AGROECOLOGIA

Monoculturas e agrotóxicos fragilizam territórios e exigem soluções baseadas na natureza

Semana de Ação Climática de Porto Alegre debateu impactos da soja e da silvicultura sobre biodiversidade, água e saúde

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Evento reuniu representantes de movimentos sociais, pesquisadores e agricultores para discutir alternativas de produção capazes de fortalecer a resiliência climática dos territórios
Evento reuniu representantes de movimentos sociais, pesquisadores e agricultores para discutir alternativas de produção capazes de fortalecer a resiliência climática dos territórios | Crédito: Thiago Correa

A expansão da monocultura da soja e da silvicultura, o uso intensivo de agrotóxicos e os impactos desse modelo sobre a biodiversidade, os recursos hídricos e a saúde estiveram no centro do debate “Transformação dos Sistemas Produtivos para a Resiliência Climática: os desafios impostos pela expansão da soja, da silvicultura e do uso de agrotóxicos e o potencial das soluções baseadas na natureza”. A atividade foi realizada na terça-feira (22), no Teatro Olga Reverbel, no Multipalco Eva Sopher, em Porto Alegre.

O encontro integrou a programação da 1ª Semana de Ação Climática de Porto Alegre e reuniu representantes de movimentos sociais, pesquisadores e agricultores para discutir alternativas de produção capazes de fortalecer a resiliência climática dos territórios.

Organizado pelo Instituto Preservar, Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Federação dos Trabalhadores na Agricultura no Rio Grande do Sul (Fetag-RS), Produtores Gaúchos Unidos, Centro de Assessoria Multiprofissional (CAMP) e Periferia Feminista, o painel integrou o eixo dedicado à transformação da agricultura e dos sistemas alimentares.

Na abertura, a mediadora Lara Rodrigues, da direção nacional do MST, destacou que a Semana de Ação Climática nasceu da articulação da sociedade civil e foi construída coletivamente ao longo dos últimos meses. “A Semana do Clima nasceu de uma articulação da sociedade civil desde os meses de março e abril deste ano. O que a gente quer dizer é que essa Semana do Clima é construída por várias organizações. Ao longo desses meses foi sendo construída, de forma horizontal e colaborativa, uma programação plural, diversa e comprometida com o debate que coloca a vida no centro das decisões.”

Rodrigues também agradeceu às organizações envolvidas e afirmou que o debate sobre mudanças climáticas não pode ficar restrito às emissões de carbono ou às energias renováveis. “Quando pensamos em mudança climática, muitas vezes o debate fica somente concentrado na emissão de carbono, nas energias renováveis e nos grandes eventos extremos. Esses temas são fundamentais, mas não esgotam o debate. Existe uma pergunta que precisa ser feita, e que talvez seja uma das mais importantes da atualidade: que modelo de desenvolvimento e que modelo de produção estão produzindo a crise climática?”

De acordo com Rodrigues, essa reflexão é especialmente necessária no Rio Grande do Sul, onde, nas últimas décadas, ocorreu o avanço acelerado da monocultura da soja, da silvicultura em larga escala e do uso intensivo de agrotóxicos. “O Rio Grande do Sul é uma área experimental do agronegócio, em que não se cuida da vida, se pensa o lucro. Ao mesmo tempo, é o estado que mais vem sofrendo com as crises climáticas.”

Apesar desse cenário, ela ressaltou que existem experiências capazes de apontar outros caminhos. “Algumas respostas são dadas aqui no estado do Rio Grande do Sul, como a nossa experiência do MST na produção agroecológica, que consegue produzir em escala e fazer recuperação do solo.”

‘Os nossos solos e ecossistemas estão com o seu efeito esponja bastante comprometido’, pontuou Vicente Guindani | Crédito: Thiago Correa

Agroflorestas como alternativa para recuperar solos e reter água

Na sequência, o agricultor agroecológico Vicente Guindani, que trabalha com sistemas agroflorestais no Sítio Florestaria Tarumim, em Gravataí, destacou a urgência do tema e a necessidade de construir soluções que ultrapassem experiências isoladas.

Guindani explicou que a atuação reúne prática, pesquisa e ativismo, com o objetivo de contribuir para soluções regionais relacionadas ao uso da terra, à recuperação de áreas degradadas e à produção de alimentos. “Como ativista e pesquisador, acredito que a gente pode contribuir para pensamentos e soluções regionais e comunitárias, para além do nosso sítio. Como podemos lidar com essas questões envolvendo produção de alimento, uso da terra e recuperação de áreas degradadas?”

O agroecologista chamou atenção para a perda da capacidade dos solos de absorver e reter água, fenômeno que agrava enchentes como as registradas no Rio Grande do Sul. “Os nossos solos e ecossistemas estão com o seu efeito esponja bastante comprometido. Cada vez mais vai precisar chover menos para as águas chegarem mais rápido aos rios.”

Segundo Guindani, estudos que comparam a enchente de 1941 com a de 2024 mostram que a água chega hoje com maior velocidade ao Guaíba devido à degradação do solo. “Tem menos solo e menos capacidade de absorver e frear essas águas ao longo do caminho. A gente consegue prever, infelizmente, que, a cada evento, com menos chuva, se chegue mais rápido ainda a situações de inundação e enchente.”

Ao apresentar a experiência do Sítio Florestaria Tarumim, Guindani explicou que os sistemas agroflorestais conciliam a produção de alimentos com a restauração dos ecossistemas.

Professor de Geografia, integrante da Associação de Preservação da Natureza do Vale do Gravataí (APNVG) e mestrando em Ciência do Solo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), ele afirmou que o trabalho busca compreender a relação entre a agricultura e a capacidade do solo de reter água. “Estou fazendo mestrado em Ciência do Solo, justamente focado no entendimento desse popularmente chamado efeito esponja, mas como a agricultura se relaciona com essa função do solo.”

Segundo Guindani, os sistemas agroflorestais permitem integrar espécies de interesse econômico com árvores nativas, contribuindo para recuperar as funções ecológicas do ambiente. “A gente está conciliando o plantio de espécies de interesse comercial, para comercializar em feiras e programas de merenda, mas também está trazendo para a paisagem as espécies nativas, capazes de restaurar as características do bioma.”

Ele destacou que restaurar áreas degradadas significa devolver à natureza a capacidade de prestar serviços ecossistêmicos, como a regulação climática, a retenção da água, o armazenamento de carbono e a produção de alimentos. “Restaurar um lugar tem a ver com devolver a capacidade da natureza prestar os serviços ecossistêmicos, seja de regulação climática, envolvendo o estoque de carbono, regulação hídrica, segurando as águas, provendo alimentos, cultura e tudo que a terra, a partir das suas capacidades, tem.”

Ao comparar diferentes modelos agrícolas, Guindani afirmou que paisagens com grande diversidade de plantas, cobertura permanente do solo e elevada quantidade de matéria orgânica apresentam comportamento muito distinto das áreas de monocultura. “Paisagens assim têm capacidade de segurar uma grande precipitação de uma maneira muito diferente do que paisagens que plantam só uma cultura e têm pouca cobertura de solo, pouca matéria orgânica.”

Na avaliação do agroecologista, o preparo convencional da terra expõe o solo à degradação. “Aquela terrinha marrom, lisinha, que o trator passou e deixou um bolo de chocolate para plantar, aquilo ali é um processo feito para dar tudo certo para dar errado. Do ponto de vista do solo, a tendência é cada vez mais expor uma pele sem proteção, uma pele em carne viva.”

Restauração ambiental com agricultores no centro

Guindani também criticou modelos de restauração ambiental que excluem agricultores e comunidades do processo. Para ele, em muitas situações, a recuperação das áreas degradadas depende justamente da presença humana e do manejo adequado. “Ainda é muito forte a ideia de que o ser humano fora da restauração é uma alternativa viável. Em muitas áreas, a natureza volta sozinha. Mas em outras, se largar mudas de reflorestamento e for embora, elas vão morrer.”

Como alternativa, ele defendeu políticas que integrem o plantio de espécies florestais à produção agrícola. “Se essas mudas forem cuidadas junto com a produção de couve, aipim, frutíferas, integrando um sistema agroflorestal, elas têm muito mais chances de vingarem.”

Segundo o pesquisador, incluir agricultores nos projetos de recuperação ambiental representa uma mudança de paradigma. “Se a gente chega à conclusão de que o manejo do agricultor impulsiona a recuperação dos processos ecológicos e da funcionalidade hidrodinâmica do solo, é um outro paradigma. O ser humano deixa de estar ali só extraindo e passa a melhorar as funções do solo.”

Na avaliação de Guindani, políticas públicas voltadas à restauração ecológica precisam articular produção de alimentos, geração de renda e conservação ambiental. “A gente pode ter respostas muito interessantes, integradas, ambientais, em relação à produção de alimento saudável, geração de emprego e renda.”

Guindani também defendeu uma mudança na forma como áreas de preservação permanente (APPs) e reservas legais são encaradas pelos produtores rurais. “A gente deixa de olhar para a reserva legal, para a APP, para as árvores como inimigas e começa a olhar aquilo como possibilidades de gerar renda, riqueza e manejo sustentável.”

Ao encerrar a participação, voltou a defender investimentos em sistemas agroflorestais e na recuperação da capacidade dos solos de armazenar água. “A questão é voltar a colocar raízes no solo, voltar a colocar matéria orgânica no solo, para que o solo, enquanto produz coisas para nós, também guarde as águas e o carbono.”

O agroecologista ainda chamou atenção para a necessidade de fortalecer políticas públicas já previstas na legislação, como a destinação de recursos oriundos da reposição florestal obrigatória para projetos de agricultura familiar e restauração ecológica. “É um recurso que já existe e que poderia ser direcionado para a agricultura familiar, para os assentamentos, para projetos agroflorestais que favoreçam essa função ecológica do solo, que é reter e guardar as águas.”

‘No Brasil, 75% das nossas emissões são diretamente conectadas com os sistemas alimentares’, afirmou Tatiana Souza de Camargo | Crédito: Thiago Correa

Mudanças climáticas, saúde e sistemas alimentares

A bióloga Tatiana Souza de Camargo, professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e pesquisadora das áreas de Educação Ambiental, Saúde Planetária, sustentabilidade e mudanças climáticas, defendeu que a transformação dos sistemas produtivos passa pela produção de conhecimento, pela educação e pela construção de políticas públicas baseadas na realidade latino-americana.

Ao iniciar a exposição, Camargo explicou que a pesquisa tem se concentrado na relação entre agricultura familiar, educação do campo, mudanças climáticas e justiça climática. “Eu trabalho há 12 anos junto ao curso de Licenciatura em Educação do Campo. Nos últimos anos, a conexão da agricultura familiar, da educação no campo, da produção de conhecimento, junto com a questão da mudança do clima e da justiça climática tem sido o meu cotidiano de pesquisa e de trabalho.”

A professora apresentou dados produzidos para o relatório da iniciativa “Lancet Countdown – Saúde e Mudança do Clima na América Latina”, elaborado como contribuição para a COP30. Segundo ela, um dos principais indicadores mostra que, na América Latina, as maiores emissões de gases de efeito estufa estão ligadas aos sistemas alimentares. “Quando a gente fala de mudança do clima, tem o foco na questão do carbono. É impossível fugir dele. Mas, para a América Latina, o nosso principal foco, quando vai falar em emissões, são os sistemas alimentares.”

No caso brasileiro, cerca de 75% das emissões estão relacionadas à produção de alimentos, destacou Camargo. “No Brasil, 75% das nossas emissões são diretamente conectadas com os sistemas alimentares. A gente não pode fugir dessa questão.”

A pesquisadora ressaltou que a expansão da pecuária, da monocultura, da silvicultura e do uso de agrotóxicos faz parte de um mesmo modelo produtivo. “A produção bovina, a monocultura, a silvicultura e o agrotóxico dialogam no mesmo sistema. São elementos que estão muito conectados dentro de um sistema alimentar.”

Camargo também apresentou indicadores que relacionam impactos ambientais e saúde pública. Segundo ela, os alimentos associados às maiores emissões também aparecem entre aqueles ligados ao aumento das mortes prematuras provocadas por dietas pouco saudáveis. “Se a gente conecta os danos ambientais, as emissões e as mortes prematuras por dietas desequilibradas, vê que existe uma sinergia das causas negativas. E, se existe uma sinergia das causas negativas, existe também uma sinergia positiva possível.”

Outro dado destacado foi a perda de cobertura florestal na América Latina, associada ao avanço das commodities agrícolas, às mudanças no uso da terra e à silvicultura. “A perda de cobertura arbórea também tem a ver com o modelo de produção de alimentos. As coisas se reforçam. É importante entender essas sinergias negativas para compreender as sinergias positivas possíveis.”

Ao abordar os impactos econômicos das mudanças climáticas, Camargo lembrou que 2024 registrou o maior volume de perdas financeiras provocadas por eventos extremos desde 2010 na América Latina. “Em 2024, as perdas econômicas causadas por eventos climáticos extremos somaram cerca de 100 bilhões de dólares. O Brasil foi o país que mais teve aumento dessas perdas, e o evento do Rio Grande do Sul teve uma participação importante.”

A pesquisadora também chamou atenção para a queda da cobertura da imprensa sobre mudanças climáticas e saúde, mesmo diante do aumento dos impactos provocados pelos eventos extremos. “Em 2024, comparado aos anos anteriores, a cobertura mediática sobre mudança do clima caiu, apesar de ser o ano recorde dos impactos econômicos. Isso nos mostra uma disparidade importante.”

Segundo Camargo, o mesmo ocorre na produção científica. Embora tenha crescido o número de pesquisas sobre mudanças climáticas na América Latina, a maior parte ainda se dedica a descrever impactos, enquanto há poucos estudos voltados às estratégias de adaptação e mitigação. “A gente ainda produz muitos artigos falando dos impactos e consegue produzir pouco sobre propostas de adaptação e mitigação baseadas na produção latino-americana.”

Para a pesquisadora, esse cenário é preocupante diante da urgência das adaptações exigidas pela crise climática. “A adaptação não é mais uma opção. Ela é uma necessidade básica para salvar e proteger vidas.”

Educação e ciência para construir soluções locais

Camargo defendeu que os modelos de adaptação precisam ser construídos a partir das realidades brasileiras e latino-americanas, valorizando o conhecimento produzido pelas universidades, pelos movimentos sociais e pelas comunidades. “Se a gente não tem geração de conhecimento baseada no nosso contexto latino-americano, de onde esses modelos de adaptação vão vir? A que interesses eles vão atender?”

Como exemplo, mencionou a decisão da Prefeitura de Porto Alegre de buscar uma consultoria de especialistas holandeses para discutir questões hidrológicas após as enchentes. “Os colegas da Holanda têm muita experiência com diques e com água, mas será que não tinha possibilidades mais próximas?”

Ao encerrar a participação, Camargo afirmou que enfrentar a emergência climática exige fortalecer a educação em todos os níveis, formar profissionais preparados para lidar com a crise e ampliar a produção de conhecimento em parceria com movimentos sociais e comunidades. “Sem educação, sem geração de pesquisadores, sem produção coletiva do conhecimento, a gente não vai chegar a um acúmulo capaz de construir novas políticas públicas.”

Ela concluiu defendendo políticas que permitam ampliar experiências como os sistemas agroflorestais e outras soluções baseadas na natureza. “Sem políticas que deem escala para essas iniciativas, fica difícil. E, sem educação, movimento, geração de conhecimento e pesquisa baseada nas nossas experiências latino-americanas e brasileiras, a gente corre o risco de adotar modelos que não nos servem.”

Editado por: Marcelo Ferreira

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