modelo de fundação NewWorld V0.5, lançado pela empresa durante a conferência.

Plataforma aberta

O setor de inteligência artificial incorporada tem recebido aportes de grandes conglomerados como Alibaba, Huawei e BYD, além de startups especializadas. A aposta das empresas mais jovens é que modelos generalistas, capazes de aprender em uma área e transferir conhecimento para outra, possam servir como base para aplicações em mercados muito distintos.

O modelo da Octopus Dynamics foi treinado com dados de cenários industriais, domésticos e comerciais. Segundo Liang Zhujin, a capacidade de generalização permite aplicá-lo a contextos tão diferentes quanto linhas de montagem, residências e serviços de cuidado de idosos.

“A nossa visão é construir uma plataforma de produtividade de uso geral: qualquer desenvolvedor que queira atuar em um cenário específico pode adotar a nossa plataforma e implementar soluções de forma rápida”, disse o cofundador.

Recordes e cooperação

Nos Jogos Mundiais de Robôs Humanoides, os resultados superaram marcas humanas em várias provas. Nos 100 metros, o melhor tempo caiu de 21 segundos, na primeira edição, para 9,39 segundos nesta, abaixo do recorde de Usain Bolt. Nos 400 metros, o vencedor completou a prova em 38,15 segundos, contra o recorde humano de 43,03 segundos. Nos 1.500 metros, a marca chegou a 2 minutos e 21 segundos. No salto em distância, a melhor performance passou de 1,25 metro, no ano passado, para 7,97 metros.

Sobre esses avanços, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Lin Jian, disse que o país está disposto a cooperar com o resto do mundo e marcou diferenças com a abordagem de outros países avançados em tecnologia.

“Os esforços da China para desenvolver a nova qualidade das forças produtivas e promover a inovação científica e tecnológica sempre foram fundamentados na abertura, cooperação, benefício mútuo e resultados vantajosos para todos, em vez de barreiras artificiais ou desenvolvimento fechado e exclusivo”, afirmou em coletiva de imprensa.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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