Socialismo

‘O triunfo está nas salas de aula’: Cuba inicia ano letivo enfrentando a asfixia energética

Mais de 1,4 milhão de estudantes voltam às escolas em meio a desafios provocados pelo endurecimento das sanções dos EUA

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Início do ano letivo.
Início do ano letivo. | Crédito: Presidencia Cuba

“Iniciar este ano letivo é uma resposta à barbárie colonizadora que tentam nos impor. É a vontade de um povo, de uma Revolução”, afirmou o presidente cubano Miguel Díaz-Canel durante o ato nacional pelo começo das aulas do ciclo 2026-2027, realizado nesta terça-feira (1º) no Paseo del Prado, em Havana.

Em meio à asfixia energética enfrentada por Cuba, mais de 1,4 milhão de estudantes voltaram às escolas, contrapondo-se a um contexto de dificuldades crescentes, que já haviam obrigado a antecipar o encerramento do ano letivo anterior.

Díaz-Canel afirmou que o movimento expressa uma vontade política, pedagógica e de nação. “Que o conhecimento e a paixão por aprender estejam acima de qualquer adversidade. E acredito que, quando isso é alcançado, quando se conquista essa vitória nas salas de aula, nas condições em que isso foi feito, demonstra-se a grandeza de um povo e de uma nação.”

A abertura do novo período escolar foi apresentada pelas autoridades como um desafio que deverá ser “sustentado dia após dia”. A ministra da Educação, Nayma Ariatne Trujillo Barreto, afirmou que o principal desafio será garantir a sustentabilidade do ano letivo e que o sistema educacional buscará assegurar “o máximo possível de atividades presenciais”, embora cada instituição organize o processo de acordo com suas próprias condições.

O início das aulas ocorre após semanas de trabalho para preparar as escolas e criar as condições necessárias. Em declarações à imprensa, Díaz-Canel destacou a participação das estruturas de direção da Educação, dos órgãos responsáveis pela formação, das famílias, das comunidades e de diferentes instituições estatais nesse processo.

Ele também afirmou que, há meses, os responsáveis pela Educação, pelo Ensino Superior e por outros órgãos de formação vêm trabalhando na elaboração de alternativas para enfrentar o novo ano letivo em meio ao bloqueio energético.

“O triunfo está nas salas de aula” é a palavra de ordem com a qual as autoridades cubanas sintetizam o desafio de manter a educação nessas condições.

Entre as dificuldades e o compromisso de não deixar ninguém sem aulas

No Paseo del Prado, entre as pessoas que chegam para deixar as crianças, vestidas com seus tradicionais uniformes escolares, um jovem chama a atenção. Ele chega em uma velha bicicleta, sem pintura, com uma menina abraçada às suas costas.

“Pela manhã, de bicicleta, deixo minha irmã na escola e, alguns dias por semana, vou dar aulas em uma escola de ensino médio que fica a alguns quilômetros daqui”, conta Rubén Mendieva, estudante de Física, ao Brasil de Fato.

Diante da falta de professores, Mendieva, assim como outros estudantes universitários, começou a dar aulas como voluntário em escolas de ensino médio, em disciplinas relacionadas à sua área de formação. “Sinto que essa é a forma que tenho de colaborar nesta situação tão difícil. Ninguém deve ficar sem a possibilidade de estudar”, afirma.

Enquanto tenta, junto com seus amigos e amigas, conciliar as atividades de voluntariado com o dia a dia das próprias aulas na universidade, ele também enfrenta dificuldades para estudar. “Não temos conexão com a internet nem energia elétrica, e assim fica muito complicado manter contato com os professores e conseguir estudar a bibliografia das disciplinas.”

A asfixia energética enfrentada por Cuba atravessa todos os âmbitos da vida cotidiana e afeta diretamente o funcionamento do sistema educacional. A falta de combustível praticamente paralisou o transporte público e mantém o transporte escolar fora de operação, dificultando o deslocamento de professores e estudantes até os centros educacionais.

A essa situação soma-se a instabilidade no fornecimento de eletricidade. Os cortes de energia não apenas deixam as escolas sem iluminação, mas também afetam serviços básicos, como o bombeamento de água. Em meio ao calor do Caribe, as interrupções no fornecimento de energia também dificultam a refrigeração dos alimentos destinados aos estudantes.

As dificuldades decorrentes da crise energética afetaram o desenvolvimento do ano letivo anterior, que precisou ser encerrado antecipadamente, em junho. Em algumas instituições de ensino, foram adotados modelos semipresenciais para manter as atividades docentes. Além disso, durante esse período, as universidades ficaram impossibilitadas de manter as aulas presenciais devido às dificuldades para manter em funcionamento as bolsas estudantis.

“Todos os dias são uma batalha”, afirma Irene de León, professora do ensino fundamental. “Conseguir chegar à escola e fazer com que as crianças também consigam chegar. Imaginem: muitas vezes sem ter conseguido dormir bem, por causa do calor durante a noite ou das tremendas dificuldades que existem nas casas. E o mesmo acontece com a gente, como professores. É muito difícil e muito injusto o que estão fazendo com nossas crianças”, lamenta, com a voz trêmula e à beira do choro.

Mas, apesar das dificuldades, ela garante que os professores estão decididos a continuar. “Temos que seguir em frente, fazendo a Revolução, educando como sempre fizemos. Esta Revolução educou este país e não vamos deixar que nos tirem o que temos de mais sagrado, que é a educação de nossas crianças”, afirma.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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