Dia da Independência

Vietnã completa 81 anos: o que o país socialista conquistou após triunfar na resistência contra os EUA

País reduziu pobreza de 58% para 4% em cinco décadas e tem 94% da população com seguro saúde, segundo a ONU

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Vietnamitas durante desfile para marcar o 50º aniversário da queda de Saigon e o fim da "Guerra de Resistência Contra os Estados Unidos para Salvar a Nação", ns Cidade de Ho Chi Minh - 30 de abril de 2025.
Vietnamitas durante desfile para marcar o 50º aniversário da queda de Saigon e o fim da “Guerra de Resistência Contra os Estados Unidos para Salvar a Nação”, ns Cidade de Ho Chi Minh – 30 de abril de 2025. | Crédito: MANAN VATSYAYANA / AFP

Há 81 anos, em 2 de setembro de 1945, na Praça Ba Đình, em Hanói, o revolucionário vietnamita Ho Chi Minh lia a Declaração de Independência do Vietnã. As forças comunistas resistiram primeiro à França e, em seguida, a uma das maiores e mais brutais agressões militares estadunidenses da história, que terminou com a derrota dos invasores, em 1975.

Hoje o Vietnã registra um dos processos de desenvolvimento social mais acelerados do mundo, tendo conseguido em apenas cinco décadas reduzir a pobreza de 58% para 4% da população, eliminando a fome crônica e se tornando um dos maiores exportadores de arroz do planeta, segundo dados do governo vietnamita e do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).

A estabilidade atual, no entanto, tem raízes em um passado marcado por guerras e pela resistência vietnamita às potências do Norte Global.

A França ocupava a região, incluindo Laos, Camboja e a cidade chinesa de Zhanjiang, desde o final do século XIX, sob o nome de Indochina. Durante a Segunda Guerra Mundial, a partir de 1940, o Império do Japão passou a co-ocupar a Indochina mediante acordo com a França. Em agosto de 1945, com a derrocada japonesa, o movimento Liga pela Independência do Vietnã, comandado por Ho Chi Minh, assumiu o poder na Revolução de Agosto.

O país europeu não reconheceu a declaração de independência vietnamita em 1945 e no ano seguinte passou a combater as forças comunistas lideradas por Ho Chi Minh. A chamada “Guerra da Indochina” foi de 1946 a 1954, quando as forças vietnamitas derrotaram o exército francês em Dien Bien Phu.

A presença militar francesa começou a se enfraquecer só em 1954, quando Paris decidiu negociar uma saída da região. A partir de então, os Estados Unidos, que já vinham financiando a França militarmente de forma significativa, decidiram se envolver mais diretamente na ocupação do Vietnã.

Em 1955, os Estados Unidos boicotaram as eleições previstas nos Acordos de Genebra do ano anterior para decidir sobre a reunificação, já que acordos anteriores haviam definido a divisão do país ao longo do paralelo 17, que cortava o país praticamente “pela metade”, como medida temporária.

O governo dos EUA, sob a presidência de Dwight D. Eisenhower, determinou que o Grupo Consultivo de Assistência Militar (MAAG, na sigla em inglês), que antes apoiava as tropas francesas na região, passasse a treinar o Exército da República do Vietnã, aliado dos EUA. Isso se efetivou em 1º de novembro de 1955, o que é tido como a data oficial do início da chamada “Guerra do Vietnã”.

Apenas três décadas depois, em 30 de abril de 1975, o Exército de Libertação do Vietnã, comandado pelo governo de Ho Chi Mihn, tomaria Saigon, no sul do país.

Mulher passa em frente a um cartaz das eleições para a Assembleia Nacional e os Conselhos Populares em Hanói, capital do Vietnâ - 9 de março de 2026.
Mulher passa em frente a um cartaz das eleições para a Assembleia Nacional e os Conselhos Populares em Hanói, capital do Vietnâ – 9 de março de 2026. | Crédito: Nhac NGUYEN / AFP

A destruição pelos Estados Unidos

A guerra de invasão promovida pelos estadunidenses contra o governo socialista deixou um saldo nefasto. Segundo dados oficiais citados pela agência de Notícias do Vietnã, no total, as ações dos Estados Unidos causaram a morte de quase 3 milhões de pessoas. Cerca de 175 mil soldados continuam desaparecidos e quase 300 mil túmulos seguem não identificados.

Entre os crimes de guerra mais destacados, está o “Massacre de My Lai”, cometido em 16 de março de 1968. Soldados estadunidenses massacraram 504 civis na comuna de Tinh Khe, província de Quang Ngai: 182 mulheres, 173 crianças e 60 idosos com mais de 60 anos, conforme documentos preservados no Museu de Vestígios de Guerra, em Cidade Ho Chi Minh, no sul do país. O caso é um dos mais documentados entre, pelo menos, 320 crimes contra civis registrados num relatório de 9 mil páginas do exército dos Estados Unidos, desclassificado em 1994 e citado por múltiplas fontes vietnamitas.

Além disso, as sequelas são sentidas até hoje. O Corpo Químico das Forças Armadas do Vietnã estima que o exército estadunidense pulverizou cerca de 80 milhões de litros de produtos químicos tóxicos sobre territórios no sul do Vietnã, dos quais 61% eram formados pelo material extremamente tóxico chamado “Agente Laranja”, contendo 366 kg de dioxina, segundo o general Ha Van Cu, comandante do Corpo Químico.

Cerca de 4,8 milhões de pessoas foram expostas à dioxina presente nesses produtos. Entre 3 e 3,2 milhões são consideradas vítimas diretas, sofrendo cânceres, malformações congênitas ou doenças neurológicas.

Os efeitos continuam sendo observados até a terceira e quarta gerações de famílias afetadas. Só na província de Nghệ An, mais de 600 pessoas da terceira geração de ex-combatentes expostos apresentam sequelas. O número de mortes desde 1975 atribuíveis ao Agente Laranja chega a quase 1 milhão, segundo a Previdência Social do Vietnã.

Os militares dos Estados Unidos também lançaram cerca de 15 milhões de toneladas de bombas, minas e projéteis sobre o território vietnamita, segundo a rádio estatal Voz do Vietnã. O país calcula que ainda há 800 mil toneladas de artefatos não detonados que cobrem 20% do território do país; desde o fim do conflito, esses resíduos causaram mais de 40 mil mortes e 60 mil feridos. No ritmo atual de desarmamento de minas, serão necessários 300 anos para eliminá-las completamente, segundo a emissora estatal.

A reconstrução

Em 1975, o Vietnã era uma economia completamente destruída, com campos envenenados e infraestrutura em ruínas. Em 1986, o VI Congresso Nacional do Partido Comunista do Vietnã aprovou as reformas do Đổi Mới (“renovação”), que combinaram planejamento estatal com abertura econômica controlada. De 1990 a 2004, o PIB quase triplicou, com crescimento médio de 7,5% ao ano, segundo dados oficiais. A participação da agricultura no PIB caiu de 38% para 21,7% em duas décadas de reformas, enquanto a indústria e a construção subiram de 28,9% para 40,1%.

Em 1993, 58,1% da população vivia na pobreza. Em 1998, a cifra caiu para 37,4%, e em 2004, para 24,1%, segundo o Escritório Geral de Estatísticas do Vietnã.

Em 2024, a pobreza multidimensional atingiu 4,06%, com a pobreza extrema em 1,3%, segundo o Diário do Povo, jornal oficial do Partido Comunista do Vietnã.

Mulher em uma caminhonete carregada de duriões, como parte de um festival dessa fruta, posa com uma bandeira vietnamita na província de Dak Lak, em 16 de agosto de 2026.
Mulher em uma caminhonete carregada de duriões, como parte de um festival dessa fruta, posa com uma bandeira vietnamita na província de Dak Lak, em 16 de agosto de 2026. | Crédito: Nhac NGUYEN / AFP

A redução da pobreza foi mais lenta entre as minorias étnicas. Em 1993, a taxa de pobreza entre os grupos minoritários era de 84,6%; em 1998, recuou para 75,2%, enquanto a população de etnia Kinh reduzia a pobreza em ritmo mais acelerado, segundo o Escritório Nacional de Estatísticas do Vietnã. A desigualdade entre as planícies e as províncias montanhosas ainda é o principal desafio distributivo do modelo vietnamita.

Em dezembro do ano passado, a 15ª Assembleia Nacional aprovou 423 trilhões de VND (mais de R$ 83,7 bilhões) do Programa Nacional de Metas para Áreas Rurais de Novo Estilo, Redução Sustentável da Pobreza e Desenvolvimento Socioeconômico em Regiões Étnicas Minoritárias e Montanhosas para o período de 2026 a 2035.

Já o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) passou de 0,499 em 1990 para 0,766 em 2023, alta de 53,5% em 33 anos, conforme o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). O Vietnã ocupa hoje a 93ª posição entre 193 países no grupo de desenvolvimento humano.

A taxa de alfabetização entre pessoas de 15 a 60 anos é de 99,1%, e a cobertura de seguro-saúde ultrapassa 95% da população, segundo o Partido. A expectativa de vida média chegou a 74,7 anos, segundo o Escritório Geral de Estatísticas do Vietnã, com base na Pesquisa Intermediária de População e Habitação de 2024.

Em 2025, o Vietnã exportou mais de 8,06 milhões de toneladas de arroz para cerca de 80 países e territórios, faturando cerca de 4,1 bilhões de dólares (mais de R$ 21,1 bilhões), segundo o Departamento de Alfândega.

Vietnã e Cuba: internacionalismo

Cuba foi o primeiro país do hemisfério ocidental a estabelecer relações diplomáticas com o Vietnã e enviou conselheiros e especialistas militares para auxiliar as forças vietnamitas na resistência a agressão estadunidense. Seis deles inclusive morreram por um ataque aéreo dos EUA em Hanoi em 1966.

Fidel Castro é lembrado no Vietnã como um grande amigo do país. Em 1973, Fidel visitou o país e declarou: “Por Vietnam, Cuba está disposta a dar o seu próprio sangue”.

Comandante-em-Chefe Fidel Castro Ruz, em sua primeira visita ao Vietnã, em setembro de 1973
Comandante-em-Chefe Fidel Castro Ruz, em sua primeira visita ao Vietnã, em setembro de 1973 | Crédito: Granma

Nessa visita, Cuba entregou ao Vietnã cinco obras socioeconômicas avaliadas em cerca de US$ 80 milhões: o Hotel Thang Loi em Hanói, o Hospital Vietnã-Cuba em Dong Hoi, a estrada que liga Son Tay a Xuan Mai, uma fazenda de criação de gado em Moc Chau e uma fábrica de frangos em Luong My.

Cuba também doou mais de 1.000 vacas leiteiras para o desenvolvimento da pecuária vietnamita e forneceu mais de 6 milhões de dólares para a aquisição de equipamentos destinados a ampliar a rodovia Ho Chi Minh.

Os laços históricos se mantém e hoje, quando Cuba atravessa uma das piores crises de sua história, o Vietnã tenta retribuir.

Nas comemorações dos 65 anos de relações diplomáticas, em 2025, a Cruz Vermelha do Vietnã lançou uma campanha com meta inicial de 65 bilhões de dongs vietnamitas ( cerca de R$ 12,8 milhões), atingida em 20 dias. A campanha encerrou com 657,5 bilhões de dongs (mais de R$ 130 milhões) entregues a Cuba em duas parcelas, segundo a Cruz Vermelha do Vietnã.

Em 2026, uma nova campanha mobilizou quase 590 mil pessoas e arrecadou mais 537 bilhões de dongs (mais R$ 106 milhões), em homenagem ao centenário de Fidel Castro. O país também doou, em fevereiro de 2026, 250 toneladas de arroz, segundo a Agência de Notícias do Vietnã.

Além disso, o país estreitou suas relações comerciais com Havana e implementou neste ano um projeto conjunto entre a empresa estatal de arroz de Granma, em Cuba, e a companhia vietnamita Thai Binh — presente há anos no setor comercial da ilha —, que recentemente realizou sua primeira colheita no município de Yara.

A iniciativa conjunta, denominada TBAgri, ainda está em fase inicial e atualmente abrange cerca de 160 hectares nos terraços planos da comunidade José Martí. No entanto, o plano prevê uma expansão gradual até alcançar 25 mil hectares destinados ao cultivo de arroz.

O projeto opera sob um modelo de capital 100% estrangeiro e utiliza terras concedidas em usufruto pelo Estado cubano, com duração estimada de 25 anos. Em uma primeira etapa, a produção será destinada principalmente ao consumo interno, tendo como principal objetivo o autoabastecimento territorial.

Editado por: Lucas Estanislau

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