Produzida por e para lésbicas, a Revista Brejeiras surgiu há oito anos pela falta de publicações que falassem da história, da cultura e das questões sociais e políticas envolvendo a comunidade das mulheres LGBT+. Com sete edições, a Brejeiras prioriza temas atuais, mas não se limita apenas às páginas da revista, fazendo parte de um trabalho de mobilização e conscientização lésbica.
“[Naquele final de semana] Estávamos conversando sobre o apagamento das lésbicas, não só nos meios de comunicação, como nos movimentos sociais e no próprio movimento LGBTQIAPN+, porque consta uma narrativa muito marcada e protagonizada geralmente por homens gays, brancos e ricos, deixando para trás as lésbicas, as mulheres trans e travestis. Então, decidimos fazer um veículo nosso, um veículo de comunicação”, conta a editora Camila Marins sobre como surgiu a ideia da revista durante as comemorações do aniversário de uma das editoras, Cristiane Furtado, em um sítio.
A primeira edição foi lançada logo após o assassinato da vereadora Marielle Franco em abril de 2018, com o tema “Dia das Mulheres e as Sapatões”, com foto na capa da cantora Ellen Oléria. Foram feitos só cem exemplares, “porque era o que o cartão de crédito permitia”. Esgotaram nos primeiros 15 minutos. Uma nova impressão garantiu mais 500 exemplares. A edição seguinte já teve mil e trazia na capa a hoje vereadora Mônica Benício, para discutir o apagamento dela como viúva de Marielle.
Além de reportagens, a revista conta com colunas como “Sapateando na Teoria”, para discutir a produção acadêmica sobre temas lésbicos, “Dedilhando”, para discutir a política sexual e as sexualidades, ou “Salivando”, coluna de gastronomia e saberes ancestrais.
Todas as edições da revista são impressas, com exceção da feita durante a pandemia, única online com a capa “Amor em Tempos de Luta”, levando a história de Nicinha e Jurema, casal de sapatas mais velhas da Favela da Rocinha, no Rio de Janeiro.

“Ao contrário do que nos diziam que o impresso estava falido, a gente prova que não. O que estava falido, o que está falido, na realidade, é esse modelo de narrativa única, esse modelo de negócio capitalista, neoliberal”, analisa Marins.
Essa contestação mostra outros aspectos importantes da publicação como veículo de comunicação popular: de fomentar discussões, ampliar a conscientização e promover mobilização, inclusive com reuniões, bate-papos e eventos presenciais, não só no Rio de Janeiro, onde tudo começou, mas em outras cidades e regiões do país, “da favela ao asfalto”.
“A brejeiras, para além de uma publicação, é também um movimento social de organização política”, explica a editora. “É uma ponte, um instrumento mesmo de organização política”.
O tema principal da última edição, “Sexo, Drogas e Lesbianidades”, surgiu, por exemplo, a partir de um seminário na Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro, que discutiu o assunto e a necessidade de políticas públicas para a questão.
A edição foi lançada recentemente na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), na Universidade Federal Fluminense (UFF) e na ocupação Manuel Congo, no centro do Rio de Janeiro, e discute as políticas de saúde mental, o fortalecimento dos Centros de Atenção Psicossocial – Álcool e outras Drogas (Caps AD), a importância dessa política de saúde mental e de uma política de redução de danos.
“A redução de danos foi muito atacada durante o governo Bolsonaro, agora vem sendo retomada e precisa ser fortalecida, porque a gente tem visto o orçamento e políticas serem desviados para chamadas comunidades terapêuticas, e essas comunidades que promovem a cura gay, que é nada mais do que violação de direitos humanos, tortura. A gente precisa denunciar essas comunidades terapêuticas que são muito alicerçadas por um fundamentalismo religioso que promove violação de direitos humanos”, detalha.
“Foi muito bacana poder levar o debate dessa questão LGBT+ e drogas, a questão da redução de danos e a luta antimanicomial para dentro das universidades, em um debate de interlocução entre o movimento social e as pautas universitárias. A gente está muito feliz de poder fazer esse movimento. A saúde mental faz parte da construção do movimento LGBT e da consolidação desse movimento como um movimento social de ampla disputa da democracia”, comemora a editora Cristiane Furtado, destacando que vão participar também de uma mesa na 29ª XXIX Semana da Psicologia da Universidade Veiga de Almeida (UVA).
As editoras da revista também participam da questão legislativa. Marins, por exemplo, é uma das idealizadoras do Projeto de Lei (PL) Luana Barbosa, de enfrentamento ao lesbocídio, e do PL Cassandra Rios, de fomento à produção literária e comunicação popular lésbica. O primeiro PL homenageia Luana, trabalhadora negra e lésbica assassinada pela violência policial. O segundo é o famoso pseudônimo da escritora lésbica Odette Pérez Ríos, que escreveu livros eróticos de muito sucesso e muita censura pelo regime militar.
Os dez anos do caso Luana Barbosa são também um dos temas da recente edição, assim como os 30 anos do 1º Seminário Nacional de Lésbicas (Senale) e a trajetória da líder do movimento negro e lésbico Neusa das Dores, hoje com 82 anos.

