RECONHECIMENTO

Entrega do Prêmio Rubens Paiva reafirma luta permanente pela democracia

A solenidade de entrega lotou a Sala Adão Pretto da Assembleia Legislativa RS na noite desta quinta-feira (3)

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O Prêmio Rubens Paiva é uma iniciativa da Associação de Ex-Presos e Perseguidos Políticos (AEPPP)
O Prêmio Rubens Paiva é uma iniciativa da Associação de Ex-Presos e Perseguidos Políticos (AEPPP) | Crédito: Márcia Turcato

Uma noite para passar a história a limpo, honrar a memória daqueles que lutaram em defesa da democracia e contra as atrocidades da ditadura e reafirmar que a proteção dos direitos humanos é permanente e um dever de todos. Foi o que aconteceu na solenidade de entrega do segundo Prêmio Rubens Paiva, na noite desta quinta-feira (3), na Assembleia Legislativa RS, uma iniciativa da Associação de Ex-Presos e Perseguidos Políticos (AEPPP). 

Este ano foram homenageados, excepcionalmente, na modalidade Ex-Presos e Perseguidos Políticos, duas referências históricas da luta pela democracia no Brasil, o economista e ex-deputado estadual Flávio Koutzii e o jornalista Flávio Tavares.

A Comissão Memória, Verdade e Justiça Enrique Serra Padros, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, recebeu o prêmio na categoria Entidade de Direitos Humanos, e os demais homenageados foram o ex-governador e ex-ministro Tarso Genro, na modalidade Defensores dos Direitos Humanos; o Blog Esquina Democrática, do jornalista Alexandre Costa, na modalidade Meios de Comunicação e Comunicadores; e a coreógrafa, atriz e educadora Marta Haas, do grupo Ói Nóis Aqui Traveiz, na modalidade Juventude.

Homenagens

O presidente da AEPPP, jornalista Sérgio Bittencourt, destacou a importância do trabalho feito pelos homenageados, que colocam “a defesa da democracia e dos direitos humanos em sua missão de vida”. O primeiro deles a receber o troféu Rubens Paiva foi o jornalista Flávio Tavares, 92 anos, que foi preso e torturado no Rio de Janeiro, logo após o golpe de 1964, e depois sequestrado no Uruguai, onde foi torturado por 28 dias, inclusive com a simulação de três fuzilamentos.

O ex-prefeito Raul Pont entregou o troféu a Flavio Koutiz
O ex-prefeito Raul Pont entregou o troféu a Flavio Koutzii | Crédito: Márcia Turcato

O jornalista Flávio Tavares, ao receber o troféu, disse que não sabia porque estava recebendo o prêmio: “afinal eu apenas cumpri com o meu dever de cidadão ao defender a democracia”. Ele relembrou que conheceu Rubens Paiva, ex-deputado federal, em Brasília, quando era comentarista político do jornal Última Hora.

O economista e ex-deputado Flávio Koutzii, ao receber o troféu, afirmou que a “defesa da democracia e dos direitos humanos se torna cada vez mais necessária e urgente”, numa referência às constantes provocações da extrema direita e de grupos fascistas no Brasil. 

A história das Caravanas da Anistia foi relembrada por Tarso Genro ao receber a homenagem. Na condição de ministro da Justiça, no segundo mandato do presidente Lula, Genro implementou as Caravanas que percorreram o país para identificar aqueles que lutaram na defesa da democracia durante o período da ditadura, honrar sua trajetória e conceder indenização. Tarso defende o argumento de que a Lei da Anistia, de 1979, não contempla aqueles que praticaram sequestros e torturas em nome do Estado e concluiu: “o Estado é quem deve um pedido de desculpas às vítimas da ditadura”. 

Comissão da UFRGS com Cláudia Bruno, viúva de Padtos (de vestido longo)
Comissão da UFRGS com Cláudia Bruno, viúva de Padtos (de vestido longo) | Crédito: Márcia Turcato

A professora Roberta Baggio, coordenadora-geral da Comissão Memória e Verdade Enrique Serra Padros (CMV), recebeu o troféu em nome das 11 mulheres que compõem o grupo de trabalho. Roberta estava acompanhada da reitora da UFRGS, Márcia Barbosa, que implementou a comissão em dezembro de 2024, e da viúva de Enrique Serra Padros, Cláudia Bruno, que dá nome à comissão. Roberta Baggio informou que o relatório final do trabalho da comissão será entregue no dia 10 de dezembro, com várias recomendações e com o depoimento de cerca de 60 pessoas, entre servidores, estudantes e professores da UFRGS, que sofreram perseguição durante a ditadura instalada no Brasil com o golpe de 1964.

Os homenageados Alexandre Costa jornalista, e Marta Haas, artista, também receberam seus troféus, e agradeceram a homenagem. Costa salientou a importância de “olhar para o passado para que ele não volte, porque ele está muito presente; essa história ainda não acabou”. E finalizou com o grito de ordem “fascistas não passarão”, sendo seguido por todas as pessoas presentes ao ato. Marta Haas leu o poema “Não se Escolhe”, de Gioconda Belli, que fala sobre o dever de levar o amor na caminhada.

Escolha

Bittencourt explicou o critério adotado para a escolha dos homenageados. “A seleção dos premiados é feita por meio de inscrição nos canais de comunicação da AEPPP e, posteriormente, as inscrições passam pela análise de uma comissão formada pelos promotores do Prêmio Rubens Paiva, que são a AEPPP, o Movimento de Justiça e Direitos Humanos, a Comissão de Cidadania e Direitos Humanos da Assembleia Legislativa, o roteiro histórico Caminhos da Ditadura e o Conselho Estadual Direitos Humanos.”

Essas entidades fazem duas indicações para cada modalidade e a seleção final acontece em votação dos integrantes da AEPPP. Bittencourt foi preso e torturado quando militava no movimento estudantil, tinha 18 anos. Ele foi uma voz potente na campanha pela anistia no Brasil. 

Rubens Paiva

O Prêmio Rubens Paiva é uma homenagem ao ex-deputado federal Rubens Paiva, preso, torturado e morto pela ditadura. Paiva era engenheiro civil, ativista e deputado federal e foi cassado pela ditadura militar. Nascido em Santos em 26 de dezembro de 1929, ele se destacou no movimento estudantil e foi eleito deputado pelo PTB em 1962.

Trajetória:

  • Golpe de 1964: Fez discurso na rádio contra o golpe em 1º de abril de 1964, tendo o mandato cassado logo depois e partiu para o exílio.
  • Prisão: Foi detido em sua casa no Rio de Janeiro em 20 de janeiro de 1971 por agentes da repressão.
  • Morte: Levado ao DOI-Codi, foi torturado e morto no dia seguinte e seu corpo foi ocultado pelos militares, que forjaram uma falsa fuga. O corpo de Rubens Paiva jamais foi localizado.
  • Comissão da Verdade: A investigação oficial comprovou que ele foi executado pela ditadura.
  • Legado familiar: Sua esposa, Eunice Paiva, liderou por décadas a busca por justiça, cuja história inspirou o livro e o premiado filme “Ainda Estou Aqui”.
Editado por: Katia Marko

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