Entre os 509 expositores do 28º Pavilhão da Agricultura Familiar da Expointer 2026, quilombolas, indígenas e assentados da reforma agrária levam alimentos, artesanato e diferentes formas de produzir ao público da feira. A presença gera renda e amplia a comercialização, mas também abre espaço para lutas por reconhecimento, respeito, terra e contra preconceitos que ainda atingem esses grupos.
Nesta edição, o pavilhão reúne produtores da agricultura familiar de 216 municípios. Entre eles, há oito empreendimentos indígenas e três quilombolas. A reforma agrária também participa por meio de cooperativas e produtores assentados, colocando essas presenças diante de um público numeroso em uma feira historicamente associada aos setores do agronegócio.
Berenice Gomes de Deus, do Quilombo da Anastácia, em Viamão, participa da Expointer com trabalhos produzidos por diferentes comunidades quilombolas. Nas bancas estão bolsas, crochê, tricô e pinturas, além de sabão feito a partir do reaproveitamento de óleo de cozinha.
“Para nós, estar nesse espaço foi uma honra. É maravilhoso porque aqui podemos expor o trabalho feito nas nossas comunidades”, afirma.
‘Nós também existimos’
A comercialização ajuda a gerar renda, mas Gomes de Deus vê a presença quilombola também como parte da luta por respeito e contra o racismo. Ao falar sobre preconceito, ela recupera os séculos de escravidão da população negra e chama atenção para marcas que permanecem nas relações cotidianas.

Um exemplo citado é o olhar de desconfiança que ainda recai sobre uma pessoa negra ao entrar em um supermercado. Mostrar que as comunidades trabalham, produzem e comercializam é, para Gomes de Deus, uma forma de romper esse preconceito e enfrentar estereótipos.
“É mais um espaço onde nós podemos estar e expor o nosso trabalho, para as pessoas saberem que nós também existimos, que há quilombo”, diz. “Quilombola, para aparecer, não é só no 20 de novembro. Tem que aparecer sempre, em todos os lugares”, defende.
Ao recuperar a história da comunidade, Gomes de Deus também fala de resistência pela terra e pelo direito de existir com respeito. “Estamos aqui em várias comunidades, nesse pequeno espaço, mas que para nós se torna grande, porque é onde podemos colocar o nosso trabalho à disposição das pessoas”, resume.
‘Nós também somos agricultores familiares’
A presença indígena com representações das etnias Guarani, Kaingang e Xokleng também combina geração de renda, afirmação cultural e luta por direitos. Júlia Gimenes, da aldeia Mbyá Guarani Guyra Nhendu, conhecida como Som dos Pássaros, em Maquiné, levou à Expointer bichinhos de madeira, paus de chuva, balaios, brincos, colares, apitos e pulseiras.
“Nós também somos agricultores familiares e fazemos artesanato. Por isso, para nós, é importante participar também da Expointer”, afirma.

Ela conta que o artesanato é uma fonte de renda para a comunidade. “Para mim, é importante ter renda, porque nós dependemos do nosso artesanato para vender e comprar as coisas de que precisamos”, relata Gimenes.
Para Gimenes, essa presença não se separa das dificuldades enfrentadas pelos povos indígenas. Ela cita a demarcação das terras como uma das lutas que seguem abertas e relaciona a defesa do território à possibilidade das comunidades manterem o próprio modo de vida.
“Tem que mostrar também para fortalecer. Nossa luta também é muito difícil. Sempre nós batalhamos, lutando, e continua a luta”, afirma.
Reforma agrária disputa imagem
Na banca da Cooperativa dos Trabalhadores Assentados da Região de Porto Alegre (Cootap), arroz orgânico, geleias e extrato de tomate estão entre os produtos levados à Expointer. Para Marcos Johnny dos Reis, assentado de Eldorado do Sul, a participação permite conversar diretamente com pessoas que muitas vezes conhecem o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) principalmente pelos conflitos no campo.
“Aqui é um momento de a gente demonstrar o nosso produto, mostrar que o nosso trabalho é valoroso e que nós cumprimos um grande serviço para a sociedade, que é a preservação da natureza e a preservação ambiental”, afirma.

Segundo Reis, a produção de arroz agroecológico ligada à cooperativa chega a cerca de 280 mil sacas por ano e está em expansão. Ele destaca que o crescimento vem acompanhado da busca por formas de cultivo que preservem o ambiente, entre elas o uso de bioinsumos.
Para o assentado, essa relação entre produção e preservação ganha peso em um período marcado por tragédias climáticas no Rio Grande do Sul. Reis destaca que, diante desse cenário, ampliar a produção com uso de bioinsumos também significa buscar formas de produzir alimentos preservando o meio ambiente.
Parte dos alimentos que não é comercializada diretamente nas feiras vira geleia ou extrato de tomate, reduzindo perdas e criando outras possibilidades de renda. Segundo Reis, os produtos da Cootap chegam a cerca de 50 pontos de feira na Região Metropolitana de Porto Alegre.
Para ele, apresentar essa produção diretamente ao público também ajuda a enfrentar preconceitos contra o MST e a reforma agrária e demonstra a possibilidade de ampliar a produção de alimentos com práticas de menor impacto ambiental. “A reforma agrária tem viabilidade. Precisamos avançar com ela e estruturar melhor os processos produtivos”, defende.
Agricultura familiar também conquistou lugar
Quilombolas, indígenas e assentados da reforma agrária, ao lado de agricultores familiares, estão dentro de um espaço que também precisou disputar presença na Expointer. A primeira Feira da Agricultura Familiar realizada no parque ocorreu em 1999, com 30 expositores. Em 2026 são 509, dos quais 400 agroindústrias familiares, 74 empreendimentos de artesanato, 28 de plantas, mudas e flores e sete cozinhas. Há ainda 69 empreendimentos com certificação orgânica.
Nos cinco primeiros dias, o pavilhão comercializou R$ 5,803 milhões. O valor ajuda a dimensionar o peso econômico alcançado pelo setor na Expointer.
A abertura do espaço ocorreu em uma feira consolidada historicamente em torno da pecuária, das máquinas agrícolas e dos grandes produtores rurais. A presença da agricultura familiar cresceu a partir da organização e da pressão de entidades, cooperativas e movimentos do campo.
Ao lembrar os 25 anos da participação da presença da agricultura familiar, em 2024, o ex-secretário estadual da Agricultura José Hoffmann relatou que a instalação da primeira feira enfrentou resistência no fim dos anos 1990. Segundo ele, adversários chegaram a afirmar que o espaço transformaria a Expointer em uma “favela”. Mais de duas décadas depois, a agricultura familiar consolidou presença na feira.
A 49ª Expointer termina neste domingo (6), no Parque Estadual de Exposições Assis Brasil, em Esteio. O Pavilhão da Agricultura Familiar segue com comercialização direta dos expositores durante o último fim de semana da feira.
