A disputa eleitoral deste ano começa no Distrito Federal com vantagem para candidaturas da direita. A governadora Celina Leão (PP) lidera a corrida pelo Palácio do Buriti, enquanto Michelle Bolsonaro (PL) aparece à frente na disputa por uma das duas vagas ao Senado. O cenário ocorre em meio à insatisfação dos brasilienses com áreas como saúde e transporte público, problemas que atravessam diferentes governos sem solução estrutural.
Levantamento da Quaest divulgado em 25 de agosto mostra Celina com 34% das intenções de voto para o governo, seguida pelo ex-governador José Roberto Arruda (PSD), com 20%, e por Leandro Grass (PT), com 13%. Paula Belmonte (PSDB) e Ricardo Cappelli (PSB) aparecem com 3% cada. Na corrida ao Senado, Michelle Bolsonaro (PL) tem 25%, Leila do Vôlei (PDT), 17%, Erika Kokay (PT), 12%, e Bia Kicis (PL), 9%. Como duas vagas estarão em disputa, a segunda cadeira aparece como uma das principais indefinições da eleição.
Para analisar esse cenário, o Brasil de Fato DF conversou com o professor Lúcio Rennó, do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB) e coordenador do Observatório de Políticas Públicas (ObservaDF). Na avaliação do pesquisador, a vantagem conservadora no DF está relacionada a características consolidadas do eleitorado e à capacidade de organização política da direita.
“O primeiro fator decisivo no Distrito Federal é o conservadorismo da população. As pesquisas vêm indicando isso há muito tempo: é um eleitorado muito mais propenso a votar em candidatos da direita do que da esquerda”, afirmou Rennó.
A correlação de forças também aparece na Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF). “Se formos contabilizar as cadeiras na Câmara Legislativa que são de partidos de esquerda, do campo progressista, a gente chega a um número de seis, de 24 parlamentares. Esse cenário dificilmente vai ser alterado nesse processo eleitoral”, afirmou.
Insatisfação não altera vantagem
A força eleitoral do campo conservador ocorre em um contexto de problemas persistentes na prestação de serviços públicos. Saúde e transporte estão entre as áreas que concentram críticas da população e atravessam diferentes administrações sem uma mudança estrutural no cenário.
Rennó relaciona a permanência dessas dificuldades ao período que vai desde o governo de Rodrigo Rollemberg (PSB) até os dois mandatos de Ibaneis Rocha (MDB), que teve Celina Leão como vice-governadora.
“Isso segue sendo um problema. A gente está falando de mais de uma década em que as pesquisas apontam para esses problemas estruturais do Distrito Federal. Sem melhora. O que é muito triste para a população que deles depende, que é a população mais vulnerável”, comentou o professor.
A avaliação negativa dos serviços públicos, não necessariamente se converte em rejeição ao grupo político que administra o DF. Para o pesquisador, a identificação ideológica interfere na maneira como parte do eleitorado avalia o desempenho do governo.
“Tem todo um componente ideológico que minimiza o efeito da avaliação pragmática do desempenho do governo. Isso atenua o impacto das queixas sobre políticas públicas no eleitorado conservador, que se baseia em outras questões para votar”, argumentou Rennó.
Além da identificação política, o pesquisador aponta a capacidade da direita de estabelecer conexão com eleitores de menor renda. Segundo ele, esse grupo também apresenta apoio relevante às candidaturas conservadoras. “A direita no Distrito Federal atinge o eleitorado mais pobre por diversos motivos. Um deles é que a população em geral tende a ser mais conservadora sobre temas políticos controversos”, explicou.
Esquerda dividida e BRB
Enquanto o campo conservador parte de uma posição eleitoral consolidada, a esquerda enfrenta dificuldades de articulação. PT e PSB mantêm candidaturas próprias ao governo, com Leandro Grass e Ricardo Cappelli, respectivamente.
Para Lúcio Rennó, a ausência de uma composição mais ampla reduz a capacidade do campo progressista de construir uma candidatura competitiva para o segundo turno. “O Leandro Grass segue aguardando por uma adesão mais forte do PT, que novamente vem desunida com uma candidatura separada do PSB. Isso reduz drasticamente as chances de qualquer candidato da esquerda pleitear uma vaga no segundo turno”, afirmou.
A crise envolvendo o Banco de Brasília (BRB) e o Banco Master acrescenta uma variável à disputa pelo governo. O episódio atingiu o grupo político que comandou o DF nos últimos anos e passou a integrar o debate eleitoral.
Ibaneis Rocha desistiu da candidatura ao Senado após o desgaste provocado pelo caso e afirmou estar cansado da política. Celina, que ocupava a vice-governadoria durante sua gestão, tem procurado se desvincular das decisões relacionadas à operação e afirma que foi contrária à aquisição do Master.
Para Rennó, a possibilidade de a oposição associar a atual governadora ao episódio pode produzir efeitos eleitorais. “A questão do possível envolvimento da governadora Celina Leão no escândalo do Banco Master e BRB é um elemento importante de campanha. Se o eleitor for convencido de que ela teve alguma responsabilidade, pode afetar a sua campanha negativamente, porque afetou a do Ibaneis”, disse.

Lula e Senado
A eleição nacional também deve interferir nas escolhas do eleitorado do DF. Em 2022, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) obteve a maioria dos votos no primeiro e segundo turno no DF. No primeiro turno, Lula recebeu 36,85% dos votos, já Bolsonaro liderou aquele cenário com 51,65%. No segundo turno, o cenário de vantagem se manteve, Lula com 41,19% dos votos e Bolsonaro com 58,81%.
O cenário deste ano apresenta uma disputa nacional mais equilibrada entre os dois principais campos políticos. A pesquisa da Quaest mostra Lula com 28% das intenções de voto no Distrito Federal, contra 26% de Flávio Bolsonaro (PL) em um dos cenários de primeiro turno. Os dois aparecem tecnicamente empatados dentro da margem de erro de três pontos percentuais.
Para Rennó, esse contexto reduz a capacidade de Lula de impulsionar candidaturas progressistas no DF em comparação com 2022. “O cenário atual é menos favorável a Lula. E isso impacta o processo agora de voto, por exemplo, no Leandro Grass, que vai ter mais dificuldade de atingir uma votação tão expressiva quanto antes. […] São cenários diferentes porque o contexto nacional é diferente”, avaliou.
A relação entre a disputa nacional e a local também aparece na corrida pelo Senado. Michelle Bolsonaro lidera o levantamento, enquanto Bia Kicis busca aumentar seu espaço no eleitorado bolsonarista e Leila do Vôlei tenta preservar uma posição competitiva entre o centro e o campo progressista.
Com Michelle na liderança, a principal indefinição apontada por Rennó está na segunda vaga. “A única dúvida que resta mesmo, a grande incerteza dessa eleição, é a disputa pela segunda vaga do Senado. Muito do segundo voto ainda está indefinido e vai ser decidido só nos últimos dias de campanha”, afirmou.
Como cada eleitor poderá escolher dois candidatos ao Senado, a distribuição do segundo voto pode alterar a ordem apresentada pelas pesquisas e definir uma das vagas ainda em aberto.
Eleitor indeciso
Apesar da vantagem apresentada pelas pesquisas, uma parcela expressiva do eleitorado ainda não definiu sua escolha. Na pesquisa da Quaest, 14% estavam indecisos no cenário estimulado para o governo do DF, enquanto 10% declararam voto branco, nulo ou que não votariam. No cenário espontâneo, quando os nomes dos candidatos não são apresentados, os indecisos chegaram a 63%.
Para Lúcio Rennó, os números também refletem um distanciamento do eleitor em relação à campanha. “Eu sinto um eleitorado muito indiferente ao processo eleitoral. É um eleitorado que não entrou na campanha ainda, que não está entusiasmado, que não se empolga significativamente com nenhuma candidatura posta, que apresenta um certo grau de fadiga, de cansaço da política”, avaliou
O elevado número de indecisos também exige cautela na leitura dos levantamentos. Para o pesquisador, pesquisas eleitorais ajudam a identificar tendências, mas não permitem antecipar o resultado de uma disputa que ainda pode sofrer alterações.
“As pesquisas precisam ser entendidas como fotografias do momento. Elas não têm uma capacidade preditiva futura longa em processos que têm muitas transformações na sociedade”, explicou.
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