Este mês, que agora agoniza, tem fama ruim. Agosto, mês do desgosto, é reputação e rima. Enquanto transcorria, em 1954, Getúlio Vargas matou-se com um tiro no coração no dia 24. Em 1961, no dia 25, Jânio Quadros renunciou e jogou o país no abismo da crise política. Em 2016, no dia 31, o Senado escreveu talvez a página mais infame da sua história de parcas grandezas. É disso que vamos tratar.
Dez anos se passaram e, agora, nesta segunda-feira, 31, completa-se uma década do impeachment de Dilma Rousseff da Presidência da República sem crime de responsabilidade. Foi uma tentativa de apagar da História ela e o seu partido. “Cassar em definitivo meu mandato é como me submeter a uma pena de morte política”, protestou a presidenta diante dos senadores.
Foi obra de muitas mãos, além daquelas dos 61 senadores que sequestraram os votos de 54 milhões de eleitores. De natureza parlamentar/judicial/política/midiática, o golpe tem muitos pais. Os 61 senadores contribuíram somente com a cereja do bolo.
Antes, o conluio para desfechar aquilo que o ex-ministro do STF, Joaquim Barbosa, chamou de “impeachment tabajara”, arrebanhou, além do lote de ingênuos de sempre, uma fauna diversificada, alojando políticos temerosos da cadeia, juristas de maior ou menor calibre, barões da mídia, o grosso do empresariado, jornalistas patronais, influenciadores, pastores neopentecostais, socialites e subcelebridades do rock nacional. Não faltou a OAB, que, a exemplo do que fizera em 1964, novamente madrugou no apoio a um golpe.
Dez anos depois de degustarem as gestões deslumbrantes de Temer e Bolsonaro, alguns poucos fizeram o seu mea-culpa, mas a grande maioria escolheu um silêncio obsequioso. Entre o anúncio da destituição pelo Senado e o décimo aniversário da canalhice, muita coisa mudou.
Espremida pelo rolo compressor das plataformas digitais e com sua credibilidade fustigada à esquerda e à direita nas redes sociais, a imprensa corporativa perdeu o monopólio da agenda. Sobrevivendo na internet, viu suas tiragens em papel murcharem ou sumirem. É o caso da IstoÉ, uma das publicações mais ferozes contra a presidenta, contra quem disparou uma rajada de capas, traindo uma conduta claramente misógina. Algo similar fez Veja, dona de um bem nutrido histórico de agressões ao PT e suas lideranças. Não se saíram melhor os grandes diários que festejaram o impeachment, que saudaram a ascensão de Temer com ardor juvenil.
No Senado, dos 61 senadores que votaram para derrubar Dilma, apenas oito mantêm hoje suas cadeiras. Entre eles, Ciro Nogueira, presidente do PP e bom amigo do banqueiro Daniel Vorcaro. Dos partidos representados na casa, cinco – PPS, PSC, PRB, DEM e PR – desapareceram por morte morrida, troca de nome ou foram incorporados a outras siglas.
Arauto do golpe, o senador Aécio Neves (PSDB) não ousou disputar a reeleição em 2018, após ser gravado pedindo R$ 2 milhões ao empresário Joesley Batista. Embora destinatário de 51 milhões de votos em 2014, concorreu à Câmara em 2018, conquistando somente 106 mil eleitores. Em 2022, perdeu mais 21 mil votos e fez somente 85 mil, chegando, a duras penas, à 34.ª colocação entre os candidatos em Minas Gerais. Seu partido, a grande força de oposição antes de 2016, desmilinguiu-se. No auge, teve 99 deputados federais e oito governadores. Hoje conta com 18 deputados e um governador.
Algoz de Dilma, o ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha, foi condenado no âmbito da Lava-Jato e cumpriu três anos e cinco meses em regime fechado. Michel Temer, a quem, então, Ciro Gomes descreveu como “o capitão do golpe”, concluiu seu governo registrando 7% de “ótimo” ou “bom”. Em abril de 2018, uma pesquisa presidencial do instituto Datafolha atribuiu-lhe 1% de intenções de voto.
Na Câmara, dos 367 deputados que votaram pela abertura do processo de impeachment, apenas 54 continuam na casa hoje. O voto mais sórdido daquela tarde/noite de 17 de abril de 2016 exaltou o torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra. Sentenciado a 27 anos e três meses de prisão por tentativa de golpe de Estado, seu autor atualmente poupa o verbo e gasta a solidão imposta pela lei pelejando contra caça-palavras.
“Neste momento, me inspiro em Darcy Ribeiro para dizer: não gostaria de estar no lugar dos que se julgam vencedores. A história será implacável com eles”, advertiu Dilma no Palácio da Alvorada, ainda no dia 31, tão logo foi aprovado o impeachment. Para abotoar seu discurso, ela escolheu versos do grande poeta soviético Vladimir Maiakovsky:
“Não estamos alegres, é certo
Mas também por que razão haveríamos de ficar tristes?
O mar da história é agitado
As ameaças e as guerras, haveremos de atravessá-las
Rompê-las ao meio
Cortando-as como uma quilha corta”.
Dilma vive em Xangai e preside o Banco dos Brics, que gerencia bilhões de dólares e financia colossais obras de infraestrutura ao redor do planeta. Tomou posse em 2023 e, findo o mandato de dois anos, foi reconduzida à presidência, embora, por rotatividade, o cargo coubesse à Rússia. Em 2024, recebeu a Medalha da Amizade das mãos do presidente Xi Jinping, maior distinção atribuída a estrangeiros pela China.
Dez anos depois, pode-se dizer que alguns barcos foram à pique, outros estão com o casco avariado e fazem água, enquanto Dilma singra o mar da história, cortando as ameaças como uma quilha corta.
*Jornalista, Ayrton Centeno trabalhou, entre outros, em veículos como Estadão, Veja, Jornal da Tarde e Agência Estado. Documentarista da questão da terra, autor de livros, entre os quais “Os Vencedores” (Geração Editorial, 2014) e “O País da Suruba” (Libretos, 2017).
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.
