Os conflitos agrários voltaram a crescer no Brasil, segundo o levantamento da Comissão Pastoral da Terra (CPT) com dados do 1º semestre de 2026, divulgado nesta quarta-feira (2). Foram registrados 841 casos de violência no campo entre janeiro e julho deste ano, contra 798 casos no mesmo período de 2025, um aumento de 5%. Em 2025, houve uma redução considerável de casos em relação a 2024, de 28%.
Para a CPT, os dados divulgados no meio do ano “servem como instrumento de avaliação das tendências de possíveis conflitos no campo”, além de ajudar a consolidar análises para o relatório anual “Conflitos no Campo Brasil”, a ser lançado em 2027.
O Centro de Documentação Dom Tomás Balduino, da CPT, divide os números em três eixos: 711 registros de conflitos de terra, 100 de água e 30 ocorrências de trabalho escravo rural. Nos casos de disputa de terra, a principal violência foi a utilização de agrotóxicos para tentar expulsar e contaminar os povos do campo. Dos 711, 169 estavam relacionados aos venenos. Invasão aos territórios vem em segundo lugar, com 109 casos. Em seguida, desmatamento ilegal (107).
Os estados do Maranhão (153), Bahia (76), Pará (68) e Rondônia (54) seguem liderando os registros de ocorrências de violência no eixo terra. Em quinto lugar, o Amazonas registrou um aumento de 140% das ocorrências, com 52 registros de conflitos.
Os conflitos por água mais do que dobraram em relação ao primeiro semestre do ano passado (de 47 para 100 registros), em 20 estados. O Pará teve o maior número de registros (com 16 ocorrências). No início do ano, o estado foi palco das manifestações indígenas no Tapajós contra a privatização dos rios. Minas Gerais foi o segundo estado (com 11), seguido do Amazonas e Mato Grosso (com 10 conflitos cada).
Os dados de ocorrências de trabalho escravo rural somaram 355 trabalhadores resgatados, mas a CPT aponta atraso no envio de dados da Secretaria de Inspeção do Trabalho para o número mais preciso. São Paulo registrou o maior número de trabalhadores resgatados (148) em cinco casos, três envolvendo plantio e corte de cana-de-açúcar.
As manifestações de luta, importante estratégia das comunidades para denunciar e garantir direitos, tiveram um pequeno aumento nos registros (de 253 para 284). Foram eventos como atos públicos, marchas, romarias, bloqueios, ocupações de prédios públicos e outras mobilizações.
Metodologia
Os levantamentos da CPT são realizados com base nas fontes coletadas pelos agentes da organização em todo o Brasil, nas notícias veiculadas pela imprensa ou informações divulgadas por órgãos públicos, movimentos sociais e organizações parceiras.
O conceito de conflito para a CPT não é sinônimo de violência. “Seguindo o próprio fundamento teológico da tarefa de documentar, o conflito compreende um contexto de disputa, presente no cotidiano, que inclui as violências sofridas e também as ações de resistência e enfrentamento que acontecem em diferentes contextos.”
