O filme Honestino, dirigido por Aurélio Michiles, está em cartaz nos cinemas brasileiros e nesta quinta-feira (3) foi tema de um debate promovido no espaço Cine Cultura do Liberty Mall, com participação do jornalista e professor universitário aposentado Hélio Doyle, da médica e ex-deputada federal Arlete Sampaio (PT-DF), além do produtor do filme, Nilson Rodrigues. Doyle e Sampaio foram militantes do movimento estudantil da Universidade de Brasília (UnB) nos anos 1970.
O longa documental recoloca no debate público a UnB e a capital do país como palco da repressão no auge da ditadura militar após o golpe de 1964. Michiles apresenta um documentário que se utiliza de imagens complementares dramatizadas pelo ator Bruno Gagliasso interpretando o personagem-título. Com essa combinação de linguagens, o filme narra a trajetória do estudante de geologia que foi o principal nome do movimento estudantil da UnB durante os “anos de chumbo”.
Honestino Guimarães nasceu em Itaberaí, no interior de Goiás, e desapareceu em 1973, aos 26 anos de idade, após cinco anos vivendo de forma clandestina por conta da perseguição do Estado. A família recebeu em 1996 a primeira versão do atestado de óbito, sem referência à causa da morte. Somente em 2013, depois de instituída a Comissão Nacional da Verdade, que apurou os crimes da ditadura, foi confirmado que a morte de Honestino se deu por atos de violência que sofrera por parte dos militares.
Filme em debate
Em entrevista ao Brasil de Fato DF, Nilson Rodrigues declarou que o filme Honestino faz parte de uma retomada do cinema crítico, que expõe para as novas gerações o passado da ditadura militar diante do atual movimento de negacionismo em relação ao golpe operado pelas Forças Armadas e do “discurso fascista que está em curso aí, infelizmente com bastante força, que tenta negar os fatos históricos e construir uma versão que interessa ao fascismo”.
Apesar de produções relevantes sobre a ditadura brasileira, como O pastor e o guerrilheiro (José Eduardo Belmonte, 2023), o vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro Ainda estou aqui (Walter Salles, 2024) e O Agente Secreto (Kleber Mendonça Filho, 2025), além de muitos documentários, o produtor considera que o Brasil ainda não abordou o tema suficientemente.
“Nós precisamos produzir mais sobre esse tema, precisamos difundir mais. Há várias histórias incríveis que precisam ser contadas, histórias duras, histórias tristes, mas há histórias de superação também nesse período que precisam ser contadas”, afirma.
Ao recuperar a história de Honestino Guimarães, o filme também busca enfrentar o apagamento da memória de vários outros militantes perseguidos, presos, torturados e mortos durante a ditadura militar. Dessa forma, a narrativa conta não apenas a história de um único estudante, mas também de um país afundado num contexto de repressão generalizada.
Um exemplo marcante disso é quando o filme relata a repercussão do assassinato do secundarista Edson Luis, morto por policiais militares aos 18 anos de idade em 1968. Esse caso ocorreu no centro do Rio de Janeiro enquanto Honestino Guimarães comemorava o próprio aniversário em Brasília. Ao saber da notícia, o aluno de geologia correu para a UnB convocando uma manifestação.
Para Hélio Doyle, cenas como essa destacam a personalidade de Honestino. O jornalista acrescenta que outro destaque da obra é quando se “retrata a maneira alegre que ele tinha de ver as coisas, a visão profundamente apaixonada que ele tinha e que é expressada em vários momentos, mas principalmente quando ele recusa o passaporte que o Norton (irmão de Honestino) levou para ele”.

Arlete Sampaio elogiou a reconstituição da imagem de Honestino. “Mostra um ser humano com muita dignidade e generosidade, uma pessoa com grande amor pela vida. Ele gostava de música, futebol, cinema e de tudo que era bom na vida. Mas ele resolveu ingressar numa organização política para resistir à violência do Estado que representou a ditadura militar”, pontuou.
Ela destaca que, ao retratar dessa forma, o filme “desfaz o mito que os reacionários tentam construir sobre o que foram os revolucionários, como sendo sangrentos, agressivos e que queriam matar outras pessoas”. O segundo aspecto que Sampaio considera importante se deve à forma como Aurélio Michiles “conseguiu reconstituir o cenário” da ditadura militar.
“É extremamente oportuno cumprir esse papel de resgatar para a atualidade o que foi a ditadura militar. E, sobretudo, demonstrar a vassalagem das Forças Armadas brasileiras aos interesses estadunidenses e também a violência política, a violência integralmente sádica com que eles torturavam as pessoas”, afirmou.
Líder estudantil
Na plateia estiveram vários integrantes das gerações que viveram o período ditatorial para falar sobre a repressão da época e o combate à possibilidade de retorno pelas vias bolsonaristas. Além desses, também participou a atual candidata a vice-governadora do Distrito Federal, Dora Gomes (PV), na chapa com Leandro Grass (PT).
Dora, que também estava na sessão de cinema, ressalta que um dos principais legados de Honestino é deixar uma representação de ativismo político para a juventude. “Ele só tinha 26 anos e escolheu ser sujeito daquela história. Eu acho que uma das melhores homenagens que a gente pode fazer ao Honestino e à lembrança dele enquanto líder estudantil é dar oportunidade para novas lideranças. Essa oportunidade tem que vir por meio da educação para construir um espaço de liberdade e fazer com que a juventude participe das decisões do futuro do nosso país”, conclui a candidata.

Honestino revisita a vida do estudante de Geologia que ingressou na militância política por meio da Ação Popular (AP) e foi preso quatro vezes antes de assumir a presidência da Federação dos Estudantes da Universidade de Brasília (Feub). Mais tarde, já formado e vivendo na clandestinidade em São Paulo, Honestino chegou à presidência da União Nacional dos Estudantes (UNE). Todo esse período é representado no filme por meio da composição interpretada por Gagliasso, gravações históricas da repressão ao movimento estudantil e imagens de arquivo com entrevistas de familiares e camaradas.
A repressão à comunidade acadêmica da UnB se intensificou ao longo dos anos de ditadura. Em 1968, a universidade foi invadida por forças policiais e militares em uma operação que teve entre suas motivações mandados de prisão contra Honestino e outros líderes estudantis. O episódio integra a memória da instituição, que se tornou um dos principais espaços de resistência ao regime de exceção em Brasília.
Quase cinco décadas após seu desaparecimento, a trajetória do estudante continua associada à defesa da democracia e da educação pública. O filme é encerrado com a diplomação póstuma do curso de Geologia promovida pela então reitora Márcia Abraão em 2024.
Nilson Rodrigues, que também roteirizou O pastor e o guerrilheiro, acrescenta que sua próxima produção também vai abordar um tema político em parceria com Marcelo Rubens Paiva, autor do livro Ainda estou aqui. “Um projeto em série sobre o exílio do ex-presidente João Goulart. Esse é o meu próximo projeto de série ficcional de televisão”, adiantou.
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