VOZES E TERRITÓRIOS

Canguçu, a cidade dos quilombos no Sul do Brasil, preserva ancestralidade negra

Município gaúcho reúne 16 comunidades certificadas, cerca de 500 famílias e histórias de luta por terra e memória

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Caminhada pelo território do Quilombo Bisa Sabina, que busca reconhecimento oficial em Canguçu, município com 16 comunidades certificadas
Caminhada pelo território do Quilombo Bisa Sabina, que busca reconhecimento oficial em Canguçu, município com 16 comunidades certificadas | Crédito: Rafa Dotti

Em meio às serras do interior sul do Rio Grande do Sul, Canguçu abriga 16 comunidades quilombolas certificadas que mantêm vivos modos de vida construídos a partir da resistência negra. Entre a agricultura familiar, a preservação da ancestralidade e a luta pela terra, mulheres, jovens e lideranças enfrentam o racismo, a invisibilidade e a demora na titulação dos territórios.

Localizada a cerca de 60 quilômetros de Pelotas, Canguçu tem cerca de 50 mil habitantes e forte predominância rural: entre 60% e 70% da população vive no campo. Reconhecido como Capital Nacional da Agricultura Familiar pela Lei 14.638, sancionada em 2023, o município concentra o maior número de minifúndios e pequenas propriedades rurais do Brasil.

Marcada pela colonização alemã e pomerana, a cidade também guarda presença indígena e negra. Os primeiros habitantes da região foram os indígenas Tapes, e o nome do município tem origem indígena. Entre as interpretações registradas, uma associa o topônimo a Caa-Guassu, expressão ligada à ideia de “mata grande” ou “mato grosso”, em referência à vegetação que cobria a encosta da Serra dos Tapes.

Área urbana de Canguçu é cercada por paisagem rural; município reúne 16 comunidades quilombolas certificadas
Área urbana de Canguçu é cercada por paisagem rural; cidade reúne 16 comunidades quilombolas certificadas | Crédito: Prefeitura de Canguçu

A história oficial de Canguçu começa por volta de 1800, na localidade hoje conhecida como Canguçu Velho. Hoje, além da agricultura familiar, a cidade reúne cerca de 500 famílias quilombolas nas comunidades certificadas. Em dez dos 16 quilombos reconhecidos, as lideranças são mulheres.

Refúgio depois das charqueadas

A presença negra no município remonta ao período escravocrata e às rotas de fuga de pessoas escravizadas vindas das charqueadas da região. De acordo com o artigo “Colonização negra nas cidades de Pelotas e Canguçu do Estado do Rio Grande do Sul”, publicado em junho de 2022 na Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação (Rease), Canguçu serviu como refúgio para negros mesmo após a escravidão.

“Sendo que foram instalados vários quilombos nessa localidade, tendo como destaque o quilombo de Maçambique, denominado assim pela figura de um escravo intitulado de Moçambique que lutou pela abolição da escravatura”, aponta o texto.

Do Quilombo Maçambique surge também a origem do Quilombo Lemos, em Porto Alegre, a partir da trajetória de Délzia Gonçalves de Lemos, neta de escravizados nascida em Canguçu. O caso evidencia como deslocamentos de famílias quilombolas do interior e da metade sul do estado também ajudaram a formar territórios negros em áreas urbanas do Rio Grande do Sul.

‘A comunidade quilombola é agroecologia’

No Quilombo Passo do Lourenço, no quarto distrito de Canguçu, a quilombola Tatiana Dias Shug resume a relação da comunidade com o território e a ancestralidade. “Sou da comunidade quilombola Passo do Lourenço Arredores e a gente vive da agricultura familiar. Resgate da nossa comunidade, da nossa família e dos antepassados que foi deixado para a nossa família, a gente cultiva até hoje.”

Tatiana Dias Shug, do Quilombo Passo do Lourenço, relaciona agricultura familiar, memória e ancestralidade à resistência quilombola em Canguçu
Tatiana Dias Shug, do Quilombo Passo do Lourenço, relaciona agricultura familiar, memória e ancestralidade à resistência quilombola em Canguçu | Crédito: Rafa Dotti

Além da produção agrícola, o quilombo preserva manifestações culturais herdadas dos antepassados, como o grupo de dança da comunidade. Shug estima que existam mais de 600 famílias quilombolas no município. Apenas no Passo do Lourenço, são 58 famílias vivendo da agricultura, da cultura e da preservação dos modos de vida tradicionais. “A gente diz que foi reconhecido pela Fundação Palmares faz uns 20 anos, mas meus antepassados… Eu mesma nasci e me criei lá. Meu tataravô resistiu esse tempo todo”, relata.

Ela também recupera a memória das rotas de fuga formadas a partir das charqueadas de Pelotas. “Os fundadores, os primeiros que vieram, vieram fugidos das charqueadas. Pararam lá no Passo do Lourenço. Então o nosso quilombo resiste há muito tempo.”

As lembranças familiares atravessam gerações. “É uma história de sobrevivência. Acho que a gente sobrevive de luta, de amor. Sempre foi passado muito amor. Os saberes foram criados com muita dificuldade.”

A agricultura familiar é a principal fonte de sustento das comunidades, com milho, feijão, hortaliças, pães, doces e artesanato comercializados em feiras e entre moradores vizinhos.

“A comunidade quilombola é agroecologia. Ela sempre produz sem veneno. A gente vem trazendo geração por geração as mudas, as sementes. Então a gente sempre produz orgânico.” Segundo ela, parte da produção também é destinada às escolas por meio de projetos de alimentação escolar.

Mulheres sustentam a organização

A presença das mulheres na organização comunitária aparece como uma das marcas dos quilombos de Canguçu. “Os homens sempre vão para as lavouras, para os serviços mais pesados, e as mulheres sempre ficam indo para as reuniões e reforçando. Então a mulher tem sempre o trabalho de cuidar da família, de cuidar do alimento”, conta Shug.

Das 16 comunidades quilombolas do município, dez são coordenadas por mulheres. Para a vereadora Maica Tainara Soares Ferreira, o dado revela o protagonismo feminino. “As mulheres sempre estão à frente do processo, de luta, de organização”, afirma.

Moradores do Passo do Lourenço e Arredores em frente à associação comunitária, em Canguçu
Moradores do Passo do Lourenço e Arredores em frente à associação comunitária, em Canguçu | Crédito: Arquivo pessoal/Tatiana Dias Shug

A terra no centro da luta

Apesar dessa organização comunitária, a titulação dos territórios segue sendo um dos principais desafios enfrentados pelas comunidades. Todas as 16 comunidades quilombolas de Canguçu foram reconhecidas e certificadas pela Fundação Cultural Palmares ao longo dos anos, em portarias publicadas a partir de 2009. O que falta é a etapa de identificação, delimitação e titulação final das áreas pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).

“A luta do Brasil todo é a titulação da terra e o reconhecimento dos nossos territórios”, afirma Shug. “Hoje a gente não tem esse reconhecimento. Tem processo aberto no Incra, mas está custando para chegar.”

Sem a regularização fundiária, as famílias enfrentam dificuldades para acessar políticas públicas e financiamentos. “Hoje, para fazer um financiamento, os bancos precisam ter terra como garantia, e a gente não tem.”

As dificuldades também se refletem no acesso à educação e à saúde. Na educação, Shug aponta a ausência de escolas quilombolas em Canguçu. “As crianças saem da comunidade e têm que se reeducar para estudar em uma escola branca. Aí perde toda aquela vivência.” Segundo ela, isso impacta diretamente no processo de alfabetização.

Para ela, a mudança depende de políticas públicas efetivas. “É importante reconhecer que as comunidades existem. Existe política, mas ela não chega até as nossas comunidades.”

Bisa Sabina, memória em construção

Além das 16 comunidades quilombolas já certificadas em Canguçu, o Quilombo Bisa Sabina, no quinto distrito, também carrega histórias de resistência e busca reconhecimento oficial. A liderança Vanessa Rodrigues Freitas, de 37 anos, nasceu em Pelotas e se criou em São Lourenço do Sul, onde começou a aproximação com a ancestralidade africana. “Foi onde iniciou essa educação da consciência da nossa ancestralidade africana.”

Vanessa Rodrigues Freitas, liderança do Quilombo Bisa Sabina, durante atividade comunitária em Canguçu
Vanessa Rodrigues Freitas, liderança do Quilombo Bisa Sabina, durante atividade comunitária em Canguçu | Crédito: Rafa Dotti

Mais tarde, ao se mudar para a localidade da Armada, em Canguçu, Freitas percebeu que vivia em um território historicamente quilombola. “A família Mendes vem dessa coisa de morar todo mundo no mesmo território, com várias casas próximas, criação animal, plantação de mandioca, batata-doce, feijão, os pomares de fruta. Então a gente notou que já estava quilombando há muito tempo.”

O nome da comunidade homenageia Bisa Sabina Mendes, ancestral da família que resistiu à expulsão do território por grandes fazendeiros. “Ela defendeu esse território junto com seus filhos.”

A simbologia da comunidade também expressa essa memória. Foi Freitas quem desenhou a bandeira do quilombo, reunindo fé, culinária, música e ancestralidade negra. “Coloquei o trigo para simbolizar a casa de farinha, o rosário pela fé, o tambor pela nossa música e um pezinho de pimenta pela culinária. E tudo em formato de coração, porque o povo quilombola é muito afetuoso.”

Vanessa Rodrigues Freitas segura a bandeira do Quilombo Bisa Sabina, desenhada por ela com símbolos da ancestralidade da comunidade
Vanessa Rodrigues Freitas segura a bandeira do Quilombo Bisa Sabina, desenhada por ela com símbolos da ancestralidade da comunidade | Crédito: Arquivo pessoal/Vanessa Rodrigues Freitas

Hoje, o Quilombo Bisa Sabina reúne 21 famílias, entre idosos, jovens, crianças e uma gestante. “Não tem preço ter os jovens dentro das atividades quilombolas. As crianças estão sendo conscientes de quem elas são e das suas origens.”

Estradas ruins e reconhecimento pendente

A logística é um dos principais problemas. “A nossa dificuldade maior é o trânsito”, explica Freitas. “Quando chove, as estradas ficam esburacadas, abrem rachaduras. O transporte coletivo é escasso. Tem ônibus às sete da manhã e depois só às quatro da tarde.” Diante disso, a solidariedade se torna fundamental. “Quando alguém vai para a cidade, pergunta se alguém quer carona. Um ajuda o outro.”

Diferentemente das 16 comunidades já certificadas em Canguçu, o Quilombo Bisa Sabina ainda aguarda reconhecimento oficial da Fundação Cultural Palmares. Também não há, até o momento, processo de regularização do território aberto no Incra. Atualmente, funciona como associação formalizada, com CNPJ e regimento interno. “Ninguém é dono de nada. Tudo que a comunidade recebe fica no nome do quilombo.”

Mesmo sem reconhecimento oficial, a comunidade já organiza ações de atendimento, especialmente para mulheres. “A gente trouxe atendimento clínico e ginecológico para a comunidade.” Para Freitas, fortalecer os territórios também significa construir relações coletivas com quem vive ao redor. “A nossa luta não é diferente da luta deles.”

As marcas da escravidão

Para compreender por que Canguçu se consolidou como um dos principais territórios quilombolas do Rio Grande do Sul, é preciso olhar para a violência que marcou a escravidão na região sul do estado.

Extensionista da Emater, professor de Geografia e quilombola do Cerro da Boneca, Leandro Rodrigues Flor cresceu ouvindo relatos da mãe e dos moradores mais velhos sobre a formação das comunidades negras rurais. “Eles foram se achegando, conseguindo um refúgio permanente. O interior aqui é muito serrano. Então vieram bastante para essa região porque era uma área de refúgio”, afirma.

A geografia do município teve papel central nas fugas de pessoas escravizadas das charqueadas de Pelotas. “Se esconder num lugar desses era afastado mesmo. Não tinha como achar.”

Leandro Rodrigues Flor, quilombola do Cerro da Boneca, resgata memórias sobre escravidão, pós-abolição e formação dos quilombos em Canguçu
Leandro Rodrigues Flor, quilombola do Cerro da Boneca, resgata memórias sobre escravidão, pós-abolição e formação dos quilombos em Canguçu | Crédito: Rafa Dotti

Rodrigues conta que, próximo da comunidade onde vive, ainda existem marcas concretas daquele período, como uma antiga fazenda com senzala, cerca de pedra construída por escravizados e, até pouco tempo, um tronco no pátio da estância.

As conversas com os mais velhos foram fundamentais para compreender as permanências da escravidão mesmo após a abolição formal. “A mãe me contava desde pequeno sobre famílias que tinham escravos. Depois de adulto é que fui compreendendo o que aquilo significava.”

As histórias familiares revelavam relações de exploração extrema no pós-abolição. “A mãe dizia que o pai dela não era escravizado porque tinha uma casinha. Mas depois fui entender que a relação era a mesma.” Segundo ele, os trabalhadores negros viviam em pequenas casas de barro em terras dos próprios estancieiros.

Rodrigues aponta que os proprietários rurais utilizavam inclusive relações afetivas e religiosas para fortalecer vínculos de dependência. “Eles batizavam os filhos desses trabalhadores. Era uma forma de criar vínculo afetivo. ‘Meu compadre’, ‘meu afilhado’. Mas era uma relação de exploração.” A mãe também relatava que os alimentos distribuídos eram, em geral, restos descartados pelos patrões.

Para ele, existe uma romantização histórica sobre essas relações. “Nunca houve relação de troca. A relação era de estupro, violência e apagamento sistemático.”

‘A pior escravidão que ele viu foi em Pelotas’

Durante as pesquisas, Rodrigues encontrou no livro “Viagem ao Rio Grande do Sul”, do naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire, uma das referências que ajudam a dimensionar a violência da escravidão nas charqueadas. “Saint-Hilaire fala que a pior escravidão que ele viu no mundo foi em Pelotas.”

Segundo o professor, o funcionamento das charqueadas impunha um ritmo de trabalho desumano às pessoas escravizadas. “O escravizado carneava o boi e levava o couro quente para dentro da água gelada do Arroio Pelotas, descalço, no inverno. Depois voltava para matar outro boi.”

As condições eram tão brutais que, segundo relatos históricos citados por ele, poucas pessoas sobreviviam por muitos anos. “Um escravizado em Pelotas não vivia mais do que seis anos.” Pessoas escravizadas consideradas “rebeldes” em outras regiões do país eram enviadas para Pelotas como punição. “Mandar para Pelotas era pior do que a morte.”

Na avaliação do quilombola, a violência praticada no sul do Brasil se aproxima dos episódios mais cruéis da escravidão nos Estados Unidos. Segundo ele, a violência sexual também fazia parte da estrutura escravista. “Os estancieiros tinham uma cultura de estupro em relação às mulheres escravizadas.”

Rotas de fuga e saberes de sobrevivência

As fugas para Canguçu aconteciam de maneira articulada. Segundo Rodrigues, os grupos definiam pontos de encontro e utilizavam referências naturais da paisagem para sobreviver. “Eles fugiam separados e depois se encontravam nos cerros.” A extensão territorial do município e o relevo acidentado ajudavam a dificultar a captura. “Muito mato, muita serra, um interior enorme. Era um lugar perfeito para se esconder.”

Paisagem do interior de Canguçu ajuda a entender o papel do relevo e da vegetação nas rotas de fuga e na formação dos quilombos
Paisagem do interior de Canguçu ajuda a entender o papel do relevo e da vegetação nas rotas de fuga e na formação dos quilombos | Crédito: Arquivo pessoal/Leandro Rodrigues Flor

De acordo com ele, alguns estancieiros acabavam tolerando a presença dos quilombolas porque utilizavam apenas as áreas planas para criação de gado. “As áreas ruins para plantar e criar gado acabavam ficando.” Saberes sobre ervas medicinais, manejo de animais e plantas tóxicas também ajudaram comunidades a sobreviver. “Cada um sobrevive com as armas que tem”, resume Rodrigues.

‘A escravidão aqui foi até os anos 1930’

Para Rodrigues, a ideia de que a escravidão terminou em 1888 não corresponde à realidade vivida pelas famílias negras do interior gaúcho. “A gente ainda tinha relatos de escravidão aberta aqui nos anos 1930.” Ele lembra que os pais e avós de muitos moradores nasceram logo após o fim formal da escravidão, mas permaneceram submetidos às mesmas relações de exploração. “Eles achavam que eram livres, mas não eram.”

Ao citar a abolicionista norte-americana Harriet Tubman, Rodrigues resume o sentimento que identifica nas histórias da própria família. “Ela dizia: ‘Libertei mil escravos e teria libertado mais mil se eles soubessem que eram escravos’.” Segundo ele, muitos trabalhadores negros sequer reconheciam a violência estrutural a que estavam submetidos.

Entre as lembranças mais dolorosas contadas pela mãe estão histórias de homens e mulheres negros que comiam “num cocho na beira da casa, como bicho” e de uma trabalhadora chamada Maura, que morreu sem direito sequer a velório. “A patroa disse que não precisava cerimônia nenhuma. Só deixar uma vela acesa.”

Leandro Rodrigues Flor com familiares, em registro sobre memória e continuidade entre gerações
Leandro Rodrigues Flor com familiares, em registro sobre memória e continuidade entre gerações | Crédito: Arquivo pessoal/Leandro Rodrigues Flor

Apesar de Canguçu concentrar hoje 16 comunidades quilombolas reconhecidas, Rodrigues avalia que a capacidade de pressão política ainda é recente. “Foram quatro séculos de dominação. Não é da noite para o dia que as pessoas passam a acreditar que têm poder. Nós temos 16 comunidades, mas ainda apitamos pouco.” Mesmo assim, acredita que o cenário começa a mudar. “Eu creio que agora a gente vai dar um salto de qualidade.”

Morador do quilombo Cerro da Boneca, comunidade formada por 72 famílias e localizada a cerca de 15 quilômetros do centro de Canguçu, Rodrigues vê nas novas gerações uma possibilidade de fortalecimento político e preservação da memória. “Isso tudo é muito recente. A escravidão aqui não terminou faz tanto tempo assim.”

Uma vereadora quilombola na Câmara

Aos 40 anos, a vereadora Maica Tainara Soares Ferreira entrou para a história de Canguçu ao se tornar a primeira mulher negra e quilombola eleita para a Câmara Municipal em 168 anos do município. Integrante da comunidade quilombola Potreiro Grande, localizada no segundo distrito da cidade, ela carrega uma trajetória construída dentro das lutas coletivas das comunidades negras rurais da região. “Eu estou vereadora, mas eu sou quilombola”, afirma.

Antes de assumir o mandato, Ferreira atuou por mais de 11 anos na Coordenadoria de Etnias do município, acompanhando as demandas das 16 comunidades quilombolas.

Segundo ela, a presença histórica dessas comunidades está ligada às rotas de fuga dos negros escravizados das charqueadas da região de Pelotas. “A gente acredita que, devido à situação das charqueadas que aconteceu ali em Pelotas, esses negros vieram para Canguçu.” Um dos exemplos é a comunidade Cerro da Vigília, localizada em ponto alto do território. “Era um ponto do qual os negros ficavam vigiando.”

As comunidades certificadas estão espalhadas pelos cinco distritos, algumas a até 70 ou 80 quilômetros da área central. Entre elas, há também um quilombo urbano, Filhos dos Quilombos, formado por famílias oriundas dos quilombos rurais.

O processo de organização do Potreiro Grande começou no final dos anos 1990 e início dos anos 2000, período em que as comunidades passaram a buscar a certificação da Fundação Cultural Palmares. Hoje, os 16 quilombos de Canguçu possuem certificação oficial. No entanto, a titulação definitiva dos territórios ainda é um desafio.

“Sobre a titulação, nós temos dois, que é o Maçambique e a comunidade Manoel do Rego, que têm um processo mais avançado. As outras estão apenas com processo aberto no Incra.”

Racismo estrutural e acesso a políticas públicas

Para Ferreira, os principais problemas enfrentados pelas comunidades continuam sendo a infraestrutura e o acesso às políticas públicas. “Muitas vezes a gente é conhecedor da política, sabe que tem a política, e a luta é para que realmente os sujeitos de direito acessem.”

Maica Tainara Soares Ferreira, primeira mulher negra e quilombola eleita vereadora em Canguçu
Maica Tainara Soares Ferreira, primeira mulher negra e quilombola eleita vereadora em Canguçu | Crédito: Rafa Dotti

Única mulher e única pessoa negra na Câmara de Vereadores, ela também ressalta o peso do racismo estrutural na atuação política. “Nós, enquanto mulheres, já sofremos por questão de gênero. Mas ainda mulher negra, a gente sabe que tem todo um recorte racial que infelizmente é diferenciado.” Segundo ela, tudo precisa ser feito em dobro para provar competência.

A decisão de disputar as eleições surgiu de uma construção coletiva. “Foi uma construção que se originou das 16 comunidades quilombolas”, conta. “Eles acharam que era importante dar esse passo. Até mesmo para poder ajudar mais, ter mais autonomia, mais estrutura.”

Mesmo sendo o município com maior número de quilombos certificados do estado, Ferreira afirma que grande parte da população ainda desconhece essa realidade. “Há uma invisibilidade”, diz. “E até mesmo devido ao racismo e à discriminação que infelizmente imperam ainda na sociedade.”

Ela relembra que, durante a formação escolar, a história negra era abordada apenas a partir da escravidão. “Nada sobre a contribuição do negro na culinária, nas vestimentas, na cultura.” Para a vereadora, a implementação da Lei 10.639, que estabelece o ensino da história e cultura afro-brasileira nas escolas, ainda é insuficiente.

Nas comunidades quilombolas de Canguçu, a agricultura familiar segue sendo a principal fonte de renda, acompanhada da produção de artesanato e produtos caseiros. Filha de agricultores, Ferreira relembra o pai, hoje com 73 anos, que ainda atua na lavoura com métodos tradicionais. “Ainda com o trabalho manual, com boi arado, que é uma coisa rara hoje.”

‘Nunca mais sem nós’

Pela primeira vez, segundo a vereadora, os quilombolas foram incluídos no Plano Plurianual. Entre as medidas aprovadas está um projeto de cotas que reserva 10% das vagas para quilombolas, 7% para população negra e 3% para indígenas. Ferreira também atua como Procuradora Especial da Mulher, espaço criado a partir de projeto apresentado por ela.

Diante dos recorrentes casos de racismo, especialmente no ambiente escolar, Ferreira defende denúncia e responsabilização. “Infelizmente ainda a cor da pele chega primeiro.” Apesar dos desafios, reforça a resistência coletiva. “A mensagem que eu deixo: o importante não é ser a primeira, mas abrir caminhos para que outras pessoas virão. Nunca mais sem nós.”

Maria Florinda Crespo Mendes com crianças do Passo do Lourenço e Arredores, em registro sobre memória e saberes entre gerações
Maria Florinda Crespo Mendes com crianças do Passo do Lourenço e Arredores, em registro sobre memória e saberes entre gerações | Crédito: Arquivo pessoal/Tatiana Dias Shug

As comunidades quilombolas de Canguçu

As 16 comunidades quilombolas reconhecidas em Canguçu são Armada, Bisa Vicenta, Boqueirão, Cerro da Vigília, Cerro da Boneca, Cerro das Velhas, Estância da Figueira, Favila, Faxinal, Filhos dos Quilombos, Iguatemi, Maçambique, Manoel do Rego, Passo do Lourenço, Potreiro Grande e Santa Clara e Arredores.

De acordo com o Incra, Maçambique e Manoel do Rego estão com a primeira peça do Relatório Técnico de Identificação e Delimitação (RTID) concluída: o relatório de caracterização social, histórica e antropológica. Em Maçambique, está sendo feito o cadastro das famílias, com previsão de publicação do RTID neste ano. Em Manoel do Rego, o trabalho está sendo retomado após a comunidade ter suspendido o processo há alguns anos.

Os outros 14 processos aguardam condições operacionais, como recurso orçamentário, financeiro e disponibilidade de servidores para execução das demais peças técnicas.

Editado por: Katia Marko

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